<strong>Contos</strong>

Contos

Além de ser romancista, R. Lovato foi um dos premiados no Panorama 2010/2011 da FC do B com o conto Nulla in mundo pax sincera, publicado em dez/2011.

Também foi premiado com o conto A moeda humana do Banco Central no concurso Nossos Valores na I Semana Organizacional do Banco Central do Brasil.

A moeda-humana do Banco Central do Brasil

  *Conto Premiado no concurso Nossos Valores na I Semana Organizacional do Banco Central do Brasil. O tema era os princípios organizacionais do BACEN.

 

Começou o dia como vários outros nos últimos anos.

Terno e gravata. Café. Muito que ler.

Ajeitou o broche dourado do Banco Central do Brasil na lapela.

Várias ideias rodeavam a cabeça. Queria seguir seu dia, cuidar de outros afazeres.

Mas, havia problema.

“Posso esquecê-lo? Contorná-lo! Fazer de conta que não existe… Não dá. Droga!”

Teria de enfrentar.

Entrou no recinto e ele já o esperava.

– Bom dia. Madrugou hoje…

– Então… O que decidiu? – perguntou o homem sentado de lado na cadeira. Direto. Nervoso. Roia unhas. – Bom dia.

A situação que ocorrera não era de todo terrível. O questionamento acerca do que deveria fazer era aparentemente simples. Porém, encontrar a resposta custou noites de sono. Especialmente a última.

Precisava tomar uma atitude.

“Na minha concepção de mundo isso lhe renderia um Processo Disciplinar.”

– Não sou como você… – o homem elaborou, talvez prevendo os pensamentos do interlocutor – Você faz tudo certinho, perfeito, nos mínimos detalhes. Pensa antes, programa… Não sou assim. Foi sem querer.

– Essa não cola, meu amigo. Você sabia muito bem o que aprontava. E jamais desejei que você fosse igual a mim. O que esperava era maior compromisso de sua parte. É sua vida, afinal.

– Sou comprometido! Saí-me bem, não foi? Eu precisava… Senão me ralaria.

“Mas que cara de pau!”

– Você sequer enrubesce falando isso? Devemos focar resultados, sim. Porém, não a qualquer preço! O resultado é irreal se os meios que utilizamos maculam o propósito em si. Que é exatamente o caso…

– Poxa, você é caxias demais! Não é para tanto. Ninguém morreu…

– Você se encontra a um centímetro de sérios apuros, meu chapa. E relatarei isso a ela. Você tem noção do que acontecerá?

Silêncio. O homem voltou a roer unhas.

– Não dá para ficar só entre nós?

– Você sabe que não. Não sou assim. Não escondo nada dela.

Bah! Aí a coisa encrespa…

– A vida é assim mesmo. É por isso que pondero antes de agir. Peso as consequências. Se você agisse cautelosamente, ou melhor: adequadamente, não se enrascaria.

– Desculpa.

– Não adianta se desculpar comigo. Se você passava por dificuldades, deveria me procurar. Por que não o fez? Por que deixou a situação chegar nesse ponto? Você sabe que sou aberto a conversas, e nunca lhe neguei auxílio…

– Exato, é esse mesmo o problema… Você é bacana. Fiquei com vergonha.

– Do quê?

– Sei lá. Pensei que você acharia ser burrice minha.

– Se algum dia fiz você se sentir assim, desculpe.

“Agora eu é que peço desculpas? É ladino…”

O homem silenciou.

– Ainda assim, nada justifica sua atitude. Como vamos resolver?

– Não sei.

– Você refará o teste. Corretamente, dessa vez.

, isso é humilhante.

– Para você ver o que fez consigo mesmo. Colar em provas não levará você a lugar algum, meu filho.

– Eu sei pai. Desculpe. Não acontecerá novamente. Mas, não fala para a mamãe…

– Eu já falei. E ela terá uma conversinha hoje à tardinha com o senhor. Esteja em casa. E dê-me um beijo. Vou para o Banco. Já me encontro atrasado.

 

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