<strong>O peregrino Joshua</strong>

O peregrino Joshua

Joshua é uma coluna com publicação semanal às quintas-feiras no Jornal Diário Regional e aos sábados no Jornal Folha do Mate.

Nela Rafael Lovato trata de temas cotidianos vivenciados por um velho peregrino, no início do século passado.

A série "O peregrino Joshua" está sendo publicada pela Editora Zap Book, e contará com ao menos 7 volumes, e que podem ser comprados no site www.zapbook.com.br

17 fevereiro 2012

Racismo

Passava do meio-dia e o peregrino Joshua descansava do sol e do calor sentado à sombra de bela figueira no centro do vilarejo de Campo Florido. Observava um garoto de bermudas e chinelos andando na calçada e gritando ‘- …geladinho do Zé! Limão, uva, maracujá! É agora! Picoléééééé!’. Perto dele, uma senhora limpava uma das mesas da vendinha, enquanto dois homens, jogando damas, debatiam ardorosamente.

Finalmente, um dos homens, rindo, perguntou a Joshua:

– O senhor também não acha que esse pessoal de cor deveria ser mandado de volta para o país de origem deles?

Ambos os homens cessaram o jogo, certamente aguardando a resposta.

O cérebro de Joshua levou alguns momentos para compreender a totalidade da pergunta. Então, se virou para os homens:

– Meus amigos, e que país seria esse?

Os homens se entreolharam, e um deles concluiu, dando de ombros:

– Ora… O senhor sabe.

– Não exatamente. Talvez os amigos se refiram a um continente distante. Mas, podem falar deste país em que agora estamos… Se for o caso, pergunto: quem são os verdadeiros alienígenas? Um povo outrora escravizado e obrigado a permanecer em países distantes, ou aqueles que os trouxeram contra a vontade, para explorarem os nativos e a terra?

Os dois homens nada responderam. Joshua prosseguiu:

– De quem é o mundo? Algum dos amigos saberia responder?

Um dos homens coçou a cabeça:

– Eu não faço ideia…

Joshua ajeitou a bengala entre os joelhos:

– Até onde eu sei, ele pertence a todos os homens. Brancos, pretos, amarelos, posto que somos todos iguais. E se a cor da pele de alguém incomoda, então devemos indagar: o que nele me assusta? No que me sinto inferior?

O outro homem gargalhou:

– Haha! Não falta mais nada!

Joshua olhou nos olhos do homem:

– Para mim, racismo não é nada além disso: um enorme sentimento de inferioridade. Homens não temem ou combatem aquilo que lhes é menor ou inofensivo. Além disso, o pré-julgamento e o preconceito são limitações do próprio observador, que não enxerga além daquilo que seus olhos veem. No que a cor dos cabelos, por exemplo, nos faz melhor ou pior? Ou mais ou menos humanos? Ou mais ou menos merecedores de respeito?

– Pensando por esse lado, é verdade mesmo…

– Devemos cuidar com o pré-julgamento: ele, muitas vezes, espelha a projeção de nossos próprios defeitos na pessoa julgada. E isso nos expõe sobremaneira. Sem contar que preconceito e racismo, muitas vezes, conduzem a confrontos…

O outro homem sorriu:

– Não é para tanto!

Joshua se levantou, e se escorou em sua bengala, encarando ambos os homens:

– Meus amigos, ninguém no mundo gosta de ser inferiorizado ou posto de lado na sociedade. Ainda mais sem motivo algum. E é por isso que minha verdade lhes digo: julgar um ser humano por sua aparência? Isso é o mesmo erro que avaliar o caráter de uma pessoa levando em conta a cor de seus olhos.

 

"6" comentários em: Racismo

  1. Rafael - 28 de fevereiro de 2014

    Via FACEBOOK
    Heloiza Averbuck
    Arrasou!

    • Rafael - 28 de fevereiro de 2014

      Bjão minha querida Heloiza!

  2. Rafael - 28 de fevereiro de 2014

    Via FACEBOOK
    Carla Rocha Lima
    Maravilhoso esse texto !

    • Rafael - 28 de fevereiro de 2014

      Bjão Carla!

  3. Marina Hammes - 24 de fevereiro de 2012

    Muito bom!

    • Rafael - 24 de fevereiro de 2012

      Escrevi essa coluna pensando num grande amigo meu. E desde jovem sempre trouxe presente a noção de que somos, todos, iguais. Que bom que gostou, Marina.

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