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O chirú – por Hugo Bülow

*Causo tipicamente de folclore gauchesco. Não indicado para menores de 14 anos. O conteúdo pode ser ofensivo para algumas pessoas.

 

A pandilha se acocorava à beira do fogo de chão, acabrunhados pelo vento carpinteiro, minuano-sujo ou pampeiro, que vinha das províncias argentinas carregando chuva, frio, uivos e lamentos recolhidos das suas andanças.

Todos permaneciam em silêncio, tensos, com os palas abertos como se fossem tendas e com os chapéus enterrados nas cabeças.  As mãos não encontravam parador, escarafunchando qualquer coisa no chão, e, os olhos, de todos eles, estavam agitados e atentos a qualquer movimento dos outros.

A cambona estava no fogo e a água começava a chiar.

Anastácio, peão da estância, pegou da cuia e da erva e começou a preparar um mate. Olhou pra indiada, viu todo mundo quieto e encolhido.

Desconfiado com o que poderia ter acontecido, tascou:

– Que se deu?

Quase ninguém se mexeu.

 – Foi por causa de uma peleja, – respondeu Laurindo. – Terminamos o serviço, entregamos o gado, conforme fora acordado e no tempo determinado, na fazendo do seu Chico. Estávamos, todo mundo, empoeirados e cansados da tropeada de cinco dias nesse solão de rachar, e, resolvemos molhar a goela e nos divertir um pouco na casa das tias, lá no povoado.

 – Pois não é que o Chirú, aquele, zaino-requeimado, brabo como uma urutu quando é remexida, testavelou nas botas de um gaudério que estava fazendo tempo por lá e se acarinhando com as chinas, e foi dar com as fuças num monte de estrume que estava num canto.

– Foi engraçada a pegada. Daí, por causa das chacotas, começou a estripulia. O Chirú, envaretado, pegou do três listas e, sem cerimônia nenhuma, tascou um panázio nas ventas daquele indivíduo, gritando: – Hoje as pinguanchas são nossas, desapareça!

– Pensamos, até, que aquele homem nem iria se levantar, mas nos enganamos feio. O índio era um taita, um quera, daqueles metido a destemido… e, ele se levantou.

Eu berrei: – Deixa disso, amigo, foi… – E, ele me afastou com o braço.

Com a orelha azinhavrada, os olhos avermelhados e, bufando como um touro desafivelou a guaiaca e, aproximando-se do Chirú, que o olhava estupefato, deu-lhe cada guascaço, que o fez apinchar-se debaixo de uma mesa. Depois, pegou da carneadeira e, mostrando toda a perícia de quem conhece as lides, cortou-lhe a bombacha, e o Chirú, pobre coitado do Chirú, com os documentos ali, nas mãos daquele magarefe e perito castrador, só pedia: – Não, por favor, isso não!

Tarde demais!

– Pois o desafortunado do Chirú, continuou Laurindo, está lá na casa do doutor, no povoado. E nós? Nós não pudemos fazer nada, nem deu tempo. Só vimos a sangueira e aquele taura saindo. Juntamos os restos que estavam por ali, antes que os cuscos os comessem e levamos pro doutor, vamos ver se ele conserta qualquer coisa

– O Chirú sempre foi avisado que um dia poderia encontrar alguém que não aceitasse suas brincadeiras.

– Quem procura acha – comentou Anastácio – tomando o primeiro gole  de mate e arrematou:

– A nossa única esperança, agora, é que, como todo bicho que é castrado, o Chirú fique calminho, calminho, de hoje em diante!

"5" comentários em: O chirú – por Hugo Bülow

  1. Rafael - 3 de abril de 2012

    Via Facebook
    Regina Azevedo
    mas bha gurì …gostei,sou de Rio Grande,mas morei em Porto Alegre muito tempo…agora sou cariucha.bjks

  2. Rafael - 3 de abril de 2012

    Via Facebook
    Jonas R. Sanches
    Muito bom o conto… Gostei!

  3. Rafael - 3 de abril de 2012

    Via Facebook
    Manuela Reis
    Puxa amigo, tá demais!!…..conto muito engraçado….que, por não conhecer os termos, me obrigou a pesquisar na net, enriquecendo assim o meu modesto saber! Estava a ler, e na minha frente deslizavam os filmes de de Cowboys ou pistoleiros..bem presente as lutas entre os colonizadores brancos e os povos indígenas….Adorei o conto e os termos usados” chirú” …rsrsrs!

  4. Rafael - 3 de abril de 2012

    Via Facebook
    Rosiane Ceolin
    “O Chirú, pobre coitado do Chirú, com os documentos ali, nas mãos daquele magarefe e perito castrador, só pedia: – Não, por favor, isso não!” Impactante e bem descrito causo e nada que fuja mto a realidade de uma época.

  5. Rafael - 1 de março de 2012

    Via Facebook
    Mateus Deitos Rosa
    Hahahaha! Boa

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