<strong>O peregrino Joshua</strong>

O peregrino Joshua

Joshua é uma coluna com publicação semanal às quintas-feiras no Jornal Diário Regional e aos sábados no Jornal Folha do Mate.

Nela Rafael Lovato trata de temas cotidianos vivenciados por um velho peregrino, no início do século passado.

A série "O peregrino Joshua" está sendo publicada pela Editora Zap Book, e contará com ao menos 7 volumes, e que podem ser comprados no site www.zapbook.com.br

16 fevereiro 2012

Carência de atenção e animosidades

 

Naquela manhã, o peregrino Joshua iniciou sua caminhada quando ainda era escuro. Com os primeiros raios do sol, viu gotículas de orvalho pendendo das folhas das árvores, pequenos animais despertando para mais um dia. Pensou que não se cansava de testemunhar o nascer do sol, que o fascinava. A infalibilidade do aparecimento da luz, do calor, emprestava-lhe tranquilidade, e não sabia exatamente o porquê.

Murmurou para si mesmo:

– Talvez por que assim também é a perpetuidade cíclica do renascer dos homens. Permanecemos no mundo. E renovamo-nos a cada alvorecer.

Ouviu, ao longe, um galo cacarejar, e sabia que chegava a mais uma cidadela. Sem demora, sentiu cheiro de café quando passou perto de uma janela, e seu estômago roncou. Entrou em uma vendinha para o desjejum, sentando a uma das mesas.

Pensava no mundo, no orvalho e no renascer cíclico dos homens quando o proprietário da vendinha, enquanto servia uma xícara de café com leite, comentou:

– O senhor é aquele peregrino, certo? Joshua?

Joshua aquiesceu.

– Então, talvez o senhor possa me ajudar.

Joshua olhou para o homem:

– Meu amigo, o que houve?

O homem sentou-se a mesa:

– Sabe, mal dormi nessa noite. Pensando… E não consigo compreender: por que as pessoas agem de determinadas maneiras?! Será que são mal-amadas? Por que se esforçam em entregar desgraça à vida alheia?

– O dia mal começou, e seu cérebro já lhe atormenta?

– E há como não pensar? Mas, darei o troco…

Joshua se ajeitou na cadeira:

– Nos longos anos da minha passagem nesse mundo, é bem verdade que presenciei ignomínias e injustiças patrocinadas gratuitamente. Testemunhei ofensas desmerecidas e perseguições infundadas. Eu mesmo fui alvo de tentativas de ruína – Joshua pausou por um momento. – E, quanta raiva circulou por minhas veias! Planos mirabolantes de desforra e vingança. Dias e mais dias remoí indignação, e perdi inúmeras noites de sono, exatamente como o amigo.

– Sei muito bem do que o senhor fala.

– Mas, certo dia percebi que era exatamente isso que queriam: roubar minha paz. E o maior prejudicado de minha irritação era eu mesmo! Então, passei a ignorar atitudes gratuitas de animosidade, relegando-as à desimportância.

O homem cruzou os braços:

– Fácil falar… Por mim, matava tudo!

Joshua ajeitou a bengala, escorando-a na mesa:

– Descobri coisas interessantes quando parei de repelir meus agressores e me aproximei deles. E, alguns eram realmente mal intencionados. Muitos deles hipócritas, e a grande maioria infeliz. Mas, absolutamente todos, sem exceção, eram simplesmente carentes. Então, ao invés de reagir e agredir, estendi minha mão. E, muitas vezes, acabei descobrindo, ali, uma boa pessoa.

O homem descruzou os braços:

– O senhor tá falando sério?

– Meu amigo, devemos tentar entender as atitudes alheias. Muitas vezes, a pessoa somente busca nossa atenção. Desarme-se. Oportunize compreender o agressor e, talvez, perceba que ele também se sentia agredido por você. Existem pessoas más no mundo, sei disso. Que entendem o perdão e a benevolência como afrontas. Mesmo que isso ocorra, não desista.

– Hm… Acho que entendi o que o senhor quer dizer.

Joshua olhou nos olhos do homem:

– E é por isso que minha verdade lhe digo: mesmo nas pessoas que o machucam, tente encontrar a sua paz. Faça a sua parte, pois, no momento em que encontrar a si mesmo, não mais perderá um minuto de sono.

"15" comentários em: Carência de atenção e animosidades

  1. Rafael - 14 de fevereiro de 2014

    Via FACEBOOK
    Ines Hoffmann
    uma grande verdade da humanidade!

  2. Rafael - 14 de fevereiro de 2014

    Via FACEBOOK
    Ariete Presseler
    Muito bom! Se cada um mudasse um pouco…Abços..

  3. Rafael - 14 de fevereiro de 2014

    Via FACEBOOK
    Norton Campos
    Lindo,meu queridooooooooooooo,baita abraco!!!

    • Rafael - 14 de fevereiro de 2014

      Abração meu amigo Norton!

  4. Rafael - 14 de fevereiro de 2014

    Via FACEBOOK
    Heloiza Averbuck
    Muito bom Rafael!

    • Rafael - 14 de fevereiro de 2014

      Bjo minha querida Heloiza!

  5. Rafael - 14 de fevereiro de 2014

    Via FACEBOOK
    Elis Cristina Castro Pfingstag
    Incrível, refletindo…é a mais pura verdade. Quando não conseguimos a atenção que gostaríamos de ter das pessoas que estimamos usamos da agressão. Isso é a carência na sua mais pura essência! Para suprirmos essa desatenção usamos da agressão…para chamar atenção, para ser ouvido, para ser lembrado, para ser notado. Mas não se conquista o que se deseja sendo assim, o saldo será negativo. Para agressões, seja na forma que vier, geralmente todos estão atentos, armados e alguma forma de retorno é dada. Se o objetivo era aproximar, o efeito é o contrário – afasta. Realmente, o caminho está errado! Carência se trata com amor, compaixão e não com agressão!!!Muito a aprender ainda!!!

    • Rafael - 14 de fevereiro de 2014

      Bjão Elis!

  6. Rafael - 14 de fevereiro de 2014

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    Bica Stein
    Adorei bem por ai …sem palavras!

    • Rafael - 14 de fevereiro de 2014

      Valeu Bica!

  7. Rafael - 14 de fevereiro de 2014

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    Carla Rocha Lima
    lindo vou levar !!

    • Rafael - 14 de fevereiro de 2014

      Bjo Carla!

  8. Rafael - 1 de março de 2012

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    Luiz Antonio Frólio Frólio
    Parabéns, gostei.
    Rafael: Abração, meu irmão.

  9. Rafael - 1 de março de 2012

    Via Facebook
    Marcelo Fontella Hornos
    Esse é meu amigo Rafa !!! Gosto da riqueza de detalhes quado tu escreves. estás melhor do que nunca! Parabéns…
    Rafael: poxa, valeu meu bom amigo! Saudade dos nossos papos.Grande abraço.

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