<strong>Contos</strong>

Contos

Além de ser romancista, R. Lovato foi um dos premiados no Panorama 2010/2011 da FC do B com o conto Nulla in mundo pax sincera, publicado em dez/2011.

Também foi premiado com o conto A moeda humana do Banco Central no concurso Nossos Valores na I Semana Organizacional do Banco Central do Brasil.

Ponto cego


 

Essa é uma história sobre aquilo que eu não vi.

Desde o dia em que nasci ele existia. Dizem que foi ele quem escolheu meu nome. Agradeço o bom-gosto. Adoro me chamar Tarcizio.

Nossa! Relembrando o passado encontro certa dificuldade em acreditar que faz tanto tempo. Inegável, envelheci. Acho que é hora de aceitar e parar de… Isso é outra história. Voltemos.

Crescemos juntos. Seu nome é uma de minhas lembranças mais antigas. Flávio, venha aqui!; Flávio, não faça isso!; Flávio, não incomode seu irmãozinho! e assim por diante.

Não nego que gosto do meu irmão.

Porém, nem tudo são flores em ser o mais novo. Nunca apreciei suas caras feias para mim. Ou ele pegando meus carrinhos e estragando-os, dentre coisas do tipo.

No entanto, sempre foi bom possuir um irmão mais velho.

A impressão que conservo é que nunca estive totalmente sozinho. Alguém já passara pela situação em que me encontrava. Ou seja: não era eu a cobaia dos experimentos domésticos. Sempre tomei remédios que minha mãe testara nele. Ganhava os brinquedos que ele mais gostara. Muitos dos males que eu possivelmente experimentaria foram prevenidos: Flávio passou por eles antes.

É quase meu protetor. Por que não, um anjo da guarda! Sempre antecipado a mim, bombardeado pelas mazelas da vida. Assim, o irmãozinho, eu, não precisou sofrer tanto.

Ao que recordo, minha infância foi tranquila, apesar do ciúme de Flávio. Ainda ouço sua voz: Você gosta bem mais dele do que de mim!; Ele pode fazer tudo!; Odeio o Tarcizio. Esse guri veio pra me atrapalhar.

Claro que nunca levei isso a sério. Afinal, ele é meu superirmão! Forte, grande, a quem todos temem!

Sempre me protegeu no colégio, desde o jardim de infância. Não raramente ouvi Não mexe com este pirralho, é o irmão do Flávio.

Certamente escapei de muitas surras sem nem mesmo saber. Obrigado, mano véio.

Ah! Antes de seguir nos acontecimentos, importante confidenciar algo a vocês. Sempre achei-me um louco. Por quê? Eu vejo coisas.

Calma, calma! Não são espíritos nem monstros. Quer dizer, já vi sim alguns monstros… Não estragarei a história. Deixemos isso para o final.

Bem, o que vejo é certa modificação nas pessoas. Suas cabeças. Vejo-as com cabeças de animais, dos mais variados.

Loucura total, não é mesmo?

Explico. Eu ainda pequeno, seis anos à época, certo dia uma mulher visitou-nos. Para meu espanto, não pude ver seu rosto humano. Em seu lugar vi uma cabeça de poodle! Conversa vai e vem daquela poodle com minha mãe, percebi que sua voz era fina e estridente. E não parava de falar um minuto sequer, absolutamente ansiosa.

Típica cachorrinha poodle de fato. Em corpo de gente.

A partir daquele dia minha vida se transformou num zoológico. Motoristas de ônibus com cabeça de porco. Pessoas de terno e gravata com cabeça de asno. Padres com cara de raposa! E um coleguinha de infância que constantemente aparecia com cabeça de ornitorrinco.

Não preciso dizer que nunca consegui descobrir o que ele era de fato. Ainda hoje me intriga saber o que aquela cabeça significava.

Com o passar dos anos classifiquei as famigeradas cabeças que via. Cachorro, desde que raças amigáveis (basset e labrador, por exemplo), é bom sinal. Vaca ou touro também são pessoas tranquilas. Vi um hipopótamo uma vez e era um dos rapazes mais brigões que conheci. Gatos geralmente são pessoas sábias e independentes. Uma cabeça preocupante é a de coelho. Geralmente a pessoa é bem maluca. Mas o verdadeiro perigo é as cabeças de leão (pessoas geralmente agressivas, porém não totalmente descontroladas), panteras, tigres e afins. Essas mostram-se extremamente controladoras e violentas. E os lobos, é claro.

Particularmente, e não sei bem o motivo, lobos são especialmente maus.

Quase esqueço: não vejo essas cabeças o tempo todo. Elas aparecem e desaparecem como um flash. Podem durar mais tempo dependendo da pessoa.

A mulher-poodle, por exemplo, ficou com a cabeça de cachorro o tempo todo de sua visita. O rapaz-hipopótamo eu via a cabeça do bicho cada vez que ele falava. Um assassino, que vi na televisão e que se dizia inocente da morte de um rapaz de 10 anos, apareceu com uma cabeça de lobo preto o tempo todo.

Eu vi lobos pretos, marrom-claros e cinzas. Estes últimos se provaram os piores.

É neste ponto que voltamos ao meu amado irmão Flávio.

Como podem imaginar, ele sempre foi líder e modelo para mim. Mesmo quando descobri algo perturbador.

Num belo dia, nosso vizinho Pedrinho abriu berreiro pois alguém o apedrejou com uma funda. Sem demora, Flávio entrou em casa e comentou: Coitado do Pedro, aprontaram uma pra ele!. Então eu vi.  Um calmo lobo cinza, que se virou para mim e perguntou: Quem será que foi? e sorriu.

Um sorriso mau, quieto, silencioso.

Após aquele dia, observei mais de perto meu irmão. Até então, claro que eu percebia a enormidade de maldades que ele aprontava no colégio. De roubar merendas de coleguinhas a praticar bullying. Porém, sempre classifiquei como coisa normal de garoto.

Ainda mais que eu era mais novo e achava aquilo tudo o máximo.

Mas a agressividade de Flávio chegava cada vez mais perto de casa.

E crescia a cada dia.

Noutra ocasião, mamãe chamava por Snarf (nosso gatinho à época) e o bichano não aparecia. Ela perguntou ao Flavio se sabia do gato. Não., foi sua seca e displicente resposta. E lá estava: o lobo, que olhou nos meus olhos e sussurrou O que você fez com o gato? e gargalhou.

Eu via sua verdadeira cabeça. Claro que ele não sabia, mas eu via. Não o Snarf! Aquilo me apavorou. Era demais! Após o gato, seria a minha vez?

O tempo passou. De namoradinhas com cabeça de piranha a professores com cara de burro, meu irmão seguia com cabeça de lobo.

Não preciso dizer que sempre morri de medo dele. Uma vida ouvindo uivos na calada da noite e pesadelos com lobos me devorando. Nunca achei graça na história do chapeuzinho vermelho, asseguro-lhes.

Eu sabia todas as vezes que ele praticava maldades. Invariável, lá se encontrava o lobo cinza. Com o tempo aprendi que antes dele fazer algo ruim a cabeça de bicho aparecia. Um presságio. Como num dia, prestes a dar um tranque num garoto, a cabeça bizarra apareceu. E o rapaz caiu e quebrou o braço.

Eu previa situações, como vocês perceberam a esta altura. Em vista das circunstâncias, era um dispositivo de sobrevivência. Pois todas as noites eu dormia ao lado de um lobo. Cinza. Mau. Pronto para uivar e me atacar e me devorar.

E meus medos se confirmaram.

Flávio virou lobo em duas ocasiões para mim. Com sete anos de idade estraguei um carrinho de controle remoto que ele adorava. Quando ele viu, foi tudo muito rápido. A cabeçorra apareceu. No segundo seguinte vi seus dentes brancos me mordendo e gritei e chorei e corri mas o lobo corria mais do que eu. Mamãe salvou-me. Acabei sem um dente e todo mordido. Na outra, eu com quinze (ele é seis anos mais velho do que eu), quando…

Isso fica para depois. Voltemos um pouco.

Desde jovem, ele sempre agiu com extrema violência. E com o passar dos anos se tornou ainda mais perverso e propenso a delitos e abusos. Volta e meia chegava a casa com relógio diferente. Ou dinheiro sem fonte lícita. E sempre, invariavelmente, com a cabeça do lobo cinzento sobre os ombros.

Eu me preocupava com o desfecho de sua vida de lobo delinquente. E era questão de tempo para que o líder me angariasse para a matilha. Ou me jogasse aos outros lobos. Sabia disso.

Flávio com quatorze anos me mostrou onde guardava sua coleção de canivetes e facas. Aos dezesseis, apareceu com um revólver. Chegou a apontá-lo para minha cara, certa vez.

Graças a Deus sua cabeça encontrava-se normal!

Vocês devem se perguntar: E a mãe, nada fazia?

Fato é que ela não se importava. Ou dissimulava que de nada sabia. A vida é mais fácil assim. Fingir que não acontece. Eu poderia fingir que Flávio não é um lobo. O problema é a cabeça. E os uivos. E o monte de pelos no quarto, sobre minha cama, nas minhas roupas…

Não éramos ricos. Mas nada faltava a mim ou Flávio. Boas roupas. Brinquedos decentes. Colégio adequado. Ele não precisava roubar. Não precisava praticar maldades.

O que fazia é porque gostava. Acho que certas pessoas são simplesmente assim. Más. Precisam do descontrole. Da perversão. E não há o que ser feito a esse respeito. É sua natureza.

Voltando ao meu dom, eu vi pessoas com cabeça de praticamente tudo. Peixes, aves, felinos, paquidermes, mesmo um homem pachorrento com cabeça de flamingo. Porém, jamais vi outras pessoas com cabeça de macacos.

E isso é ótimo! Morro de medo de macacos. Seus risinhos. Mãozinhas geladas. Dentes pontiagudos. Pelos. Rabo… Nunca se sabe o que passa na cabecinha doente deles. O que aprontarão?! Pavorosos.

Essa aversão a símios começou numa noite chuvosa. Era minha obrigação colocar o lixo na rua à noite. E naquela esqueci. Já me encontrava deitado e pronto para dormir. Ainda assim, mamãe me obrigou a sair de pijamas na chuva, com terríveis relâmpagos… Naquela noite meus pensamentos eram de que realmente podia matá-la, tamanha minha raiva. Foi quando o vi na calçada defronte nossa casa. Um macacão horroroso, de pelagem verde-oliva, com nádegas e rosto multicoloridos. Focinho vermelho e azul, e em seu queixo uma barbicha amarela brilhava a luz dos relâmpagos. Eu me encontrava no gramado, guarda-chuva numa mão e saco de lixo na outra. Ele me encarou. Congelei. Dei um paço atrás e ele guinchou terrivelmente, abrindo sua bocarra.

Eram os maiores dentes do mundo. O que fazer? Eu certamente morreria em poucos segundos.

Tremia dos pés à cabeça. O monstro andava dum lado a outro, claramente enraivecido. Olhava-me nos olhos. Atacaria a qualquer momento. Então ouvi mamãe: O que cê tá fazendo aí parado, olhando pro nada? Sai da chuva, menino!.

Puf, o bicho medonho desapareceu.

Narrei o acontecido para mamãe. Pela descrição, ela falou ser um mandril, macaco africano extremamente agressivo.

Leões temem esse macaco, deus do céu! A visão daquele monstro dentuço e colorido tirou meu sono por anos. Ainda hoje, relembrando, arrepio-me. Felizmente, jamais vi uma cabeça dessas em outras pessoas.

Bem, retornemos ao motivo de nossa conversa. Eu com quinze anos. Flávio chegou arfante em casa. Olhar assassino.

Esperava por sua cabeça de lobo a qualquer momento.

– A mãe viu o machado. Descobriu sobre aquela história. Disse que passamos dos limites e vai à polícia – apontou Flávio.

Eu não lembrava de que história Flávio falava. Também pudera, ele aprontava tantas.

– Qual?, perguntei.

– Aquela da moça… Você sabe, não se faça de louco, Tarcizio!

Ah, sim, lembrei. A moça.

Se não pode vencê-los, junte-se a eles.

– E?…, restringi-me a responder.

– Como assim, E?! – Disse Flávio. – Vai dar merda, pô!.

– Hm – dei de ombros.

– Darei jeito de calar a boca da velha – falou Flávio, abrindo a gaveta da cômoda e pegando o revólver.

Quando se virou para mim, lá estava: o lobo. Cinza. Mau. Pelos. Uivos. Mordidas. Matilha. Seguir o líder. Fazer o que mandam. Junte-se a ele ou morra despedaçado.

O que aconteceu em seguida durou não mais do que um piscar de olhos. Porém, o que pensei foi muito mais complexo e demorado. Elucido.

O que a matilha fez com a moça não é agradável de contar. E mais: há duas semanas a polícia procurava os culpados. E eu sabia do que o lobo Flávio era capaz. Mas mesmo que mamãe nos dedurasse, não podia permitir…

Aqueles dentes brancos pontiagudos, os uivos. O lobo a devoraria.

Não mamãe… Não o Snarf… Coitado do Pedrinho…

Tonteei. O quarto girou. Tudo surreal. Repentino, eu vi! Meu Deus!

Congelei.

O mandril!

Não pode ser! Flávio!?

Agora o lobo mostrava os dentes para mim…

Este lobo desgraçado vai me atacar. Matar-me. Preciso fugir, o mandril… Macaco dos infernos! O que faz aqui no meu quarto? Onde você se escondeu, maldito?!

Novamente vi o mandril de relance.

Que merda você fez com o gato? Eu só dei uma pauladinha nele! E o Pedro é um chorão mesmo. Não fiz nada de mais! O lobo é o problema! Não para de uivar. Infesta o quarto de pulgas, nojento! Você não vai fazer isso com mamãe seu mandril filho de uma…

Pronto.

Olhei para Flávio. Não teve tempo de se defender. Meu taco de baseball foi mais rápido.

Sangue por tudo.

Ele não mais respirava.

Eu arfava.

Não fiz nada de mais. Matei um mandril de merda. Ele era mau.

Foi quando levantei meus olhos para a parede e o vi novamente. Horrível, dentes enormes a mostra, guinchando, o mandril.

Meu Deus! Ele vai me matar!

Mas ele sorria para mim.

Foi quando percebi que o que eu via nada mais era do que um espelho na parede. Com o reflexo da minha cabeça!

Mamãe? Não gostou do que fiz. Mas afinal sou filho dela.

E eu?

Talvez devesse procurar qual cabeça eu mesmo usava sem me preocupar tanto com a dos outros. Quem sabe prestando mais de atenção em mim mesmo, Flávio ainda vivesse.

Porém, ele era mesmo um merda de um lobo pulguento.

Problema dele.

"5" comentários em: Ponto cego

  1. Rafael - 18 de abril de 2012

    Via Facebook
    Jussara Filomena Lourdes
    Você escreve muito bem!!!
    Rafael Lovato: Que bom que gostou, Jussara. Bjão!

  2. Rafael - 22 de março de 2012

    Via Facebook
    André Corrêa
    Esse é um dos seus textos que eu mais gosto!
    Rafael Lovato: Valeu, meu amigo mineiro!!!!

  3. Rafael - 22 de março de 2012

    Via Facebook
    Rosiane Ceolin
    Mto bom, gostei.
    Rafael Lovato: Valeu minha querida Rosiane, bjão!

  4. Anelise Mondardo - 26 de fevereiro de 2012

    Rafael, li o conto e gostei muito do enredo, da história, da narrativa. Por um instante, me peguei pensando: Tarcisio e Flavio são a mesma pessoa? Evidente que no conto a relação entre irmãos fica explicita, mas pensei como é tênue essa relação de amor e odio, bondade e maldade dentro de todos nós. Vem cá, tens mais desses contos? Gostaria de ler mais produções tuas, afinal não é sempre que um amigo querido dos tempos de colégio se lança assim no mundo das letras. Bj anelise

    • Rafael - 26 de fevereiro de 2012

      Querida Anelise: eu somente iniciei a escrita de contos 6 meses atrás, pois dedico-me mais aos romances. Por isso não tenho muitos escritos (devo ter outros 5 ou 6 não publicados no site). Mas se você procura leitura intimista, indico que leia as colunas do Joshua, talvez goste. Se gosta de temas mais fortes, não deixe de ler Nulla In Mundo Pax sincero. Um bjão minha querida, sempre lembro de você com muito carinho.

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