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Tanto tempo fora de mim – por Marcos H. Martins

 

 *Imagem recortada de ‘O grande masturbador’, de Salvador Dalí.

* Texto adulto, não indicado para menores de 14 anos. 

 

Passei dois dias fora de mim, vaguei por tantos lugares coloridos e cheios de vida que, quando voltei ao meu corpo, não me senti mais a vontade. Para aonde fui, não precisava de um corpo chato e preguiçoso para me atrasar. Não precisava comer essa comida alterada, nem beber água fresca. Fresca?

 

Percebi que o universo não é tão vasto, nos é que não temos mais tempo para contemplá-lo. É uma pena, pois o universo tem todas as respostas e todas as perguntas guardadas num arquivo morto, com fichas coloridas.

 

Do que mais senti saudades? Foi de poder me ver por inteiro, sabe, nu mesmo. Senti muita falta de poder me ver nu, pois não conseguia me ver sem meu corpo, só sentia que estava lá, mas não podia me ver ou me tocar. Masturbação então era impossível, mas quem precisa se masturbar quando se tem tanta coisa para ver? 

 

Nesses dois dias que passei fora de mim, não senti, um único dia, falta da humanidade, e o pior é que agora não me sinto mais parte da matilha, me sinto deslocado, um eremita numa casa com banheiros.

 

Tanto tempo fora e, ninguém sentiu falta de mim. Não os culpo, é o progresso nos roubando a vida e nos dando falsas expectativas de um futuro glorioso. Futuro?

 

Sempre me preocupei com meu futuro, mas depois que sai do meu corpo, não me preocupo mais com nada, porque não há mais nada para se preocupar, pois hoje, eu sei que sou eterno nesse grande universo sempre em expansão, sou a menor partícula da uma razão que não entendo, se é que existe alguma razão, mas sei que penso. Isso faz alguma diferença?

 

Depois de minha experiência, consigo ver todo o individualismo em que minha raça se encontra. Não, não encontrei vida inteligente lá fora, continuamos sós, entre esses mais de 6 bilhões de humanos. É, é triste mesmo, eu sei. Continuamos mais sozinhos que o universo, mais perdidos que a justiça, sem sentido algum para ter prazer com o ato de se masturbar, apenas fingindo e tomando remédios de tarja preta para conseguirmos suportar uns aos outros.

 

Dois dias fora de meu corpo. E tudo está bem pior do que ontem.          

 

Quem quiser conhecer um pouco mais de meus textos, basta dar um cyber pulo em http://poemasdecaverna.blogspot.com/. Lá vocês encontraram, poemas, alguns contos e trecho de meu livro lançado pela editora Baraúna: O Lado Avesso – Nornes, o Mago. É um livro de fantasia, onde misturo seres do folclore brasileiro como Curupiras, caiporas, Alamoam, sacis entre outros com Dragões, elfos, Mago e etc…

Um comentário em: Tanto tempo fora de mim – por Marcos H. Martins

  1. Rafael - 2 de março de 2012

    Gostei particularmente do sentimento melancólico do texto. Parabéns, Marcos.

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