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Caminho de volta – por Hugo Bülow

 

*Causo gauchesco.

 

Pois o Evilásio encilhou o pingo, botou as pilchas, juntou o resto dos seus trapos, montou e, sem olhar pra trás, botou os pés na estrada.

Deu uma tapeada no chapéu, levantou os olhos, botou um horizonte à sua frente e se bandeou para os pagos do sul.

Não tinha que dar adeus a ninguém, nem seus pais ele conhecera, só sabia que eles eram do sul.

Como por instinto, enveredou pelos campos, atravessou canhadas e rios, montes, peraus, dormiu a campo, bebeu água das fontes e alimentou-se de caça e pesca, além de um pão de milho e de um pedaço de charque que havia comprado num bolicho e trouxera, embrulhado num pano já poído, bordado com carinho por alguém há muito tempo, dentro do peçuelo.

A mala de garupa vinha quase vazia, eram poucos os seus pertences.

Não tinha pressa, não escolheu o caminho. Atravessava invernadas e utilizava-se, por vezes, de algum corredor abandonado.

Vez por outra, ainda encontrava, nesses lugares, algum sinal de que alguém, algum dia, já havia cruzado por ali.

Alguns ossos espalhados alhures, demonstravam que nem sempre a tropa chegou completa ao seu destino e, uma ou outra vez, encontrava uma cruz cravada ao lado do corredor. Nelas não se via data, nem nome. Era somente uma cruz perdida, solita desafiando o vento, a chuva e o tempo.

Uma prece rápida era o que pediam os tropeiros que ficavam pela estrada, e Evilásio, tirava, com respeito, o seu chapéu e, com devoção, pedia ao Criador, paz e salvação para aquela alma perdida no meio do nada. Depois, de mansinho, encostava as chilenas no pingo e, “a passito no más”,  continuava o seu caminho.

Não tinha o destino traçado, mas seguia o Cruzeiro do Sul e, com persistência e fé, acreditava que deveria chegar ao lugar que Deus a ele reservara.

Já tinham se passado seis noites que ele dormira tendo por candeeiro a lua. Seu cavalo já demonstrava cansaço e, pedia um pouco mais de tempo para pastar, beber, descansar e se recuperar.

Por incrível que possa parecer, ele não havia encontrado viva alma nas andanças que fizera nesses dias.

Mas hoje, ele havia saído ao raiar da aurora.

Andou muito, e o sol estava a pino, deveria ser quase meio dia quando, uma aragem trouxe, até ele, um cheiro de carne assada. Quase que instintivamente subiu até a crista da coxilha, ficou de pé nos estribos, espichou o pescoço e viu, não longe dali, um rancho. Não era uma fazenda, talvez fosse a moradia de algum posteiro, mas, embora, de relance não avistasse ninguém, o certo é que saia uma fumaça da chaminé e o cheiro da carne estava convidativo.

Deu de rédeas, aprochegou-se despassito, mas não apeou de pronto do pingo, a gente nunca sabe o que pode aparecer:

– Oh! Oh de casa!

Esperou alguns segundos, bateu palmas e, de novo:

– Oh de Casa! Tem gente em casa?

Com um rangido, a porta do rancho foi se abrindo devagar.

– Quem é? Uma voz soou de dentro do rancho: – O que deseja?

– Sou um viajante, estou vindo procurar emprego em alguma fazenda aqui do sul, respondeu. Estou viajando há muitos dias. Será que a senhora não me arrumaria um prato de comida?

– Apeie seu moço! Ate o seu cavalo ali, perto do coxo d’água. Meu marido está no campo, ainda não voltou. Ele deve estar chegando, já está na hora.

Evilásio dirigiu-se ao lugar indicado, amarrou o cavalo e, enquanto afrouxava os arreios do animal, sentiu que era observado. Virou-se, bem devagar e viu que uma idosa senhora, parada, acompanhava seus gestos. Ficou meio sem jeito.

– A senhora me desculpe, mas eu estava cruzando pelos campos, indo mais para o sul, quando o cheiro de sua comida seduziu o meu estômago e a fome me trouxe até aqui. Não quero incomodar.

– Não é incômodo nenhum, seu moço. A gente, praticamente, nunca recebe uma visita. Que eu me lembre, a última vez que alguém apareceu por aqui… Olha!…Deve fazer uns dez anos. Somos sozinhos, eu e o velho. Não te acanhe, fique à vontade, que eu vou por um pouco mais de água no feijão e dar um jeito na bóia. Com sua licença.

E a senhora virando-se, caminhou e enfurnou-se dentro do rancho.

Evilásio aproveitou a água fresca vinda de uma vertente, ali do lado e refrescou-se. Lavou o rosto, as mãos e ficou a admirar o lugar.  De árvores frutíferas tinha pé de araçá, pitanga, goiaba do mato, ameixa, caqui e gabiroba, além de uma horta bem ajeitada. Tinha uma boa lavoura de pasto que ficava mais ao fundo onde pastavam uma meia dúzia de vacas e dois cavalos. O galinheiro estava ao lado do galpão. 

Do outro lado, havia um pequeno cemitério, esquecido pelo tempo e sem receber capina, com uma meia dúzia de lápides e cruzes.

Mas o que ele olhava mesmo era para o cimo da coxilha, pois estava torcendo para que o marido da senhora aparecesse logo, pois ele estava louco para matar quem estava matando ele, a tal da fome.

Ao que parece a sorte lhe sorriu, pois nem bem pensara em recostar-se no banco que estava à sombra, debaixo de um enorme cinamomo, uma voz forte se fez ouvir:

– Buenas seu moço!

Levantou-se meio de supetão e respondeu:

– Buenas, senhor! Estava de passagem e …

– Vamos deixar a conversa pra depois, agora vamos pro rango que eu estou morrendo de fome, disse o homem já com a idade avançada.

A mesa estava posta a capricho, Uma coberta de mesa composta de toalha com bordados bem delicados acompanhados de guardanapos com o mesmo trabalho, pratos de porcelana, talheres e copos colocados bem do jeito.

Sentaram-se à mesa, uma breve prece em silêncio e, depois, comeram até se fartar.

Levantaram-se e o homem, olhando carinhosamente para a mulher, disse:

-Prepara um gole para nós, mulher, faça um cafezinho bem caprichado.

Saíram então, os homens, para a rua e sentaram-se a sombra das árvores. Daí, enquanto preparavam um palheiro para pitar, começou a prosa:

– Quem és? De onde vens? O que fazes? Para onde vais?

Evilásio então, explicou para o velho homem que nada sabia de sua origem, mas que era guasqueiro. Estava morando em Santa Catarina e que o serviço dele não era valorizado onde ele morava. Todo mundo gostava de seu trabalho, achava bonito e bem feito, mas não pagava o que ele achava que merecia. Diante desse infortúnio, resolvera pegar a estrada. Poderia “dar com os burros n’água”, mas iria procurar a sorte noutro lugar. Daí, então, das andanças é que foi aparecer por aquelas bandas.

Colocou-se à disposição do dono do rancho para arrumar algum arreio como pagamento pela comida que recebera, serviço do qual não foi dispensado.

Logo apareceram em suas mãos algumas rédeas arrebentadas, laços, arreadores e talas que mereciam cuidados; uma sela e um basto que precisavam ser costurados e, Evilásio, satisfeito e agradecido pela refeição que recebera, pegou da sua mala de garupa as ferramentas necessárias e começou a dar jeito nas coisas.

Mostrava destreza e conhecimento do que estava fazendo, deixando muito feliz o dono do rancho. 

Evilásio, entretanto, também notara que os aperos que lhe trouxeram eram de primeira linha. Todos tinham enfeites de prata bem trabalhados e com adereços de pedras semipreciosas. Estavam velhos, desgastados pelo uso e pelo tempo, mas ele só havia visto alguma coisa parecida nos bolichos mais finos do vilarejo e, quem comprava era só gente de posses, que tinha muito dinheiro para gastar.

Para matar o tempo, enquanto arrumava os estragos, perguntou ao dono do rancho se havia, ali por perto, alguma fazenda na qual ele poderia por o seu serviço à disposição

– Indo em direção ao sul, por mais um dia, a cavalo, chegarás a uma casa grande, fazenda “Laço de Prata”. Com certeza encontrarás muito o que fazer por lá.

– Isso aqui, por um acaso não faz parte daquela fazenda? Perguntou Evilásio, tentando matar sua curiosidade.

– Já fez, respondeu o velho homem, hoje em dia não faz mais. Ninguém mais passa por aqui, nem se lembram que isso aqui existe. Isso, também, não importa mais, já somos velhos.

– Mas o senhor e sua senhora não tiveram filhos?

– Tivemos e temos, hoje ele é o patrão da fazenda. Quando jovem teve caso com quase todas as moças da redondeza. Dizem que até filho deixou por ai, perdido no mundo. Como nós tínhamos muito dinheiro, ele acobertava tudo, dando qualquer tipo de presente para as meninas que por ele eram ludibriadas. Nós atazanamos a vida dele, mas você sabe como é, os filhos da gente crescem, estudam e acreditam que sabem muito mais e, acabam jogando a gente para um canto qualquer para que não os incomode.

– Tudo bem, disse Evilásio, isso faz parte da história do mundo. Eu devo terminar de arrumar essas coisas do senhor ainda hoje. Amanhã de manhã, me mando rumo à fazenda “Laço de Prata” para tentar arrumar serviço. Peço sua licença para dizer para eles que foi o senhor e a sua esposa, que muito bem me acolheram, que me indicaram para procurar trabalho lá. Eles devem considerar, não? Aliás, até agora, nem o senhor, nem a sua senhora me disseram os seus nomes.

– Não carece meu filho, não carece. Quanto a falar em nós por lá, é melhor não, eles já nos esqueceram e até nós já não pensamos muito neles. Deixe nós continuarmos a viver a nossa vidinha bem tranqüila por aqui. Se um dia quiseres voltar a visitar-nos, sinta-se totalmente à vontade, ficaremos felizes em revê-lo.

No dia seguinte, bem cedo, em silêncio, Evilásio partiu em direção a fazenda. Nem se despediu. Somente deixou sobre a mesa um pano poído. Um guardanapo velho que tinha o mesmo bordado dos demais utilizados no almoço.

Os velhos não ficariam mais sós.

Um comentário em: Caminho de volta – por Hugo Bülow

  1. Rafael - 5 de abril de 2012

    Como sempre, Hugo, uma excelente ambientação regional. Parabéns.

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