<strong>Espaço dos leitores</strong>

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Vidas roubadas – por Eliane Galavote

 *Baseado em fatos reais.

 

No meio da aula, um torpedo. Todos os celulares tocam e a novidade foi lançada. “ FESTA NA CASA DO RAFINHA. HOJE. 7H.”

Isso significava encrenca…

O professor pediu que todos desligassem o celular sem olhar para a turma. Continuou a apagar a lousa e apenas balançou a cabeça, reprovando aqueles jovens, com a imprudência da comunicação coletiva. O som produzido parecia uma sinfonia sem sincronia.

Heloise estava acostumada com esse tipo de badalação. Bebida, beijo na boca e muita música; rotina de faculdade. Estava começando o curso de Farmácia e conheceu muita gente em apenas três meses de aula.  

Foi em uma dessas festas que conheceu Junior. Ele cursava o segundo semestre de Odontologia. Seus olhos verdes e seus cabelos loiros, compridos e sempre amarrados em um rabo de cavalo a conquistaram. Tinha um sorriso iluminado e um físico atlético, digno de um rapaz maravilhoso. Era carinhoso e bastante popular entre os colegas. Seu único defeito era não ser nada pontual nos encontros. Mas isso não impedia Heloise de perdoá-lo, após carinhosos beijos, afinal, nem tudo é perfeito.

– Você vai? – perguntou Ana, cutucando o ombro da amiga.

– Não sei. Preciso ver com o Junior. Acho que vamos jantar com os pais dele hoje. Ele vai formalizar o nosso namoro – Heloise sorriu e os olhos brilharam.

– Uau! Que novidade boa, amiga. Estou torcendo por vocês!

Heloise virou-se para trás e sussurrou:

– Estou tão feliz que acho que vou explodir!

– É isso aí, Helô! Aproveite e curta bastante esse namoro.

 

 

 

No intervalo, Heloise avistou Junior, conversando com os amigos. Foi ao seu encontro e sorrindo disse:

– Só podem estar falando de mim…

Todos olharam para ela e ficaram com uma interrogação nas expressões.

Heloise sorriu:

– Para deixar o Junior tão feliz e rindo do jeito que ele está… – sentiu o rosto ferver e não foi muito feliz com a piada.

– Perdão, gata, mas dessa vez, você não é o assunto – Junior a abraçou e deu-lhe um leve beijo nos lábios.

Heloise, meio constrangida, perguntou:

– Então eu posso saber o que está tirando tanto riso desses rapazes?

– Claro, o Beto conheceu uma garota pela internet e marcou um encontro. Quando ela chegou, ele não acreditou no que viu.

– O que foi que aconteceu? – perguntou Heloise, bastante curiosa.

– Era a irmã dele – Junior não parava de rir. – Ela postou uma foto de uma amiga. Marcaram no shopping e ele pediu que ela usasse um moletom vermelho para identificá-la. Quando chegou ao local combinado, deu de cara com sua irmã. Ignorou a presença dela por quase meia hora e percebeu que era a única garota que estava com o moletom vermelho e não parava de olhar no relógio. Achou melhor se aproximar e perguntar. Foi então que descobriu tudo.

– Nossa! Que situação! – Heloise sorriu. – Mas ela também não sabia que era você?

– Pois é. Eu não me identifiquei. Coloquei um apelido e não postei foto alguma. – Beto estava quase roxo de vergonha. – Ela nem imaginava que fosse eu.

Heloise balançou a cabeça e sorriu. Pegou na mão de Junior e o chamou para conversarem sozinhos. Despediram-se do grupo e sentaram no banco do jardim da praça de alimentação.

– Está tudo combinado para hoje à noite?

– Claro, Helô. Minha mãe está preparando um banquete para te receber.

– Nossa! Mas não precisa tanto. Vou ficar encabulada desse jeito.

– Não precisa ficar. Você merece a recepção que ela está preparando. Vou passar na sua casa por volta das 7h.

– Pra mim está ótimo. – Heloise beijou os lábios do namorado e segurou em suas mãos, carinhosamente continuou. – Vamos embora juntos?

Junior desviou o olhar e apertou os lábios, sentindo um pouco de nervosismo.

– Hoje não vai dar. Tenho um compromisso, muito importante e inadiável.

– E eu posso saber o que é mais importante do que nós dois juntos?

Junior olhou nos olhos dela e apenas sorriu, disfarçando o nervosismo.

– Depois eu te conto, gata. Mas não se preocupe que você será a primeira saber. Eu prometo. – Junior a abraçou e evitou encará-la.

Heloise não gostou da resposta, mas achou que talvez ele estivesse preparando uma surpresa para aquela noite, então relaxou e aproveitou para sentir os braços de seu amado, envolver o seus.

 

 

Pela primeira vez, em quase três meses de namoro, Junior não se atrasou.

Estava lindo, usando uma calça jeans, uma camiseta branca e uma jaqueta social preta.

Heloise abriu a porta e sentiu o coração acelerar.

– Nossa! Você está linda!

Ela caprichara no visual. Colocou um vestido preto, com detalhes em pedras que realçava o seu belo corpo. Os cabelos compridos e negros estavam soltos e modelados com cachos nas pontas. Fez uma maquilagem bem suave e destacou o azul dos olhos com uma sombra clara e o rosa dos lábios com um gloss cintilante.

– Você quer entrar um pouco? – perguntou Heloise, com um sorriso doce no rosto.

– Acho melhor não, senão vamos nos atrasar.

– Então podemos ir – Heloise virou-se para dentro da casa e gritou. – Tchau mãe, já estamos indo.

D. Lucia veio cumprimentar o genro e despedir-se dos dois.

– Olá, Junior.

– Olá, D. Lúcia.

– Divirtam-se bastante.

– Obrigado. Tenha uma boa noite.

D. Lucia sorriu. Que bela escolha sua filha fez. Estava orgulhosa e muito feliz por ela ter encontrado um rapaz tão bom e educado.  O que mais lhe agradava era ver a filha feliz.

 Os dois partiram para o carro e D. Lucia ficou ali na porta até perdê-los de vista.

 

 

 

Junior parou diante de um imponente portão. Cumprimentou o segurança da portaria, e ele o deixou passar.  Subiram por ruas estreitas e passaram por belas mansões, até chegarem próximos ao lago e ele estacionar o carro em uma das vagas. Heloise encantou-se com o luxo e sofisticação do lugar.

– Uau! Que linda a sua casa!

Junior sorriu e puxou-a pela mão. Conduziu-a até a porta e antes de abri-la, Heloise segurou em suas mãos, respirou fundo e disse.

– Estou nervosa.

– Não precisa. Eu prometo que vai ser perfeito – beijou os lábios dela e abriu a porta gritando:

– Chegamos!

Heloise correu os olhos por toda a decoração requintada: o conforto do sofá de couro, os tapetes persas, a coleção de obras de arte, a iluminação sofisticada…

– Olá, Heloise, seja bem-vinda. – A mãe de Junior veio abraçá-la, acompanhada do pai.

– Essa é minha mãe, Clara.

– Muito prazer, D. Clara – Heloise sorriu.

– Esse é meu pai, Rubens.

Heloise estendeu a mão para cumprimentá-lo, mas se surpreendeu com o puxão e o forte abraço dado por ele.

– Olá garota. Espero que goste de peixe. Eu preparei um assado maravilhoso para nós.

D. Clara olhou torto para o marido e torcendo a boca disse:

– Desde quando você cozinha, Rubens? Venha querida, não ligue para esse velho mentiroso. Ele adora fazer isso.

D. Clara conduziu todos para a sala de jantar.

Heloise avistou uma mesa posta com uma toalha de renda decorada e um vaso de cristal com flores brancas no centro, louça importada, talheres de prata e velas em um castiçal.  As travessas estavam todos alinhadas com a comida e o cheiro era maravilhoso.

– Sente-se aqui, minha querida. – D. Clara arrastou a cadeira para que Heloise pudesse se acomodar.  Junior sentou-se ao seu lado e os dois ficaram de frente aos pais dele.

Durante o jantar, conversaram sobre vários assuntos: a família de Heloise, os estudos, o futuro e os projetos. Foi tudo muito agradável e ela, relaxou um pouco no decorrer da conversa.

 

 

 

– E então, como foi o jantar? – Perguntou Ana, tomando um analgésico.

– Foi maravilhoso! Os pais dele são educados e simpáticos e me receberam muito bem. Estou tão feliz! – Heloise ligava o computador, para atualizar a sua página de relacionamentos.

– Que bom, amiga! – Ana estava com a expressão de cansaço estampada em seu rosto.

– Pelo jeito, a festa foi ótima. Você está acabada! – Heloise sorriu.

– Foi ótima até eu ficar bêbada. Depois não vi mais nada. Acordei na beira da piscina com os insetos quase me carregando no ar. Estou toda picada. Fora essa dor de cabeça que está me matando. Acho que vou parar com essa vida…

– Pois é, amiga. É melhor você arranjar um namorado.

– E quem disse que está fácil? Ontem mesmo, eu estava de olho em um gato, maravilhoso, de repente, no meio da festa ele se engraçou com outro cara, também maravilhoso.

– Não acredito!  – disse Heloise, tampando a boca com a mão.

– Pois é, Helô. Está mais difícil do que você pensa. Você é que tem sorte de ter arranjado um namorado perfeito. Segue meu conselho: segure seu bofe, porque a coisa está feia.

– Pode deixar que seguirei à risca esse seu conselho.

Quando a página principal abriu, Heloise não acreditou na notícia que estava estampada nela. “ JOVEM RICO É PEGO EM FLAGRANTE, ROUBANDO CARRO DE MULHERES EM SHOPPING DE LUXO”

Heloise subiu a imagem do rapaz e tal foi a surpresa em ver a foto de Junior estampada na página do noticiário.

– Meu Deus! Ana, não pode ser ele! Deve haver algum engano…

Começou a ler a notícia e ficou surpresa com o golpe que era aplicado nas mulheres.

“ Rubens Soares Junior, estudante de Odontologia, flertava no Shopping Água Dourada, da zona sul, dentro da praça de alimentação. Após ajudá-la com suas compras, acompanhava a vítima e assim, furtava o seu carro.”

– Nossa! Não acredito nisso!

– O que foi Heloise, o que aconteceu? – Ana aproximou-se da tela e colocou a mão na boca para não gritar. – Minha Nossa Senhora. Não pode ser!

Heloise sentiu um aperto em seu peito. Ela tremia e começou a chorar. Estava nervosa e aflita.

– Mas por que ele faria uma coisa dessas, Ana? Ele é rico, de família boa, tem tudo o que quer. Só pode ser um engano.

D. Lucia entrou no quarto e ligou a TV.

– Veja isso, minha filha.

A reportagem mostrava o flagrante e Junior sendo preso.

Heloise estava aos prantos.

– Não fique assim, querida. – D. Lucia a abraçou e tentou confortá-la. – Não sei nem o que dizer.

– Nem eu, mãe.

 

 

 

Mais tarde, quando estava sozinha em seu quarto, Heloise sentiu-se chocada com aquela situação. Pensou bastante e após acalmar-se um pouco, resolveu ligar para a mãe de Junior, para conversarem.

– Alô. Por favor, gostaria de falar com D. Clara.

– Ela não pode atender agora, quem fala?

– É Heloise.

– Olá, Heloise. Aqui é o Rubens. Você já soube da tragédia?

– Olá, Sr. Rubens. Eu soube, sim e fiquei chocada. Como vocês estão?

– Bem, na medida do possível. Eu já entrei em contato com o meu advogado e ele está providenciando o Habeas Corpus para o Junior. Como ele é réu primário, não será tão difícil  conseguir.

Heloise respirou fundo e não sabia o que dizer.

– Heloise, você está bem?

– Estou sim, Sr. Rubens. Mantenha-me informada da situação, por favor. Se precisarem de mim, pode me ligar. Fiquem com Deus.

– Obrigada, Heloise. Pode deixar que ligaremos sim.

Assim que desligou o telefone, Heloise sentou-se na frente do computador e começou a pesquisar sobre o caso de Junior. Um rapaz aparentemente normal, sem traços identificáveis fora do descontrole de si, mas com impulsos para furtar sem nenhuma necessidade. Roubar apenas por prazer, pela adrenalina e pela aventura momentânea.

– Meu Deus. Não sei se vou conseguir aceitar essa situação.

De repente, o celular tocou. Heloise identificou de quem era a ligação no visor.

– Sr. Rubens.

– Olá, Heloise.

– Está tudo bem?

– Está sim. Acabei de falar com o advogado e ele trouxe um recado do Junior para você.

O coração de Heloise disparou e ela começou a chorar.

– Pode falar, Sr. Rubens.

– Ele quer te ver.

Heloise não queria encontrar o namorado na cadeia. Estava aos prantos, mas não poderia recusar um pedido do pai dele. Quem estaria sofrendo mais, senão a própria família. Ela estava apaixonada, mas ele era filho do homem que estava do outro lado da linha. Tinha certeza que seu sofrimento era muito maior do que o dela. Seria o fim se ela recusasse vê-lo. Iria deixá-lo tão arrasado que não suportaria viver com aquele sentimento de culpa. Pelo amor daquele pai, por seu filho, faria tal sacrifício. Respirou fundo e quase falhando a voz, disse:

– Tudo bem, Sr. Rubens, eu vou.

 

 

 

Heloise, pontualmente, às duas horas, tocou a campainha. Reparou na expressão cansada e sofrida de Sr. Rubens. Perdera o brilho dos olhos e o encanto que tinha visto naquele dia que o conhecera. Estava abatido e triste, com os olhos inchados e vermelhos de tanto chorar. Entraram no carro e partiram para a delegacia de polícia.

– E D. Clara, como está?

– Está medicada, tentando se acalmar. Não tem condições nenhuma de sair de casa, muito menos ver o filho na cadeia. Obrigada por ter vindo, Heloise.

Sentiu que fez a escolha certa. Ao vê-lo naquele estado frágil, percebeu que todos precisavam muito mais dela do que qualquer coisa. Heloise apenas acenou com a cabeça e não disseram mais nada.

Chegando a delegacia, seguiram em um corredor frio e escuro e entraram até a sala do delegado. O advogado já estava esperando-os.

– Sentem-se. – Ordenou o delegado, após cumprimentar Sr. Rubens com um aperto de mão.

Ele estava tenso e apertou a mão uma na outra com tanta força que Heloise pode perceber o branco nos nós dos dedos.

O Delegado acomodou-se na cadeira e começou a explicar:

– Bem, a situação é a seguinte. Algumas circunstâncias no processo são fundamentais para ter uma ideia real de sanção penal, pois o grau de participação do réu em questão poderá ser determinante no entendimento do magistrado. Na maioria dos casos do artigo 157, o réu primário poderá ser condenado em regime inicial semiaberto. No caso do Junior, a sua pena poderá ser restritiva de liberdade convertida em restritiva de direitos para penas iguais ou inferiores a 4 anos.

– Oh, meu Deus! Então quer dizer que Junior cumprirá pena por 4 anos?

– Não sabemos ainda. Tudo dependerá do juiz. – disse o delegado.

– Nós estamos tentando um Habeas Corpus e a petição será feita diretamente ao juiz. Teremos que aguardar. – explicou o advogado.

Heloise sentiu as lágrimas escorrerem em seu rosto. O coração apertado e o sofrimento em saber que o namorado perfeito, o grande amor de sua vida, estava atrás das grades. Tinham planejado um futuro lindo e feliz e tudo acabara ali. Tudo, por causa da insanidade dele. Até aquele momento, ela não compreendia o porquê do comportamento imprudente e demente. Jogar tudo fora, por uma aventura…

De repente, a porta abriu.

Junior entrou na sala, com os pulsos algemados, acompanhado por um carcereiro. Heloise não pôde deixar de notar as lágrimas descendo no rosto de Sr. Rubens, revelando a angústia que sentia naquele momento. Um filho criado com tanto amor e carinho, acabara atrás das grades. Que tristeza!

– Oi, Junior – Sr. Rubens não conseguiu se mexer. Correu os olhos no filho e parou exatamente nas algemas.

– Oi, pai – ele começou a chorar e demonstrou todo o seu arrependimento.

– Por que, meu filho? Eu não entendo. Você teve tudo e acabar aqui? Faltou alguma coisa? Nós lhe demos tudo o que sempre quis.

Junior abaixou a cabeça e fitou o chão. Não conseguia encarar ninguém. Lembrou-se de seus sentimentos vingativos durante os seus furtos e os sentimentos de euforia vingativa, um prazer de estar enganando os pais. Desde criança, não teve ninguém que com jeitinho, lhe fosse explicando o mundo, para que ele entendesse pouco a pouco, no nível de suas possibilidades, a vida, até adquirir um genuíno respeito pelas pessoas. Foi tratado em base, cercado de mimos e muita liberdade, sem limites. D. Clara e Sr. Rubens sempre o encheram de brinquedos e presentes que muitas vezes, achavam que iria substituir o amor. Teve tudo, menos o principal: a presença dos pais.

Sr. Rubens não aguentou e começou a chorar. Estava aos prantos e Heloise não conseguiu se controlar, também. O advogado retirou-o da sala, lhe deu um copo com água e tentou acalmá-lo, para continuarem a conversa.

Heloise ficou. Encarou-o com raiva e disse, com a voz firme:

– O que foi que você fez, Junior? Você acabou com tudo. Nossa história juntos nem começou e já foi interrompida por sua causa. Por quê?

– Eu não sei. Talvez diversão, adrenalina, aventura. Não pensei nas consequências. Pirei. Queria ter um carro diferente, todo dia.

Heloise o encarou e seus olhos encheram de lágrimas. Junior respirou fundo e contou os detalhes dos roubos à Heloise:

– Eu me excitava desumanamente com a ganância por alguns segundos. Vivia o sonho da fartura. Me estigava pela tentação. Suava na testa e nas mãos, com o coração em disparada, surrupiando algum carro. Aquilo me dava uma sensação de prazer maravilhosa. Porém, quando saía do shopping, minha agonia crescia ainda mais, virando um filme de suspense, cujo momento de tensão máxima era quando eu passava por uma blits policial. Só suspirava aliviado quando abandonava o carro em qualquer esquina com a chave na ignição.  

Junior pausou por alguns instantes, suspirando e tentando encorajar-se para continuar.

– Depois, quando tudo terminava, eu ficava profundamente chocado com a conclusão. Envergonhado, torturado por remorso, morrendo de culpa. Eu possuía um estranho e irresistível impulso de roubar, contra o qual eu não podia fazer nada. Por mais torturado que ficasse, acabava cedendo a esse impulso. Uma parte de mim não entendia bem e nem sabia de onde vinha aquele impulso, aquela força demoníaca que se apossava de mim. Por outro lado, eu tinha consciência, lucidez e integridade moral para entender que estava totalmente errado. Parecia que momentaneamente eu estava hipnotizado, magnetizado, enfeitiçado por um irresistível delinquente. Quando eu caía em si, sentia-me envergonhado e arrependido.

Heloise enxugou os olhos com a palma da mão e disse:

– E nós? Em nenhum momento você pensou no que aconteceria com nós dois se você fosse pego? E agora, Junior? Ficaremos separados e nem sabemos por quanto tempo. Como você foi egoísta.

– Eu juro, Heloise. Se eu sair logo dessa, nunca mais eu faço qualquer besteira em minha vida. Não sei por que fiz aquilo. Sei que errei e não entendo por que não evitei.

– Por que você não pediu ajuda? Você não precisa roubar. Você está doente, Junior. Precisa de tratamento…

– Sempre que eu terminava o roubo, me envergonhava com o que acabara de ter feito e tinha medo que alguém descobrisse.

Agora ele chorava. O soluço lhe invadia e mal conseguia falar. Ficou cabisbaixo por um bom tempo e quando levantou a cabeça, disse:

– Me perdoe, por favor.

Heloise não aguentou. Abriu a porta e correu para fora daquele lugar. Não queria ouvir, ver e nem sentir mais nada. Correu sem rumo, como se estivesse fugindo de uma fera faminta. Queria sumir, evaporar ou virar pó, para tirar aquela dor de seu peito.

 

 

 

Junior cumpriu 20 dias de prisão preventiva. Nesse período, sentiu na pele os problemas que aparecem no ambiente carcerário. Descobriu que é um meio artificial e não permite reabilitar ninguém de sua vida criminal.

O lugar era totalmente inapropriado, começando pela superlotação do local. Em uma cela para 15 presos, estavam presentes 45. Era óbvio que a precariedade do sistema, contribuiu muito para que Junior percebesse o seu erro.  Ele ficou horrorizado com a miséria, a falta de investimentos, o descaso e o abandono que sofreu na prisão. Submeteu-se aos regimentos e regras para seguir o dia-a-dia de forma organizada e tranquila.

Foi torturado e tratado como um lixo, mas o pior estava por vir. Dois dias após sua prisão teve uma rebelião na cadeia onde os presos detonaram tudo. Quebraram as portas e romperam as grades. Aquela violência toda era uma forma de vomitarem todo o ódio que estava acumulado dentro deles. Junior nunca havia sentido tanto medo em sua vida.

Presenciou vários tipos de violência naqueles dias que ficou encarcerado. Ali, se um preso fosse mais ousado, poderia sentir uma facada na pele por um simples pedaço de pão.

Os dias de visitas na delegacia transformavam-se em um grande sofrimento. Esperava com expectativa a presença de seus pais e, sobretudo, de Heloise. Sr. Rubens, apesar das dificuldades, sempre aparecia, mas a mãe, nunca o visitou. Isto lhe fazia sofrer muito mais.

 Esse período em que Junior ficou preso, o ajudou a refletir sobre seus delitos, fazendo-o entender que existiu uma obrigação moral, que se perdeu no momento em que o crime foi consumado. Essa sanção punitiva, com a restrição da liberdade foi a forma mais amena que teve de pagar pelos erros cometidos. Estava ciente que de nada iria adiantar entrar em um estado de conflito, uma vez que até o advogado analisar o processo e impetrar um recurso, se fosse possível, teria que permanecer ali.

 

 

 

Heloise tocou sua vida sem se envolver com a situação de Junior.

Um dia, estava fazendo uma pesquisa pelo computador, para um trabalho da Faculdade, quando de repente, encontrou um blog com o título: ”Ainda há esperança!”. Ao ler o conteúdo, interessou-se pelo assunto e ficou admirada com o trabalho feito para os familiares dos menores infratores. Tinha muitas postagens interessantes e uma que mais lhe chamou a atenção foi: Por que não tratar o problema na raiz? O conteúdo falava dos problemas que o menor enfrentava ao se deparar com uma família desestruturada, faminta, de desempregados, de alcoólatras. Era necessário um acompanhamento psicológico e social, dando o apoio necessário para a reconstrução familiar.

Quando Heloise leu o nome do autor do blog, mal pode acreditar. Era o Junior. Começou a chorar de tanta emoção que sentiu.

– Não acredito! Que trabalho lindo que ele está fazendo.

Não resistiu. Pegou o telefone e discou para ele.

– Alô. – A voz de Junior continuava a mesma.

Por um instante, Heloise sentiu o coração acelerar mais que uma locomotiva. Não sabia o que dizer e achou melhor desligar.

Não queria se envolver novamente com ele e tentaria acompanhar seu trabalho pela internet, postando mensagens otimistas anonimamente, de modo que Junior estaria sempre presente, porém distante no tempo e no espaço. Unidos por um blog e separados pela vida.


"5" comentários em: Vidas roubadas – por Eliane Galavote

  1. Eliana Ventura - 25 de maio de 2012

    Adorei! Eliane, te conheci pequenininha quando era aluna do Prof. Benedito e da D. Claride, lembro das suas artes no Pasquale qdo seus pais te levavam, pra falar a verdade do alto dos meus 7 aos 12 anos eu não simpatizava muito com a “filha da professora”, na época eu era uma aluna bem “cdf” como diziam os outros alunos e costumava ganhar os concursos de redação, seu pai dizia que eu devia fazer letras e seguir escrevendo, mas tomei outros rumos, talvez por estas lembranças fiquei tão surpresa e até emocionada agora ao te ver uma Escritora com tanto talento. Parabéns!! Você soube aproveitar muito bem o exemplo dos seus pais que são pessoas que vou admirar por toda a vida, te desejo muito sucesso!

  2. Maria Isabel Munhoz Biloto - 9 de abril de 2012

    Adorei vc é uma pessoa abençoada por Deus…..e como dizem, filho de peixe peixinho é….beijos minha querida. Quando tiver oportunidade vá até o Recanto das Letras e leia minhas poesias, vou adorar…

  3. Rafael - 11 de março de 2012

    Via Facebook
    John Williams Bezerra
    Gostei dessa veia poetica urbana dela.

    • Eliane Galavote - 11 de março de 2012

      Obrigada Rafael, pela oportunidade!!!
      Um grande abraço!!!

      • Rafael - 11 de março de 2012

        Eu é que agradeço a colaboração ao site. Grande abraço!

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