<strong>O peregrino Joshua</strong>

O peregrino Joshua

Joshua é uma coluna com publicação semanal às quintas-feiras no Jornal Diário Regional e aos sábados no Jornal Folha do Mate.

Nela Rafael Lovato trata de temas cotidianos vivenciados por um velho peregrino, no início do século passado.

A série "O peregrino Joshua" está sendo publicada pela Editora Zap Book, e contará com ao menos 7 volumes, e que podem ser comprados no site www.zapbook.com.br

24 fevereiro 2012

Maldade

 

O peregrino Joshua permanecia no vilarejo de Campo florido, e, naquela noite, sentado à mesa da pensão, refletia que o verão seguia muito quente. Ao seu redor, os ânimos no jantar se encontravam exaltados, comentando uma ocorrência durante a tarde, na cidade.

Uma inquilina apontava:

– …Aquele garoto é sim muito mau. Nasceu desse jeito.

O homem sentado ao lado de Joshua bradou:

– Nesses casos só o que pode ser feito é dar uma coça. Ou prender.

Outrem gritou:

– Pena de morte! Esse país precisa de pena de morte!

E a dona da pensão inquiriu:

– E o que o senhor pensa disso, peregrino?

Joshua limpou a boca com o guardanapo:

– Meus amigos, antes de mais nada sei que ânimos calmos avaliam melhor os fatos. A precipitação em julgar e condenar alguém normalmente falha em avaliar aspectos importantes. E isso conduz a conclusões desumanas e injustas.

Um homem perguntou:

– Desumano? Aquele moleque sequer é humano! É o filho do capeta, isso sim! Não é como nós, pessoas de bem!

Vários dos presentes ao jantar concordaram com a afirmação.

Joshua olhou para o homem:

– Deixe-me falar-lhes sobre a maldade intrínseca. Sempre que penso sobre esse tema, lembro-me de um ensinamento de conhecido filósofo que ouvi tempos atrás, e apontava que da mesma maneira que o santo e o justo não podem se elevar acima do que há de mais elevado em nós, assim também o perverso e o fraco não podem descer abaixo do que há de mais baixo. E da mesma forma que nenhuma folha amarelece senão com o silencioso assentimento da árvore inteira, assim o malfeitor não pode agir mal sem o secreto consentimento de todos nós.

O homem sentado ao lado de Joshua pigarreou: 

– Ora essa! Mas nós não saímos por aí roubando. Ou matando pessoas.

– Meu amigo, o que o ensinamento intencionou é apontar que, em nosso mundo, os acontecimentos não são isolados. Somos conectados, e sofremos influência e influenciamos o meio em que nos engajamos. E é por isso não devemos apressar em condenar. Nesse mundo, nada se cria: tudo se transforma ou copia. Penso que o castigo puro e simples não leva a lugar algum. Para bem compreendermos e modificarmos o mal, devemos, primeiramente, rever os exemplos que passamos. Modificarmos o ambiente e ensinamentos. Aí sim, garanto que boa parte da maldade desaparecerá.

O mesmo homem prosseguiu:

– Fácil falar. Nada substitui uma boa coça!

Joshua olhou para todos à mesa:

– Meus amigos, claro que uma sanção aplicada corretamente surte bom efeito. Porém, a maldade não é personificada. Ela, por si só, inexiste. Geralmente, o que de fato tem azo é um mal discernimento ou distorção, pelo indivíduo, sobre o certo e o errado. E que muitas vezes é ocasionado justamente por péssimos exemplos, por falta de comunicação. E é por isso que minha verdade lhes digo: busquem compreender o que há de errado com o próximo, e, principalmente: demonstrem o caminho correto a trilhar.

"6" comentários em: Maldade

  1. Rafael - 7 de março de 2014

    Via FACEBOOK
    Delci Mantelli
    obrigada por escrever Joshua.. abraços Rafael e continue escrevendo !!!!!!!!!

    • Rafael - 7 de março de 2014

      Bjão Delci!

  2. Rafael - 7 de março de 2014

    Via FACEBOOK
    Heloiza Averbuck
    O peregrino tem razão!

    • Rafael - 7 de março de 2014

      Bjo Heloiza!

  3. Camila Neves - 24 de fevereiro de 2012

    Muito interessante…

    • Rafael - 24 de fevereiro de 2012

      A noção de correlação entre o que fazemos e o efeito disso no meio em que vivemos sempre me fascinou. Abraço, Camila.

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