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O encantador de anjos – por Emerson Dantas

 

Bento e Cláudia protagonizariam brilhantemente a melhor das comédias românticas que pudesse existir. A história dos dois não era um roteiro cheio de reviravoltas ou idas e vindas. Era algo firme, vivo. Algo que infelizmente nem todo mundo tem a sorte, e o prazer, de viver. E eles viviam. Completavam-se. Respeitavam-se. Amavam-se.

Bento, era daqueles que hoje são até tidos como tolos. Dos que fazem questão de levar sempre em um encontro flores ou que seja um bombom. Um rapaz de ouro, assim descrito por toda a família e vizinhança. Um sujeito que sempre tentou dançar conforme o ritmo da vida, e por mais que tropeçasse, fazia da queda um novo passo de dança.

Cláudia era uma princesa sem brasão. Não há expressão para melhor descrevê-la.

Eram amigos da época do colegial que se reencontraram quando a oportunidade parecia mais perfeita, e a ocasião mais precisa. Sorte? Talvez. Providencia do destino? Quem sabe.

E assim tudo corria. O amor foi crescendo, o companheirismo se tornando mais sólido e o desejo de construir uma família não demorou a chegar. O rapaz ainda não havia se estabilizado no mercado de trabalho, e a jovem era uma professora de primário. Mas eles sabiam que isso nunca seria um empecilho para se casarem. Dinheiro ou qualquer coisa do tipo, jamais seria maior que a certeza que tinham que seriam felizes dormindo e acordando todos os dias juntos.

 

 

Ele caminhava perdido pelo centro da cidade em busca de um agrado para a amada naquela noite. Noite onde o jantar de noivado havia sido marcado e no qual ele pediria a mão da sua princesa ao pai rabugento. Entretanto nada o intimidava, e ele não se importava com mais ninguém. A única pessoa que ele tinha primazia em agradar, em ver sorrindo, era ela. O anel já estava comprado. Não era caro, mas de demasiado bom gosto. A função agora era encontrar algo para completar o presente. Algo para ela, e não para a sociedade. Pensou em flores, mas logo descartou. Cogitou chocolates, talvez uma jóia, mas nada o agradou. Bento já se apresentava cabisbaixo. Tinha menos de duas horas para ir em casa se arrumar e se dirigir para a casa dos pais de Cláudia. Estava a ponto de desistir quando passou de frente a um antiquário empoeirado numa viela que ligava o centro a um bairro de classe média.

Por uma providência do destino ele havia visto algo na embaçada vitrine que lhe chamara atenção. Algo delicado e que mesmo sem perguntar parecia caro. Mas ele sabia que aquele era o presente ideal. Algo que ela com toda a certeza do universo iria gostar. Bento abriu a porta com um rangido e sentiu o cheiro embaçado coçar-lhe as narinas.

— Boa noite? — chamou correndo os olhos pelo lugar entupido de móveis e objetos antigos. — Alguém? — insistiu dando mais alguns passos para dentro.  

A atmosfera do lugar remetia a um tempo em que a ar cheirava à poeira e as visões eram turvas. Tinha uma penumbra amarronzada e um requinte instigante. Bento bateu palmas e só ouviu seu eco. Começou a cogitar a idéia de que não poderia levar o presente à Cláudia naquela noite. Olhou no relógio de bolso que sempre carregava consigo e se viu mais atrasado. Virou-se para ir embora quando o semblante de uma velha surgiu em sua frente. O engenheiro deu um pulo constrangedor e tentou se recompor. A velha ostentou um sorriso sorrateiro.

— Boa noite — cumprimentou com sua voz espremida. — Em que posso ajudá-lo?

— Eu gostaria de ver aquela caixinha de música que se encontra na vitrine — pediu ouvindo o coração latejar no peito devido ao susto.

— Não é uma caixinha de músicas filho, é um Encantador de Anjos — corrigiu a mulher levando um cigarro a boca e indo em direção à vitrine. Bento coçou o nariz outra vez. — Aqui — ela o entregou a caixinha de madeira aberta.

Ele correu os olhos pelo magnífico objeto e o observou com zelo. Era feito de uma madeira vermelha que nitidamente era nobre, e mesmo estando desgastada não havia perdido seu brilho. Quando a tampa era suspensa uma superfície espelhada surgia, onde uma bailarina esguia se apoiava. Feita de vidro, a pequena figura possuía asas arqueadas, porém uma delas estava quebrada. Era realmente linda. A velha prendeu o cigarro nos lábios e deu corda num canto da caixa que o rapaz segurava. Nesse instante uma melodia começou a ressoar. Branda, limpa, calma. Como se ninasse sua alma Bento observou a bailarina anjo deslizar sobre a superfície com os bracinhos levantados em um attitude croisée derrière asseado. Uma brisa pareceu correr na loja totalmente fechada e o jovem engenheiro encantado alteou os olhos, mas encontrou a velha o encarando com um olhar apertado. Num movimento quase que grosseiro ela fechou a caixa e o recinto mergulhou novamente no silêncio.

— Quanto custa? — quis saber o rapaz ainda sentindo uma paz estranha.

A velha cuspiu o valor absurdo.

— Desculpe? — o jovem fez-se de desentendido. A velha repetiu e tomou-lhe o encantador das mãos. — Não existe a possibilidade de um desconto? Alguma troca? Esse relógio foi do meu bisavô. Já achei muito por ele.

A velha analisou o cliente em silêncio até voltar a falar.

— Filhinho, isso é uma peça raríssima. Acredita-se que no Brasil só se tenha três desses. E este é especial. Fora feito pelo artesão Vital de Alvarenga Bonavides a pedido de Dom Élio de Rialto para a filhinha caçula — gabou-se a velha ostentando orgulho. — Veja — disse ela levando o dedo do rapaz até um canto da caixa onde ele sentiu um relevo, — é o brasão dos Rialto.

— Seria um presente para minha noiva — o rapaz franziu os lábios apelando para o sentimentalismo, — hoje é o nosso noivado. Queria lhe dar algo que realmente fosse encantador.

A velha continuou a fitá-lo. Não parecia sensibilizada. Tragou outra vez e lançou a fumaça no ar embaçado do antiquário.  Bento deu outro preço. Sua carteira encolheu-se no bolso. A velha pareceu mais animada. Ele melhorou o máximo que pôde, e ela anuiu sem fé.

O rapaz por fim saiu da loja fedendo a fumo e coisa velha, terrivelmente endividado, mas extremamente satisfeito. A bruxa velha o seguiu com o olhar até vê-lo sumir em uma rua estreita. Em seguida colocou outro encantador idêntico na vitrine e voltou para o fundo da loja.  

O rapaz chegou com quase uma hora de atraso, mas quando a futura noiva ia reclamar a calou com um beijo. O jantar correu bem. Houve discurso, brinde, e troca de alianças. Por fim a noite se despedia quando Bento a chamou em eu carro. Cláudia estava linda. Os cabelos presos em um penteado de bom gosto e o corpo esbelto em um vestido azul. O rapaz a fitou nos olhos e viu o quão sortudo era. Depois de mais um prolongado beijo pegou no banco traseiro um embrulho mal feito. Ela devolveu um sorriso quando percebeu que fora ele mesmo que embrulhara.

— Esse é o meu verdadeiro sinal de amor — galanteou o rapaz ajudando-a a desembrulhar o encantador. — Para todas as vezes que você sentir saudades, se sentir para baixo, e eu não estiver por perto… — retiraram juntos a caixa avermelhada de dentro do embrulho, — quero que ouça essa música e se lembre de mim. De nós — falou exibindo seu melhor sorriso e abrindo a caixa.

A melodia veio enquanto o anjo dançava diante dos olhos do casal. Cláudia mantinha-se estática apenas permitindo que sua alma fosse acalentada. Bento, mesmo já conhecendo os efeitos do encantador, também se encontrava extasiado. A mesma brisa pareceu correr por entre eles. Depois de um tempo a caixa foi fechada não se sabe por quem. E após mais uma jura de amor eterno se despediram com um beijo.

 

 

E a vida, com sua mania intransigente de complicar tudo em segundos não deixou que os planos daquele casal se consolidasse tão facilmente. Bento recebeu uma proposta de emprego irrecusável. Algo que qualquer outro engenheiro em sua posição não pensaria duas vezes e pegaria um avião para o Acre. Mas ele era diferente. Lembrou-se que dinheiro nem nada no mundo eram maiores que o que sentia pela noiva. E depois de muito conversarem acordaram que o casamento podia esperar mais um ano. E quando o assunto foi saudade Cláudia foi até o quarto e buscou o encantador de anjos que ele havia lhe dado no dia do noivado. E juntos ouviram a melodia e sentiram a calmaria pela última vez juntos.  

 

 

Bento ligava todos os dias. Gastava uma fortuna com telefonemas e encomendas. Cláudia chorava baixinho e havia colocado o encantador na cabeceira da cama, ao lado da janela que sempre ficava aberta, pois olhar pro céu lhe dava algum alento. A mulher fazia sempre o que o noivo lhe dissera quando deu-lhe o presente. A cada ponta de saudade que surgia ela abria a caixinha, o anjo dançava e a música ecoava. Era assim sempre. A saudade não diminuía e a caixinha passava quase que toda a parte do tempo aberta e cantando. Às vezes passava a noite inteira assim para que a moça conseguisse dormir.

Tudo se dava nesse ritmo até que Cláudia começou a sentir algo diferente quando dava corda na caixinha. Sentia que muitas vezes seu corpo pedia que ela não o fizesse. Sentia um bolor no estômago. Algo passara a incomodá-la inconscientemente toda vez que a música tocava. Mas aquilo havia se tornado um vício. Era a única forma de conseguir pegar no sono. Em uma madrugada acordou suada e com o coração apertado. Arrastou-se até o banheiro e se olhou no espelho. Estava com os olhos cravados em olheiras fundas e violáceas. Sentiu algo repuxar em seu estômago e seu instinto a levou a vomitar. Não era uma pessoa que se alarmava com facilidade, mas na manhã seguinte procuraria um médico. Em seu vômito havia sangue.

O médico não soube o que dizer num primeiro momento. Pediu a clássica bateria de exames e recomendou repouso e comidas leves. Cláudia obedeceu, e sem dar muito alarde não disse nada a Bento. Naquela noite ela voltou a ligar o encantador. E novamente acordou na penumbra da madrugada coberta por uma película de suor gelado. Sentiu o estômago se revirar e o peito apertado. Mas a mulher não se levantou. Sabia que se o fizesse mais uma vez colocaria as entranhas para fora. Foi assim até o fim da semana. Naquela ocasião Cláudia resolveu dormir na casa dos pais. Queria se sentir segura, buscava por um sono tranqüilo.

Assim que entrou na casa a mãe levou a mão à boca ao ver o estado em que a bela se encontrava. Os expressivos olhos da jovem professora estavam circulados pelas fundas e densas olheiras arroxeadas. A pele do rosto estava colada ao osso. Cláudia tentou explicar o que compreendia e tentou acalmar a mãe dizendo que já havia procurado um médico. Mas mesmo assim a mulher não conseguiu se tranqüilizar. Seu instinto de mãe levava-a a crer que algo estava errado com sua menina. E um presságio ruim a fez rezar incansavelmente pela filha. Naquela noite Cláudia foi posta na cama pela mãe. Naquela noite também contou ao noivo como estava se sentindo, e assim como fez com a mãe, tentou fingir que tinha controle da situação. E assim como a sogra Bento sentiu um calafrio no peito.

O tempo passou e Cláudia piorava a cada noite. Brigava sem justificativa consigo mesma na hora de ligar o encantador antes de dormir, mas sabia que sem ele não conseguiria. Foi em uma quarta-feira que ela se levantou de sobressalto acreditando que havia mais alguém dentro do quarto. Uma silhueta se aproximou e ela não teve coragem de encará-la. Fechou os olhos exaustos e cobriu a face suada com o edredom. O som do encantador ricocheteava nas paredes do quarto e em sua mente. Depois de não suportar mais abaixou o edredom e se deparou com o quarto completamente vazio. Um pesadelo, pensou se levantando cambaleante e tocando os pés no chão gelado. Caminhou até o banheiro e analisou-se no espelho. Estaria assustada com sua aparência se já não estivesse mais assustada com tudo que lhe vinha acontecendo. A mulher, que um dia já fora bela, retirou os cabelos desgrenhados que estavam pregados no rosto e fitou firme seu reflexo. Um filete de sangue vinha escorrendo de seu nariz. Cláudia não o limpou. Voltou para o quarto mergulhado na terna penumbra da madrugada. Estaria ficando louca? Seria aquilo tudo saudade? A jovem pegou o celular e chamou pelo noivo. Ele demorou a atender. Provavelmente estaria a dormir, como qualquer pessoa normal.

Ela insistiu.

— Alô … — perguntou a voz sonolenta e embaçada do outro lado. Cláudia não disse nada. Sentiu-se tola por um momento. — Cláudia? — o rapaz a chamou. 

— Amor…— ela finalmente falou engolindo o choro. — Volta…

Bento pegou o primeiro avião que conseguiu e voou para junto da amada. Mas era tarde demais, Cláudia havia entrado em coma naquela manhã. Desesperado, o engenheiro procurou o médico na tentativa de entender o que estava acontecendo. O doutor pediu que ele se acalmasse e o fez se sentar na cadeira em frente a sua mesa. O mirou com olhos brandos e falou com sua voz metódica.

— Sinto não ter noticias boas senhor Bento — falou juntando as duas mãos e sustentando o olhar desesperador do engenheiro. — O caso da sua noiva deve ser bastante estudado. Com muita cautela. Eu nunca vi nada parecido, e nenhum dos meus colegas também não.

— O que ela tem?

— Não sei lhe dizer ao certo. Em tese os órgãos internos dela estão todos corroídos — Bento franziu o cenho ao ouvir aquilo. — Isso mesmo, faltam pequenos pedaços nos órgãos da sua noiva, principalmente em seu coração. Tivemos de induzi-la ao coma, pois a dor se tornou insuportável.

Bento sentiu um soco gelado no estômago. Mordeu o lábio inferior. Não queria chorar ali, não na frente daquele desconhecido. Após ouvir as escusas do médico saiu da sala com a alma pesada e um nó na garganta. Rumou até o quarto onde Claudia jazia e sentou-se ao seu lado. Lágrimas rasas coloriam seus olhos com uma tristeza terna. Afastou os cabelos de sua face pálida e quase não a reconheceu. O noivo pediu desculpas por se afastar. Pediu perdão por tê-la deixado e chorou. Chorou como se fosse culpado. Antes de sair, retirou de dentro de uma sacola a caixa avermelhada e a colocou ao lado da cama onde a mulher estava. Com o rosto lavado abriu a caixa e o anjinho começou a dançar. Por fim deixou-a ali, coberta mais uma vez por aquela canção.

 

 

Na manhã seguinte Cláudia faleceu.

O buraco em seu coração o fez parar de vez. O cemitério encheu-se como se tivessem a velar uma estrela de Hollywood. Em meio aos muitas silhuetas vestindo preto Bento se encontrava estático. Em uma das mãos segurava o encantador de anjos, na outra uma rosa vermelha como sangue. Jogou a flor quando o caixão começou a descer. Para muitos era só uma flor, mas ele estava se desfazendo do seu coração naquele ato.

E a partir daquele dia era ele quem tinha que ligar o brinquedo todas as noites para finalmente conseguir dormir e driblar a saudade. Saudade coberta por um teimoso e injusto sentimento de culpa.

 

           

Bento não sabe o que levou Cláudia a morte. E nem nunca soube. Eu sei. Sei por que sou um dos anjos que era encantado por aquela melodia. Era um dos que descia a terra para ouvir aquele amontoado de notas perfeitas que saia quando aquela caixa era aberta. O problema é que existem demônios que também tem bom gosto. E um deles passou a se deixar encantar pelo encantador. Não somente pela melodia ele se apaixonou, mas também pela jovem professora. E todas as noites ia até o quarto dela e passava  a madrugada ouvindo a canção e velando seu sono. Não satisfeito, antes de ir embora, levava consigo um pedacinho dela. Até que descobriu que sua melhor parte era o coração.

"3" comentários em: O encantador de anjos – por Emerson Dantas

  1. Amanda - 2 de março de 2012

    Parabéns pelo Texto Emerson, Gostei bastante da forma como você escreve e da emoção que consegue passar aos leitores. Ah e acompanhado o pensamento do Rafael, interessante a lição que pode ser depreendida do texto.

  2. Rafael - 29 de fevereiro de 2012

    Via Facebook
    Hugo Bülow
    Muito bom o conto. Gostei!

  3. Rafael - 28 de fevereiro de 2012

    Parabéns pelo texto, Emerson. Gostei da sutileza da situação, principalmente o aspecto de que se não formos diligentes, podemos acabar ferindo pessoas queridas. Valeu pela contribuição.

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