<strong>O peregrino Joshua</strong>

O peregrino Joshua

Joshua é uma coluna com publicação semanal às quintas-feiras no Jornal Diário Regional e aos sábados no Jornal Folha do Mate.

Nela Rafael Lovato trata de temas cotidianos vivenciados por um velho peregrino, no início do século passado.

A série "O peregrino Joshua" está sendo publicada pela Editora Zap Book, e contará com ao menos 7 volumes, e que podem ser comprados no site www.zapbook.com.br

20 abril 2012

Carpe diem

O peregrino Joshua deixou para trás o povoado de Última Instância, rumando para a passagem entre montanhas. Sabia que o próximo vilarejo distava mais de três dias de árdua caminhada, mas isso não o assustava ou incomodava, pois gostava do ar seco e frio das montanhas, sem contar que trouxera companhia: o livro ‘Tom Sawyer’, que comprara da dona do sótão, no qual pernoitara.

Passava do meio-dia quando escorou sua bengala em uma pedra e sentou para descansar um pouco. Ao vasculhar seu alforje, procurando algo para comer, em uma das repartições, esquecido, encontrou um pedaço de papel. Ao abri-lo, recordou que era algo que escrevera há muitas décadas, e passou a ler:

O quanto ainda terei de aguardar,

Para essa guerra encerrar, para que o mundo pare,

Para, novamente, encontrar meu lar, meus amores?

‘Talvez essa condição seja para sempre’, um diabinho assoprou;

‘Talvez seja somente até amanhã’, meu coração retrucou.

Carpe diem, minha alma grita.

Temos todo o tempo do mundo, muitos me falaram.

Dias e mais dias, anos, décadas.

Então, por que tenho a sensação de que roubaram o meu tempo?

Por que sinto que devo me libertar? Por que a ânsia?

Por que essa atroz sensação de que algo se perdeu, para sempre?

Carpe diem, lágrimas me avisam.

Na vida, algumas coisas não podem ser deixadas para amanhã,

Pois existem prioridades impostas pelo acaso.

Sabermos mensurar isso, talvez, nos traga algum conforto,

Quando, no futuro, pensemos e choremos ao recordar.

Porém, ainda assim, quedaremos com um gosto amargo na boca,

De ter feito o que era, possivelmente, provavelmente, o certo,

Mas não o que nutríamos, de fato, vontade de fazer;

De agir com responsabilidade, mas, talvez, esquecido de ser um humano.

De ter vivido um dia, porém, sem tê-lo, realmente, aproveitado.

Carpe diem, o passado me assopra.

Então, alguém me lembra:

‘Faça o que tens de fazer; seja um bom modelo; honre seus pais;

Trate bem as pessoas; ame e respeite sua esposa; faça algo mirífico;

Eduque seus filhos; contribua para a evolução da espécie;

Seja responsável; ame o próximo…’

Ontem o barco de Caronte levou minha alma,

Minha razão de viver, de continuar neste mundo.

Talvez meu desespero seja porque ainda não aprendi a paciência,

A parcimônia, a temperança, a resignação…

Não quero prosseguir, pois, no final, me pergunto: para onde irei?

Carpe diem, digo para mim mesmo.

 

– Aproveite o dia… – Joshua soprou, baixinho, aos ventos. – Parece simples… Mas, às vezes, é muito mais difícil do que imaginamos – e relembrou sua esposa e filhos, e lágrimas saudosas rolaram por suas bochechas. – Mas, tudo passa, novos ventos sopram e o sol de cada dia carrega em seu alforje a esperança. Carpe diem, Joshua, carpe diem.

E Joshua se levantou, pegou a bengala e seguiu caminhando, admirando a beleza do dia, o sol, o horizonte.

"16" comentários em: Carpe diem

  1. Rafael - 4 de abril de 2014

    Via FACEBOOK
    Heloiza Averbuck
    Belo e poético texto !

  2. Rafael - 4 de abril de 2014

    Via FACEBOOK
    Fernanda Pereira
    Lindo!

    • Rafael - 4 de abril de 2014

      Bjão Fernanda 🙂

  3. Rafael - 4 de abril de 2014

    Via FACEBOOK
    Rosilayne Vasconcelos
    Mais um texto maravilhoso! Aguardando o próximo!

    • Rafael - 4 de abril de 2014

      Bjo Rosilayne!

  4. Marcus Castro de Azevedo e Souza - 4 de abril de 2014

    Excelente texto. Os “Joshuas”, nós, estamos por aí, nestas “estradas” da vida, lembrando e relembrando dos caminhos, dos atalhos, dos desvios. As reflexões, meditações, nos reposicionam. Assim, seguimos novamente.
    Grato, Rafael.

    • Rafael - 4 de abril de 2014
      • Rafael - 4 de abril de 2014

        Fico contente que gostou, Marcus. Um abração

  5. MÁRCIA - 4 de abril de 2014

    As vezes, nos sentimos assim! Perdidos em meio ao próprio mundo construído sem nenhuma direção ou proposito que nos fale ao coração. E em meio aos devaneios, muitos tolos, encontramos palavras que fazem eco e nos enchem de esperança, mesmo quando nossos alforjes se encontram vazios! ‘Carpe diem’ para todos nós! Bom dia!

    • Rafael - 4 de abril de 2014

      É exatamente assim, Márcia. Bjão!

  6. Rafael - 21 de abril de 2012

    Via Facebook
    Rosa Maria Lovato
    Oi filho! adorei o texto e li para a vó, que tb amou! serve para refletir mais um pouco … e muito mais… bj no coração
    Rafael Lovato: Bjão mamãe amada!

  7. Rafael - 21 de abril de 2012

    Via Facebook
    Luiz Antonio Frólio Frólio
    Bom Dia Mano, acabei de ler o mesmo na Folha do Mate. Como sempre gosto muito do que escreves. Parabéns você e um ¨ Iluminado ¨
    Rafael Lovato: É com muita alegria que recebo seu comentário, Luiz, sabendo que um irmão que tanto admiro gosta do que escrevo. Abração!

  8. José Aurestes Argolo Neto - 20 de abril de 2012

    Parabéns Rafael Lovato, gostei muito “Mas, tudo passa, novos ventos sopram e o sol de cada dia carrega em seu alforje a esperança. ‘Carpe diem’, Joshua, ‘carpe diem’”.

    • Rafael - 20 de abril de 2012

      Que bom que gostou, meu amigo José Aurestes, um grande abraço!

  9. Rafael - 20 de abril de 2012

    Via facebook
    Leila Onofre
    – Aproveite o dia… – falou, baixinho, Joshua. – Parece simples, mas, às vezes, é muito mais difícil do que imaginamos – e relembrou sua esposa e filhos, e lágrimas saudosas rolaram por suas bochechas. – Mas, tudo passa, novos ventos sopram e o sol de cada dia carrega em seu alforje a esperança. ‘Carpe diem’, Joshua, ‘carpe diem’…

    Obrigada por essa boa leitura e um bom dia.
    Rafael Lovato: bjão, Leila!

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