<strong>Contos</strong>

Contos

Além de ser romancista, R. Lovato foi um dos premiados no Panorama 2010/2011 da FC do B com o conto Nulla in mundo pax sincera, publicado em dez/2011.

Também foi premiado com o conto A moeda humana do Banco Central no concurso Nossos Valores na I Semana Organizacional do Banco Central do Brasil.

Nulla in mundo pax sincera

 

*Conto premiado no concurso bienal de contos da FC do B, Panorama 2010/2011, publicado em dez/2011.

*Conto que a Oxford University Press comprou os direitos para utilizar por 10 anos em seu material didático para ensinar crianças a escreverem um conto de ficção científica.

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Nulla in mundo pax sincera

sine felle; pura et vera,

dulcis Jesu, est in te.

Inter poenas et tormenta

vivit anima contenta

casti amoris sola spe.

 .

Unidade de catálogo: Via Láctea.

Sistema: humanóide. Base de carbono. Planeta de 4ª grandeza.

Motivo do arquivo: consequências evolucionárias.

Sidera é meu nome.

Minha civilização anota acerca do universo. Calcula. Conta. Observa. Sente as entidades. Conclui.

Mas não interfere.

Desde a formação deste universo acompanhei maravilhas e tristezas.

Minha função é organizar memórias. Para não se perderem.

As presentes neste arquivo são a respeito de escolhas. E de como afetam o futuro individual, bem como o da espécie envolvida.

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Manifestou-se através de depoimentos. Recados. Imagens. Memórias.

Iniciou o arquivo com Vivaldi.

Pax sincera.

Linda melodia.

- Pai, não me encontro em paz – disse, com olhos vermelhos. – Perdoe-me.

 .

O mandamento insculpido no artigo 1º da Lei da Deletação era claro. Aparentemente simples.  A ‘Lei do Arrependimento’, como chamavam-na.

Cabe aos pais o direito de se arrependerem de possuir um ou mais filhos.

Interessante!, para alguns.

E o que acontece aos filhos?, muitos perguntaram.

Deletados. Lei da Deletação era o nome. Removidos do mundo. Assassinados.

De maneira digna e indolor, dizia a lei.

Chocante!, para muitos.

O procedimento servia ao único propósito de conferir o direito de arrependimento aos pais. O Estado não interferia. Assim como não interferia na concepção.

Cabe aos cidadãos o direito de decidirem ter um filho. Sem necessidade de autorização. Basta vontade. Não pode ser diferente com a decisão de não mais possuir esse mesmo filho.

Bastava simples justificativa.

E ele possuía motivos.

.

O geoide Terra se encontrava superpopulado.

Precisamos de alternativa. O Estado, preocupado.

A tecnologia não propiciava a colonização permanente de outro planeta.

A fome é preocupante em países subdesenvolvidos. Manchetes. Intermináveis manchetes.

Lei da Deletação, apresentou um congressista.

Modo geral, a população não rejeitou o dispositivo.

Genocídio legalizado!, a visão de muitos.

Liberdade!, entendimento da minoria que decidia o futuro dos homens.

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Noite chuvosa. Vento forte. 200 quilômetros de distância.

- Cuidado com as curvas. Vá devagar – orientou a Rafael, seu filho mais velho.

‘Preferia que Guilherme dirigisse. Centrado. Responsável. Calmo. Nunca excede o limite de velocidade do hovercar.’

- Pode deixar, velho – respondeu.

Rafael, Guilherme e Amanda, sua esposa e mãe de ambos, passariam o final de semana na serra.

- Nos vemos amanhã – falou Amanda beijando-lhe os lábios.

Não.

Não a viu no dia seguinte. Nem a veria em qualquer outro dia.

Não naquela vida, ao menos.

Em uma das curvas, o vento lateral lançou o hovercar para fora da pista.

Capotou.

Matou.

Guilherme e Amanda.

Rafael sobreviveu.

Acima da velocidade permitida, informou o laudo.

Rafael sobreviveu.

‘Não por muito tempo.’

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Quanto devemos avançar no futuro para finalmente regredirmos ao passado enquanto espécie?’, desafiava um panfleto sujo. Impresso em obsoleto papel. Amassado. Largado ao acaso.

Contrastava com vitrines high tech. Com propagandas de pílulas da longevidade. Com petabytes de informações digitais veiculadas wireless.

Logo, voltaremos às árvores. Macacos. Finalmente! E o ciclo encerrará…

Panfleto incisivo.

Indignado.

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- Rafael era o primogênito – continuou seus apontamentos na justificativa de deletação. – O filho esperado, planejado. Amanda enfrentou dificuldades para engravidar. Precisamos de longo tratamento. Uma criança problemática desde o nascimento – pausou. – Melhor: desde a concepção. Quando veio ao mundo quase matou a mãe. Feriado. Médicos fora da cidade – parou, revivendo os acontecimentos. Olhos vítreos. – Enfermeiras procederam ao parto. Algum resquício de placenta ou algo assim não foi removido. Amanda adoeceu seriamente. Infecção. Permaneceu semanas no hospital. Quase morreu. Rafael pregou peças desde que nasceu. Ficou com uma tia enquanto eu permanecia plantado ao lado da cama no hospital. Rezando. Chorando. E isso foi somente o início. Consegui dormir uma noite decente de sono somente dois anos após seu nascimento. Chorava incessantemente. Parecia de propósito. Não dormia.

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A religião condenava a deletação.

Pecado.

Porém, a evolução daquela raça humanoide afastou-a dos conceitos de céu e inferno.

Ciência, a nova Deusa.

Acreditamos no comprovável empiricamente, a esmagadora maioria.

Pecado.

Vocês alimentaram os vermes com seu Rei!, rebatia a mídia pró-Estado.

Pecado.

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A Lei da Deletação também conferia aos pais mais uma decisão.

É direito dos pais escolherem pela remoção das memórias relativas ao filho deletado, dizia a Lei.

Implantes mnemônicos. Ciência. Solução. A nova Deusa.

Podiam permanecer com memórias de todo o acontecimento. Ou removê-las completamente. Os pais possuem o direito de escolherem entre sofrerem ou não com o procedimento, mídia pró-Estado.

Em qualquer dos casos, era como se nunca existisse o filho. Nada relativo a ele permanecia no mundo. Nem fotos. Pensamentos.

Se produziu obra relevante será conferida autoria a outra pessoa.

Lei era Lei.

Possuindo, o casal, mais de um filho, suas memórias permanecerão idênticas às dos pais.

Porém, outros membros da família podiam optar por reterem suas memórias.

Ele optou por esquecer Rafael.

Completamente.

Suas memórias permaneceriam com Amanda e Guilherme.

A família perfeita.

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- Roberto é homem sério – apontou uma testemunha na manifestação. – Jamais requisitaria a deletação a menos que possuísse os mais profundos e inarredáveis motivos. Conheci Rafael. Terrível. Não chego a dizer que merecia. Mas ninguém sentirá sua falta.

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O comunicador universal tocou.

Despertou taquicárdico.

3h30min. Madrugada de sábado.

‘Rafael!’

20 anos à época.

Roberto não dormia um único final de semana sem algum dissabor. Hovercar batido. Brigas. Vômito pela sala. Barulho. Desrespeito.

- Alô…

- Boa noite desculpe incomodar sei que é tarde mas tive de ligar o senhor entende a coisa é complicada me desculpe mas não sei o que fazer onde a gente ia pra quem ligar o senhor entende… – A voz era de um rapaz.

- Claro. Acalme-se. Não há problema. Quem fala?

O coração queria saltar boca afora. Nunca se acostumou àquele tipo de situação. Enorme estresse.

- É o Mijado.

‘Por que as pessoas do círculo de relações de Rafael sempre apresentam os mais variados, absurdos e ridículos apelidos?’

- Certo… O que aconteceu?

- É o Rafael tamo no hospital acho que é melhor o senhor vir aqui não sei o que fazer…

Amanda acordou. Sua angústia causava no imo de Roberto indescritível ódio por aquele filho. Que incessantemente martelava os pais. Causava sofrimento.

‘Maldito.’

Com o alarde, Guilherme acordou.

Só dois anos mais novo.

Dormia tranquilamente. Namorava amável garota. Caseiro. Não bebia. Não vomitava. Não fedia a álcool. Não acordava seus pais no meio da madrugada. Não batia o hovercar.

Perfeito.

‘Meu filho.’

- Eu dirijo, pai.

No hospital encontraram somente Rafael. Os amigos sumiram.

Aparente, Mijado relatou ao médico que tomavam bolderdreams, espécie de cachaça misturada a ópio. Disputavam quem bebia mais.

Rafael ganhou.

Segundo relato, em dado momento simplesmente caiu. Tava de pé e tombou que nem uma árvore.

- Bateu violentamente a cabeça no chão. A parte posterior. Precisamos suturar e proceder a raio-x. Mas ninguém consegue chegar perto dele.

A maca era pequena para aquele homenzarrão sobre ela. 1,90m. 110kg. Debatendo-se. Balbuciando frases desconexas. As enfermeiras não chegavam perto.

‘Poderia socá-lo, desgraçado.’

Roberto congelou. De ódio.

Guilherme foi ao encontro do irmão. Conteve-o.

- Sou eu… – Foi o que Roberto ouvir Guilherme dizer. E viu Rafael acalmar.

- Não deixa, mano véio. Querem cortar meu cabelo. Não deixa. Ninguém corta… – Rafael usava cabelos compridos, no meio das costas.

- Ninguém cortará seu cabelo. Não deixarei. Somente limparão o corte. Você se machucou. Precisam dar pontos. Ficarei aqui olhando. Só limparão ao lado. Ok? – E Guilherme segurou a mão do irmão.

- Ok.

‘Meu filho.’

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Alarmante o número de deletados no primeiro ano de vigência da Lei.

O Estado, satisfeito.

Justiça divina por intervenção humana. Seitas adequaram-se.

Sem fiéis, sem dinheiro.

Notícias de deletações forçadas e falsificadas povoavam noticiários.

O Estado investigava. E negava.

Não identificamos qualquer irregularidade nos procedimentos.

Satisfeito.

A fome diminuíra. Assim, as reclamações.

Podemos novamente jogar cybergolfe sem sermos notícia!, políticos comemoravam.

O autor da Lei, endeusado.

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Cabe aos pais, em qualquer momento, o direito de desistirem da deletação.

Válvula de escape. Para agradar a facção anti-deletação.

No procedimento não era conferido o direito à defesa.

Porém, o marcado para deletação podia manifestar-se.

Muitos parentes reconsideram após escutarem as razões do filho. O apelo emocional é eficaz. Especialmente boas memórias. Reportagens midiáticas especulavam. Citavam passagens exitosas. Lembram aquele dia na praia quando preparei o café da manhã para vocês? Contava só com 6 anos…

Ativavam parte do cérebro que instigava sentimento de perda. De saudades. De retorno a bons tempos. De esperança.

Serei um filho melhor. Prometo, frase de maior incidência nas manifestações dos marcados para deletação.

Sabe-se que vários pais utilizam o procedimento justamente para adequar o filho. Mostrar quem manda. Ou muda, ou apagamos você. Mídia. Recado mais claro, impossível.

76% dos pais desiste de deletar o filho, pesquisas apontavam.

O lado humano romântico fala mais alto, mídia.

É nosso sangue. Ele mudará, justificativa comum de pais que reconsideraram.

Mas 24% não.

Morte. Remoção do problema.

Noites calmas novamente. Sem preocupações. Fim dos gastos exorbitantes. Mesada. Roupas. Comida. Universidade. C’est fini!

Liberdade!

É como se voltássemos ao tempo de nossa adolescência. Somos apaixonados novamente. Um casal realmente feliz, um pai relatou após deletar cinco filhos.

Assassinos!, passeatas e mais passeatas.

Pecado.

24% não voltava atrás.

Morte.

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- Durante anos, quase diariamente por volta das 23 horas eu ouvia o choro – prosseguiu Roberto em sua manifestação. – Ele contava com algo em torno de 10 anos. Possuía quarto só para si. Seu irmão dormia no outro com um primo que morava conosco. O choro era porque supostamente temia o escuro. Bruxas. Fantasmas. Espíritos. Chorava incessantemente para que um de nós fosse vê-lo. Não raramente eu acabava espremido ao lado dele na cama de solteiro. Não dormia direito. Acordava com terríveis dores nas costas. Tentamos colocá-lo definitivamente no quarto com o irmão. Porém, irremediavelmente acabava brigando com ele. Queria um quarto só para si. Somente não queria dormir sozinho. E chorava e chorava. Bastava deitar com ele e dormia ferrado. Inúmeras noites pensei em deixar que chorasse. No entanto, nunca aconteceu – Roberto parou de falar por alguns momentos. Respirou fundo. – Ela sempre dizia que era meu filho e que deveria ser paciente. Que isso era ser pai – seus olhos umedeceram. – E o sacana acabou por matá-la! Acidente… Pois sim. Se ouvisse recomendações, se não fosse um … Um… Ela ainda permaneceria neste mundo.

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Um registro permanecia da pessoa deletada.

O procedimento.

É a única chance do deletado permanecer, de alguma maneira, no mundo, o Estado apontava.

A verdade é que a dor permanece espalhada, polvilhada ao redor do vácuo deixado pela deletação, testemunho de vários parentes e amigos de deletados.

Desamores. Inimigos. Amizades. Namoradas.

Como fica a família de um deletado, se já possuísse seus próprios filhos?

O Estado silenciava.

Não fica. O parente deletado não mais existe. Mídia. Fulado de tal. Mãe: Cicrana. Pai: desconhecido.

Os filhos de um deletado possuíam opção. Podiam requerer que se aposse em seus documentos o nome de um novo pai. E o Estado simplesmente sortearia dentre indigentes já falecidos. José Monteiro de Oliveira. Mãe: Cláudia Monteiro. Pai: Takashi Miike Murakami.

Isso é procedimento cruel. Tanto com o deletado quanto parentes ou amigos próximos. População indignada. Minoria.

Pessoas morrem todos os dias!, elaborava o Estado. Acidentes. Doenças. O procedimento não deve ser encarado de modo diferente.

Parecia igual.

Mas só parece.

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- Não há muito a dizer – falou um Rafael de olhar vago. – Esperava algo assim dele. Sempre esperei. Quando mamãe morreu, sabia que ele faria algo. Questão de tempo. E nem precisei esperar muito – esboçou sorriso. – Ainda assim choquei-me. Claro. E não matei ninguém. Foi um acidente. Não há culpados – pausou. Suspirou alto. – Sei que de nada adiantará qualquer coisa que eu diga. Mas quero indagar-lhe, pai: você já perguntou ao vovô se ele algum dia pensou em lhe deletar? – Neste momento Rafael olhou fixamente para a câmera. – Quão perfeito é você como filho? – Seus olhos encheram de lágrimas. – Pois como pai você falhou. Como seu filho, eu lhe deletaria.

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Inexistia exceção.

A ninguém era concedido salvo-conduto. Sem ferrolho.

Não bastava ser bom filho. Ou bem-sucedido. Ou pagar contas em dia.

Filhos devem ser o que seus pais julgam adequado que sejam.

Essa era a Lei.

Vivemos num mundo melhor desde o advento da Lei. A maioria dos filhos migrou de motivo de constante preocupação para puro regozijo. Amadurecem cedo. Opinião da maioria.

Projeções.

- O mais intrigante acerca da questão deletação – declaração de conhecido antropólogo, marcado para deletação – é que criamos novo inferno. Enquanto a religião povoa a mente, teme-se o pecado. O diabo. O fogo do inferno. E ninguém mais temia pecar. Por que ser justo, bom, honesto, sem Deus para tomar-nos contas? O homem temente a Deus dita-se por princípios morais. Basta ser bom. Basta arrepender-se. Basta amar o próximo. É o ferrolho da alma. Criamos a ciência. A Deusa ciência. Que a tudo vê e sabe. Tudo testa e comprova. Ou rechaça. Não mais temíamos o inferno religioso. Dela, criamos outra Deusa. Deletação. Com ares mitológicos. A Deusa má. Cruel. Capaz de atrocidades. Não mais basta ditames principiológicos e morais para ser salvo. Há que ser o que o próximo quer que sejamos. Isso é retornar ao medievo. Aos tempos em que deveríamos ser o que a Inquisição entendia como correto. Ou, fogueira. O novo Malleus Maleficarum é a consciência dos pais. Cada um cria suas próprias bruxas. E as queima em sua fogueira particular. Preferia, sinceramente, quando os critérios eram codificados. Mesmo que sórdidos e horrendos. Ao menos sabíamos do que fugir e no que nos escondermos – deletado em uma quarta-feira.

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- Você não é perfeito.

- Eu sei, pai – respondeu Roberto. – Mas sempre esforcei-me para ser o filho que você esperava.

- Isso não significa que conseguiu, não é mesmo?

- Permaneço aqui… – Esboçou sorriso.

- Não confunda amor com inexistência de motivos para se deixar de amar. Cruamente, meu filho, houve momentos em que você me decepcionou. Em que chorei. Em que odiei. Porém, jamais ponderei deletá-lo. É meu filho. E amo você com suas imperfeições e deslizes.

- É diferente. Ele não é o que deveria ser.

- E quem define isso? – Indagou Carlos. – Podermos fazer algo não significa que devamos fazê-lo. E ser pai é algo abrangente. Devemos nos doar. Superar. Relevar. Orientar. A culpa também é sua.

- Ele matou o irmão e a mãe – olhos úmidos.

- Isso não é verdade. E você sabe.

- É a minha verdade.

- Sim. Somente sua. Ele é seu filho. Meu neto. Nosso sangue.

- É exatamente isso que não admito – falou Roberto, amargo.

- Ajude-o. Não o abandone. Não perca as esperanças. Deletá-lo não trará Amanda ou Guilherme de volta. Ele é a família que você possui. Que possuímos, na verdade.

Roberto enxugou os olhos, sem nada falar. Carlos prosseguiu:

- Amanda desaprovaria. Sua mãe também.

- Eu sei. Mas ambas não estão aqui, não é mesmo?

- Mas eu estou. E jamais deixei de acreditar em você.

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Senhas. Segurança. Garantias. Deveres. Proibições.

Controle.

Satélites. Câmeras potentíssimas.

O Estado tudo via.

A evolução do mundo dos humanoides conduziu-os a espécie medrosa. E devassada. A privacidade reduzida aos pensamentos.

- Fuja – conselho a um individuo marcado para deletação.

- Para onde?

Humanos possuíam singular assinatura química corporal.

A Deusa ciência sabia.

O Estado sabia.

Ao nascer, o homem tornava-se mero número no sistema mundial. Resumia-se a aglomerado científico de informações químicas.

Rastreáveis.

Na água, no céu, embaixo da terra.

Rastreáveis.

Satélites. Vigilância.

Os homens há muito sabiam inexistir escapatória à morte e aos impostos.

E agora compreendiam que não escapariam de uma Deusa.

A ciência.

- Para onde?

Morte.

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- Quando planejamos um filho, as expectativas são enormes – entrevista com o congressista-deus, pai da deletação. – Claro que projetamos nossos anseios e vontades. E dedicamos tempo. Dinheiro. Atenção. Carinho. Enfim, tudo, para que a criança seja o esperado. Criamos o mundo de hoje a duras penas. E com o objetivo principal de alcançar condições de desenvolvimento aos nossos filhos. Qual direito possuem eles, então, de negar o que lhes foi dado? De usurpar a dedicação e privação paterna? De não se transformarem no esperado? No passado víamos filhos virando a cara para os pais. Saindo de casa. Sujando seus nomes, envergonhando famílias. Homens de bem com filhos drogados, ladrões. Não mais. Deletação é o ponto final. A revolução do homem moderno. Sonoro não aos filhos inadequados, imperfeitos. Antigamente se dizia Ouça seus pais! Isso em poucos ecoava. Hoje, quem não escuta os pais, não escuta mais nada.

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Roberto acordava cedo para trabalhar.

20 minutos de hovercar à empresa.

20 minutos de irritação e desagrado. E não com o trânsito.

Com o cheiro.

- Já pedi inúmeras vezes para você fazer o favor de não fumar no meu hovercar. É pedir demais, Rafael?

Diariamente.

E aquele cheiro impregnava.

Cigarros era artigo que, em mais de três séculos, pouco mudara.

A Deusa ciência não foi capaz de eliminar o mau cheiro, o câncer. Ou o desejo de muitos em aspirarem fumaça.

Roberto jamais fumou.

Guilherme jamais fumou.

‘É pedir demais, maldito? É proposital!’

- Não basta utilizar meu hovercar para suas festinhas? Ou usar meu dinheiro para queimar com tabaco? Precisa ainda feder tudo com essa porcaria? O hovercar, a casa, minhas roupas…

- Pô, velho, cheguei a abrir as janelas…

‘Maldito.’

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- Capricornianos. Avô, filho e neto. Relacionamento conturbado – depoimento de uma familiar. – Roberto e Carlos pouco falaram após Cláudia, mãe de Roberto, morrer. E não por algum problema específico. Simplesmente não possuíam grande afinidade. Roberto e Rafael nunca se gostaram muito, eu acho. Mas avô e neto davam-se muito bem. Passavam oras conversando sobre a coleção de moedas dos dois.

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Carlos observava o netinho.

3 ou 4 anos à época.

Rafael sentado no chão. Com o dedinho indicador enrolava os espessos cabelos negros.

Invariavelmente, num dado momento prendia o dedo entre os cabelos.

E puxava.

E gritava.

Chorava.

- Gringuinho burro! – Falou amavelmente Carlos. Pegou Rafael no colo. Desenroscou seu dedinho gorducho. – Calma, garoto – beijou a bochecha rosada. Enxugou as lágrimas. – Vovô ajuda você.

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Roberto entrou no quarto.

Rafael dormia.

Agarrou-o violentamente pelos cabelos.

Sacou-o da cama como se manuseasse boneca de pano.

Jogou-o contra a parede.

Caiu ao chão, inanimado.

E Roberto começou a socá-lo. Ira. Ódio. Fúria.

Socava. Socava. Socava.

Os braços perderam força. Não conseguia mais acertá-lo. Encapsulado por impenetrável campo de força.

Batia com todo o furor.

Mas não atingia a boneca de pano no chão…

- Negro… Negro… Acorda! – Ouviu Amanda.

Susto. Abriu os olhos.

– Credo, você se debatia todo.

Encharcado de suor. Taquicárdico.

‘Maldito.’

.

- Olha, isso é absurdo! Uma vergonha! Alguém deve fazer algo! – Depoimento da madrinha de Rafael. – Não acredito que Roberto foi capaz disso. Sério mesmo – pausou. Enxugou lágrimas. – Difícil. Desde pequeno Rafael era a ovelha negra. Qualquer acontecimento negativo, a culpa era sua. Mesmo que sequer participasse do evento. Sabe bode expiatório? Pois é. Sem contar que Roberto nunca buscou compreendê-lo. Quando pequeno, Rafael confidenciava que gostaria de possuir outro pai. Que amasse ele! – Chorou. – Certa vez, Roberto pegou enorme pedaço de madeira para bater em Rafael. Uma tarde, na casa de praia. Amanda trabalhava. Não fosse minha intervenção, não sei que fim teria – sorriu, amarga. – Não adiantou nada, pois ele acabou matando o filho – olhos vermelhos. – Bem… Aqui se faz, aqui se paga.

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Rafael avistou Guilherme nos fundos da residência. Mexia dentro da churrasqueira.

- O que você apronta, garoto? – Perguntou.

Guilherme com 13 anos à época.

- Nada – e Guilherme escondeu as mãos atrás das costas.

- Deixa ver suas mãos – comandou Rafael já investindo contra o irmão.

Guilherme segurava um filhote de gato na mão.

Morto.

Rafael olhou dentro da churrasqueira.

Uma ninhada. Os bichinhos miavam alto.

- O que você fazia, canalha safado? – E Rafael surrou o irmão. – Isso é para você aprender a não maltratar bichos!

Rafael enterrou o gatinho.

- Se mais algum dia eu pegar você maltratando animais, você tá frito!

Rafael apanhou de Roberto naquela noite.

Por bater em seu irmão mais novo.

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O procedimento de deletação encerrava com a confirmação.

Os pais recebiam em casa, em seu comunicador universal, o arquivo do procedimento. Nele constava a manifestação do filho marcado para deletação. E a opção: Deletar fulano de tal? Sim ou Não?

Além da confirmação, havia a opção acerca dos implantes mnemônicos. Confirma implantes mnemônicos? Sim ou Não? Caso opte por Não, justifique.

Roberto recebeu o arquivo da deletação de Rafael na manhã de uma terça-feira.

Cidadão Roberto. Confirma a deletação do seu filho Rafael?

Sim.

Confirmado. O cidadão Roberto confirma implantes mnemônicos?

Não.

Justifique.

Reter a informação do que fiz é meu castigo.

Justificativa aceita. Deletação de Rafael confirmada, sem implantes mnemônicos. O Estado agradece. Seja feliz, cidadão Roberto.

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Sete dias consecutivos Roberto buscou contatar seu pai.

Sem resposta.

Enviou mensagens. Pai, precisamos conversar. Quero explicar.

O cidadão Carlos bloqueou suas mensagens.

Meses passaram sem que Roberto conseguisse explicar a Carlos o motivo de deletar Rafael.

Mas ele teria a oportunidade.

- Hoje eu sei que errei… – Falou Roberto. – Desculpe se não ouvi você. Encontrava-me cego. A dor de perder Amanda e Guilherme atordoaram-me. Não pensava direito… Por favor, não perca a esperança em mim. Não me abandone – olhos vermelhos. – Pai, não me encontro em paz. Perdoe-me.

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Carlos recebeu o arquivo da deletação de Roberto na tarde de uma sexta-feira.

Cidadão Carlos. Confirma a deletação do seu filho Roberto?

Sim.

Confirmado. O cidadão Carlos confirma implantes mnemônicos?

Sim.

Deletação de Roberto confirmada, com implantes mnemônicos. O Estado agradece. Seja feliz, cidadão Carlos.

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Carlos, sentado na varanda do amplo apartamento. Ouvia Vivaldi.

Pax sincera.

Lindíssima a vista do 27º andar.

Olhar vítreo.

- O senhor precisa de algo? Sente-se bem? – Perguntou a robô governanta, também sua enfermeira.

- Não… Viajava em pensamentos.

- Gostaria de conversar sobre eles?

Carlos pensou por vários segundos.

- Sempre amei muito a Cláudia. Vivemos juntos por 57 anos. Sei que ela me amava.

- Acredito ser correta a afirmação, doutor Carlos.

- Pois é… E é isso que me intriga.

- Prossiga, doutor.

- Por que nunca fizemos um filho? Ela daria excelente mamãe. E avó. Lembro qualquer coisa dela me falando como uma criança a deixaria feliz. Deve ser a idade. Realmente, envelheci – pausou. Olhos úmidos. – Adoraria possuir um netinho… Poderia ensinar tantas coisas… Não consigo compreender.

- Gostaria de chá, doutor?

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Sidera é meu nome.

Minha civilização anota acerca do universo. Calcula. Conta. Observa. Sente as entidades. Conclui.

Mas não interfere.

Desde a formação deste universo acompanhei maravilhas e tristezas.

Minha função é organizar memórias. Para não se perderem.

Aqui encerra o relato.

Dados de catálogo estelar: tragédia.

Status: encerrado.

Necessidade de acompanhamento: nenhuma.

Prioridade de repasse: máxima.

"29" comentários em: Nulla in mundo pax sincera

  1. Jo - 30 de novembro de 2015

    Muito interessante o conto

  2. Rafael - 19 de dezembro de 2012

    Via FACEBOOK
    Wilton Bastos
    Rafael Lovato, você tem estilo. E muita criatividade. Lindo conto. Uma tragédia. Uma cativante tragédia, por assim dizer.

    • Rafael - 19 de dezembro de 2012

      Valeu, Wilton Bastos. Essa estrutura que desenvolvi para esse conto é agressiva, e algumas pessoas não gostam. NO entanto, para os que curtem tensão e ansiedade na leitura, o conto pareceu agradar bastante. Estou escrevendo um romance com essa estrutura, vamos ver se há fôlego! Abração

  3. Rafael - 19 de dezembro de 2012

    Via FACEBOOK
    Rosiane Ceolin
    Mto interessante Lovato, boa noite.

  4. Rafael - 11 de dezembro de 2012

    Via FACEBOOK
    Ana Claudia Marques
    Rafael, somente hoje tive a tranquilidade necessária para ler teu conto. Recordei de “admirável mundo novo”, lido na adolescência. Você conseguiu trazer uma discussão profundíssima neste teu conto. Teu Joshua diria: “não julgues, para não serdes julgado…”. Ainda estou escutando a música.Teu conto me remeteu a uma pergunta que fiz há algum tempo: temos que viver a vida tentando agradar ao outro? Fico feliz de poder responder: não. Parabéns, novamente, e agora com todo o gosto, pelo teu conto.

    • Rafael - 11 de dezembro de 2012

      Fico feliz que tenha gostado, minha querida Ana. Bjão!

  5. Rafael - 7 de dezembro de 2012

    Via FACEBOOK
    Nano Fregonese
    Gostei bastante!

  6. Rafael - 7 de dezembro de 2012

    Via FACEBOOK
    Milton Maciel
    EXTRAORDINÁRIO, RAFAEL. MERECIDÍSSIMO!

    • Rafael - 7 de dezembro de 2012

      Valeu, Milton!

  7. Rafael - 6 de dezembro de 2012

    Via FACEBOOK
    Amy Almeida
    Muito bom!A melancolia da existência com toda a sua força…

    • Rafael - 6 de dezembro de 2012

      Bjão minha querida Amy!

  8. Rafael - 3 de dezembro de 2012

    Via FACEBOOK
    Gilmara Neves
    Muito bom o texto e a reflexão num momento onde nós seres humanos nos comportamos como seres… Você, eu, nós podemos fazer a diferença que precisa ser feita para termos um mundo melhor… Obrigada ou melhor como diria meu amigo Ton Coelho, agradecida!

  9. Rafael - 29 de novembro de 2012

    Via FACEBOOK
    Blacia Gonzales
    Belo texto!

    • Rafael - 29 de novembro de 2012

      Bjão minha querida Blacia

  10. Rafael - 28 de novembro de 2012

    Via FACEBOOK
    Helena Trentin
    Eu adoro este conto!!!:)

  11. Rafael - 15 de abril de 2012

    Via Facebook
    Rosiane Ceolin
    Justiça divina por intervenção humana. Seitas adequaram-se.Qto a ser resolvido… gostei.
    Rafael Lovato: :) Bjo!

  12. Rafael - 15 de abril de 2012

    Via Facebook
    Adriane Ferrari
    Adorei o conto. Parabéns, Rafael. Bjo
    Rafael Lovato: Que bom, Adriane, bjão!

  13. Lucas F. Maziero - 5 de março de 2012

    Devo dizer que o conto está muito bem fundamentado numa ideia (pelo menos até onde vai meus conhecimentos) original, mas devo dizer que essa ideia me deixou nervoso, pois eu não concordaria com tal lei se fosse cá no mundo da realidade. Mas como conto cumpriu bem com seu papel de entreter e mexer com a imaginação. Adorei o conto, ainda mais pelo final irônico. Parabéns Lovato!

    • Rafael - 5 de março de 2012

      Que bom que consegui deixá-lo ‘nervoso’, meu bom amigo Lucas. A ideia do conto era justamente essa: entregar ao leitor um forte questionamento acerca de um tema fictício. Abração!

  14. Rafael - 1 de março de 2012

    Via Facebook
    Simara Hudler Dos Santos
    Agora falta criar uma história em que filhos, vítimas de pais desequilibrados, possam deletá-los também rsrsrs… Há pais que acham que suas crianças são mal educadas por culpa delas… Estão muito enganados.
    Rafael: Hehe boa idéia! Olha que robo ela! Abraço, minha querida.

  15. Rafael - 1 de março de 2012

    Via Facebook
    Daniel Schwingel
    Primogênito Rafael é….santa semelhança Batman!!! parabéns cabecinha!!!
    rafael: Haha, isso é que dá amigos desde a infância lerem o que escrevemos… Acabamos desnudos demais! Abração meu querido.

  16. Daniel Landim - 1 de março de 2012

    Muito bom e criativo, impressionante como você consegue ver as varias facetas sociais dentro de uma possibilidade e implantar sentimento nelas. Parabéns.

    • Rafael - 1 de março de 2012

      Valeu, Daniel! Nesse conto testei essa estrutura fragmentada e sem cronologia específica justo para focar nos sentimentos envolvido. Que bom que gostou! Abraço.

  17. Rose Arouck - 22 de fevereiro de 2012

    Olá Rafael!

    Bem interessante seus contos. São recheados de realidades costumeiras que nos seduz.
    Gostei muito. Parabéns!
    Abraços

    • Rafael - 23 de fevereiro de 2012

      Se consegui prender sua atenção até o final do conto, Rose, já está bom o suficiente! Grande abraço.

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