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A face demoníaca – por Lucas Maziero

* Conto de TERROR. Não indicado para menores de 14 anos.

 

  A vítima não aguentava mais se debater, entrara num estado de completa abnegação, vacilando entre a realidade e a alucinação causada pelo pavor. Não havia como escapar, subjugada sobre os ombros daquele homem anômalo, ou demônio. Chegados ali, num edifício em construção, àquela hora da noite solitário, ele a jogou rudemente ao chão e, agachando-se, preparou-se para abatê-la. Antes que desferisse o golpe rápido e letal em seu pescoço, a vítima pela última vez viu aquele rosto atroz com olhos maníacos e uma boca nojenta a exibir-lhe uma língua lasciva pingando uma saliva asquerosa. Então a cabeça da mulher desprendeu-se vitimada e resvalou pelo corpo inerte.

  O assassino pôs-se logo a dilacerar-lhe o corpo com um cutelo, devorando a carne em pequenas quantidades, de cada parte do corpo, em um louco êxtase. Enquanto engolia, ia emitindo sons guturais de contentamento, como quem saboreia e se deleita com um prato delicioso. Descarnando os ossos, ele os chupava e lambia vorazmente, causando-lhe indizível prazer. Aprazia-lhe também sentir aquele fedor visceral e animalesco de um corpo aberto, em especial dos tendões e dos ossos ensanguentados. O humano fede por dentro e por fora, considerava ele, toda vez. A cabeça da mulher ele a deixou intata, como sempre fizera nos assassínios pregressos.

Satisfeito, levantou-se e ajeitou seus longos cabelos empapados de sangue debaixo do boné, ocultando-lhe em parte a fisionomia. Procurou algo entre os pertences da vítima e encontrou numa sacola um filme em DVD intitulado “Cara a cara com a morte”, pegou-o e em seguida foi-se dali, deixando atrás de si aquele corpo totalmente despedaçado. No dia seguinte foram encontrados aqueles restos fétidos e já cheios de moscas, as autoridades foram notificadas e a população entrou em choque com mais um morticínio daquela espécie.

****

Victor era um rapaz esquisitão. Trabalhava numa locadora de filmes e, apesar do contato cotidiano com as pessoas que atendia, era calado, sem qualquer simpatia para conquistar amigos. Entretanto havia algo nele que provocava a atenção de uma garota, e ele estava gostando dela. Sofia vinha quase todas as noites, depois da faculdade, alugar filmes, e Victor a ficava encarando, e seus olhares eram correspondidos por ela. Até que um convite fora feito:

— Vamos pegar um cineminha qualquer dia desses? — arriscou Victor, e ela disse sim, combinando o encontro para o fim-de-semana.

Uma outra voz, antes escarninha, soou agora aprovativa nos ouvidos do rapaz, e ele se sentiu bem, indo para casa pensando em Sofia. Ao se deitar, desejou que naquela noite a voz lhe deixasse em paz, aquela terrível e dominadora voz, que lhe perturbava e lhe obrigava a fazer coisas, coisas cruéis. Para seu alívio, a voz lhe deu trégua, guardando seus tormentos para outra oportunidade, e o rapaz teve sonhos agradáveis, só aquela vez.

No dia do encontro, Victor, sentado num dos muitos assentos do shopping, com a cabeça baixa e seus longos cabelos caindo-lhe no tórax, aguardava a chegada de Sofia. Ela vinha acompanhada de amigos e amigas, e quando se aproximou e cumprimentou Victor, ele entreouviu murmúrios como: “então é com este esquisitão que ela veio se encontrar?” e “esse cara me mete medo!” e outros comentários semelhantes. Os mais desagradáveis quem os fazia era o mais bonitão e popular do grupo, chamado Carlos. Victor sentiu-se humilhado, mas Sofia pareceu nada ouvir. Entraram na sala de cinema. No pôster do filme via-se o título: “Presas fatais 2: O retorno”.

O filme de terror trash começou. Victor sentara-se ao lado de Sofia. Ao outro lado dela estava o bonitão. Nos primeiros minutos do filme nenhuma tensão, os personagens viajavam num carro pela estrada solitária à noite, até que a primeira cena aflitiva aconteceu. No mesmo instante, Sofia sentiu um hálito sórdido em sua orelha, fazendo-a se virar para a esquerda e desferir um grito de susto, em uníssono com o grito de uma das mocinhas do filme. Enquanto a platéia pedia silêncio, Carlos se levantou e puxou Sofia para si, ela tremendo toda, levando-a rapidamente dali. Victor seguia no encalço deles.

Na saída do shopping ele os interpelou, ocultando sua raiva. Sofia ainda estava assustada, mantendo distância dele, albergada em braços fortes e protetores.

— Afaste-se dela, seu esquisito — ordenou Carlos. Victor odiava ser chamado de esquisito.

Continuaram andando e chegaram ao carro de Carlos, nele entrando e deixando Victor do lado de fora, parado e sinistro. O carro saiu cantando pneus.

— Isso não vai ficar assim, não vamos deixá-los sair ilesos dessa ofensa — soou uma voz maléfica, cheia de intenções vingativas.

Victor chegou a casa batendo portas, trancando-se em seu quarto. Sua idosa mãe assistia à televisão, impassível aos arroubos violentos do filho. Ele se jogou na cama e ligou o aparelho de som, pondo para tocar o Bolero, de Ravel. Era sempre a mesma música, ele a ouvia quando queria se acalmar e pensar, e se preparar. Ficava nessa obstinação por horas, com o volume alto. A partir dos nove minutos, quando a música esquentava, sobrevinham-lhe os pensamentos mais sombrios.

A voz lhe atormentava, lhe torturava com palavras perniciosas, afligindo-lhe sentimentos de desespero. Era impossível dormir com aquela voz maligna, pungente e incessante. Aquela boca cruel e repugnante, babando em seu rosto, causando-lhe um tormentoso asco, do qual não se podia livrar. Aquela face demoníaca, quando surgira? Todas as boas lembranças lhe foram apagadas, como se a única existência fosse aquela sombra opressora, aquele mal insaciável. Victor deixara o cabelo crescer para ocultar aquele rosto, aquela aberração hórrida nascente no osso temporal de seu crânio. Uma face com olhos, boca com pequenos dentes afilados, e nariz, monstruosa face. Tinha medo dela, era controlado por ela, por suas vontades bestiais.

A partir de então Victor não conseguiu mais falar com Sofia. Ela não vinha mais à locadora, não queria lhe ver, tinha medo dele, estava incomunicante e, ao que parecia, esquecida de sua existência. Ele a via, ao longe, andando de braços dados com Carlos, e a fúria crescia dentro dele. Passou a persegui-la com obsessão, ligando repetidamente para o celular dela, criando perfis em redes sociais com o fito de bisbilhotá-la. Ali descobria as fotos dela, os recadinhos dos colegas, e sentia um ciúme furibundo, infundido pela malícia da face diabólica.

— Escute aqui, seu esquisitão — proferiu Carlos, numa noite ao entrar na locadora, com os fregueses virando-se para ele assustados. Ele queria que todos o ouvissem. — É melhor deixar a minha Sofia em paz, senão as coisas vão feder pro seu lado, está entendendo, seu bosta? Ela não te quer, tem medo e nojo de você.

Aproximou-se de um Victor aparentemente controlado, e repetiu as mesmas palavras, cara a cara, segurando-lhe com mãos firmes a gola de sua camiseta. Com um sangue frio sobre-humano, Victor o encarou e lhe disse, quase num sussurro:

— Não deixarei ninguém em paz — não fora Victor quem pronunciara esta ameaça gélida e terrível, fora uma voz cruel que aterrou Carlos, fazendo-o recuar de susto até a porta de saída. Contudo se recuperou e voltou, valente que era, dizendo num ultimato:

— Não tente mais se aproximar de Sofia, pelo bem dela. Se insistir, eu te mato, ouviu? Te mato.

Precisava pôr um fim nisso. Pôr um fim nele, incutia-lhe a voz.

— Não, seria brando demais separar um casalzinho nojento. Quero os dois, os dois juntinhos, em pedaços suculentos…

— Não, ela não — implorava-lhe Victor, e a voz se ria dele, uma risada desprezível, sufocante.

 — Chegou o momento de caçar novamente — não era uma simples afirmação, era um comando a ser cumprido, e Victor sentiu um calafrio, uma impotência aterradora, como não sentira antes.

Uma caçada tem de ser prazerosa, propícia e sem falhas. O caçador deve ser paciente, para abater as vitimas assustadas e descontroladas. Paciência e planejamento, requisitos indispensáveis. Assim procedeu e esperou Victor, sob a tirania de sua outra face, o momento certo de agir.

Era uma noite agradável, favorável aos casais de namorados. Numa lanchonete, Carlos e Sofia, descuidados e entregues a um prazer comum, como os demais casais sentados ao lado, terminavam de comer um saboroso lanche, quando um vulto semi-oculto por um poste intrigou a Carlos, saqueando-lhe a atenção. Percebeu que o vulto lhes observava insistente, sem parecer desejar outra coisa. Onde já vira aquele vulto antes?

— Não pode ser, agora basta! — exclamou Carlos, em súbita ira, reconhecendo no vulto a figura do esquisitão. Sofia, apercebendo-se também quem era, apavorou-se e suplicou em vão a Carlos para voltar, quando ele partiu ao encontro de Victor, que agora corria noite adentro. Faltou dizer que para caçar, se faz necessária, em alguns casos, uma cilada.

Os dois corriam selvagemente pelas ruas, um com fingido medo, e o outro, sem nada desconfiar, lhe perseguia arrebatado. O percurso terminou num beco escuro e ermo, e eles pararam esfalfados.

— E agora, o que vai fazer? — a voz maligna perguntou a Carlos, provocadora.

— Louco, o que pretende? Não deixei bem claro que era pra nos deixar em paz? — volveu ele.

Como uma besta infernal, feroz e temível, Victor atirou-se sobre Carlos,  sobrepujando-o em astúcia e força, cravando-lhe o cutelo na garganta. Sofia correu atrás deles e os alcançou bem a tempo de presenciar aquela cena brutal, chocante. Seus nervos desabaram e ela entrou num estado de histeria, chorando e gritando.

— Agora você, meu benzinho — Victor a agarrou e a prendeu com uma espécie de fita adesiva, tapando-lhe também a boca. Atirou-a num canto e fê-la assistir àquele ato monstruoso, inenarrável, demoníaco.

Com seu cutelo, Victor trinchou a carne de Carlos, apresentando aos olhos de Sofia um banquete hediondo, nauseabundo, animalesco. A face anômala e edaz chupou e bebeu, abocanhou e mastigou, cortou e violou, carne e sangue, numa avidez absurda. Sofia assistia a tudo com náuseas, medo e irrealidade, sozinha e incapaz de resistir, mergulhada no mais cruel pavor.

A face estava inebriada, mas não saciada, ainda havia mais. Sua boca distorcida, feroz, pingando sangue, emitiu um grunhido de prazer e voltou-se para Sofia.

— Não! — retiniu um apelo, impotente, desprezado. Era Victor, instando para que seu lado sombrio poupasse a garota. Sofia gritava e seus gritos se perdiam, mudos, inaudíveis. A face se aproximou, lúbrica e terrível.

O braço de Victor ergueu o cutelo, também terrível, acima de sua cabeça, resoluto para o golpe certeiro. Seus olhos olharam nos olhos de Sofia, e ela divisou neles um grande sofrimento. Cortando o ar, o cutelo se fincou com violência naquela boca asquerosa, que expeliu sangue e palavras malditas, até definhar e morrer.

A polícia fora chamada e chegou pouco depois, juntamente com uma equipe de paramédicos. Acudiram Sofia e a tiraram dali, aparentemente sem nenhum ferimento, salvo o psicológico. Os inspetores e policias removeram os pedaços corporais de Carlos, e o corpo de Victor, escondendo com asco aquela face demoníaca. Recolheram o cutelo sanguinolento e o celular do assassino, que tocava o Bolero.

Sofia passou por um tratamento psicológico durante dois anos para superar o trauma, mas nunca foi capaz de esquecer aquela face atroz. Victor foi considerado pelos médicos como um caso raro de simbiogénese, em que o hospedeiro fica sob o domínio do simbionte.


"2" comentários em: A face demoníaca – por Lucas Maziero

  1. Ems Pimenta - 4 de março de 2012

    Grande Lucas, é semrpe um prazer cara ! ( ou não, néh O_o’ )
    hahaha

  2. Rafael - 3 de março de 2012

    Gostei do paradoxo entre as faces de Victor. E gosto de Ravel, um toque especial no texto. Parabéns meu amigo Lucas!

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