<strong>O peregrino Joshua</strong>

O peregrino Joshua

Joshua é uma coluna com publicação semanal às quintas-feiras no Jornal Diário Regional e aos sábados no Jornal Folha do Mate.

Nela Rafael Lovato trata de temas cotidianos vivenciados por um velho peregrino, no início do século passado.

A série "O peregrino Joshua" está sendo publicada pela Editora Zap Book, e contará com ao menos 7 volumes, e que podem ser comprados no site www.zapbook.com.br

13 abril 2012

Escuridão

 

O peregrino Joshua deixara para trás o vilarejo de Riacho Bonito já há alguns dias, e rumara na direção das montanhas da região. Caminhando por acidentada e estreita estrada, incrustado no meio daquelas, encontrou um povoado com meia dúzia de casas, o qual, certamente, não contava com mais de uma centena de moradores. Por sorte, conseguiu o sótão de uma velha casa para passar a noite, o qual dividiria com outra pessoa, um forasteiro também.

Joshua adentrou o pequeno recinto, que possuía duas camas de palha nas laterais, e o forro do telhado passava, diagonalmente, bem próximo a elas, dando certo ar claustrofóbico ao ambiente, disso não havia qualquer dúvida. Ajeitados em suas camas, e após apagarem as velas, a escuridão se instalou, sem uma centelha de luz em qualquer lugar. Após alguns minutos, Joshua escutou sua companhia de sótão se debater na cama, esbaforido, e, subitamente, deixar o lugar às pressas. Intrigado, resolveu também descer do sótão, e acabou encontrando o homem sentado em uma cadeira na cozinha, com um isqueiro na mão, tentando acendê-lo. Porém, somente a instantânea luminosidade do riscar da pedra iluminava o ambiente, pois, certamente, o apetrecho se encontrava sem fluido. A cada tentativa frustrada, o homem falava baixinho, consigo mesmo:

– Acende, desgraçado! Acende, pelo amor de Deus!

Vendo seu desespero, Joshua se dirigiu à janela, abrindo-a, oportunizando que a difusa luminosidade das estrelas e da lua adentrasse o ambiente. O homem saltou na cadeira, e Joshua concluiu que, tamanho deveria ser seu pânico, sequer notara a sua presença no recinto. Viu, então, o homem correr em sua direção e colocar a cabeça para fora da janela, como se buscasse poder respirar novamente. Joshua não interferiu, nem disse palavra. Após alguns momentos, aparentemente mais calmo, o homem disse, seu rosto ainda virado para fora:

– Não sei o que me deu. Repentinamente, parecia que tudo estava errado, e que algo de muito ruim ia acontecer… Sei lá… Só pensava em fugir… Encontrar luz…

– Eu sei pelo que passou, meu amigo – falou Joshua, sentando-se na cadeira junto à mesa -, posto que várias vezes, em minha juventude, senti o mesmo. Estamos de tal forma atrelados e acostumados à nossa vida, ao nosso quotidiano, que qualquer pequena mudança nos é imediatamente perceptível, e grandes transformações nos são quase sufocantes.

– Mas… – e o homem, hesitante, perguntou: – O que isso tem a ver com a escuridão da noite?

Joshua sorriu:

– Eu diria que, assim como não controla vários acontecimentos em sua vida, você também não controla a escuridão. E, por isso, sentiu-se impotente frente ao breu noturno, pois incapaz de tomar as rédeas das circunstâncias. No momento em que percebeu o quão à mercê do acaso você se encontrava, a sua realidade metafísica ruiu. E esse sentimento de descontrole do destino, não raramente, é aterrorizador.

– Eu que o diga… – e o homem, iluminado pelo luar através da janela, se virou para Joshua, que prosseguiu:

– Montamos, em nossas vidas, um universo particular, onde supomos possuir o controle absoluto sobre as circunstâncias do dia a dia. Porém, basta um aparentemente insignificante e isolado acontecimento, para percebermos o quão pequenos e impotentes realmente somos. O quão incerto pode ser nosso destino, e que nos encontramos à sua mercê.

– Se o senhor continuar falando isso, não dormirei essa noite – e o homem sorriu, nervoso.

– Acalme-se – e Joshua se levantou, indo para próximo do homem: – Acontece que essa não é a realidade. Não precisamos possuir controle sobre tudo, pois a incerteza é a mola-mestra do amanhã, e o importante é compreendermos que isso não implica estarmos desamparados. Em momentos em que a escuridão parecer lhe abraçar, meu amigo, lembre-se que sempre haverá janelas para serem abertas, basta ter a calma de procurá-las. E, então, verá que o mundo, lá fora, permanece tranquilo, despreocupado com o breu da noite, alheio à escuridão que há pouco lhe abraçava.

"6" comentários em: Escuridão

  1. Bernardo Melo - 16 de abril de 2012

    Quando pretendemos controlar todos ou mesmo alguns aspectos do existir, sendo a ato de viver imprevisível, deparamo-nos com intenso sofrimento. Bela, a sua metáfora.

    • Rafael - 16 de abril de 2012

      Você captou exatamente o cerne do que tentei passar para os leitores, Bernardo. Abração!

  2. Rafael - 14 de abril de 2012

    Via Facebook
    Rose Arouck
    Muito bom Rafael! Parabéns! Abraços.
    Rafael Lovato: Valeu, minha querida Rose!

  3. Rose Arouck - 13 de abril de 2012

    Que beleza Rafael! Já imprimi pra ler com mais calma. Parabéns! Abraços

    • Rafael - 13 de abril de 2012

      Que bom, minha querida! Bjão!

  4. Rafael - 13 de abril de 2012

    Via Facebook
    Rosiane Ceolin
    Adoro a sensibilidade de Joshua.
    Rafael Lovato: Que bom, minha querida Rosiane. Bjo.

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