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O “Esquecimento” Azul – por Fátima Abreu

Ela se encontrava confusa, acabara de acordar e não sabia onde estava. Que lugar seria aquele? A última coisa de que se lembrava, era de ter tomado um copo de água que alguém havia lhe dado, e depois um sono profundo se apossou dela…

Percebeu que estava em uma pequena suíte, levantou-se da cama aconchegante, que era forrada de colcha branca com detalhes bordados em azul bebê, muito bonita. Olhou para os lados para fixar bem o ambiente: Paredes azuis, teto branco neve, um armário de 2 portas na mesma madeira maciça, que a da cama, com dois gavetões. Ao lado, uma única cadeira com uma mesa também nesses moldes, mas com um tampo de vidro coberto por uma longa toalha bordada, estilo ‘cearense’…

Havia apenas um quadro, adornando a parede azul: Uma mulher sentada na areia da praia, olhando o horizonte, vestes quase transparentes e na cabeça, uma tiara de margaridas e flores silvestres, enfeitavam o cabelo castanho cacheado. A mulher estava de perfil, e pareceu-lhe estranhamente familiar… Sentiu-se bem, ‘coberta’ de tanto azul, para onde olhasse, afinal, essa era sua cor predileta, parecia até que alguém já sabia disso, e preparara o quarto para seu agrado.

Abriu a porta e resolver explorar aquele lugar, viu em sua frente, um corredor muito longo, e seguiu por ele, reparando que havia um número grande de quartos, a princípio pensou se tratar de um hospital ou coisa parecida, mas não tinha aquele cheiro característico de éter, nem havia nada que lembrasse isso… 
No fim do corredor, deu com um balcão de recepção. Acima do balcão, na parede, estava escrito: “ALA A” Ela arriscou uma conversa com a moça da recepção:

― Olá, bom dia, ou boa tarde? Não sei ao certo, acordei agorinha, estou meio que perdida no tempo e no espaço…

― Ah, Sra, é ‘BOM DIA‘ são ainda 9:00 horas.

―Nossa! Eu que acordo cedinho, dormir até essa hora… Me diga por favor: Onde estou, como vim parar aqui?

― Sra, tudo a seu tempo, aguarde um de nossos monitores, que irá até seu alojamento e lhe dirá tudo que precisa saber. Se quiser dar um passeio, descendo a rampa, encontrará um pequeno rio, onde algumas pessoas aproveitam para o lazer. 
APENAS TOME CUIDADO PARA NÃO SAIR DA “ALA A”.

A recepcionista indicou a direção a seguir. Ela ficou sem entender como poderia ter um rio no subsolo daquele prédio! Sim, porque já havia notado que era um edifício grande, viu 2 elevadores que acima, estranhamente tinham letras em vez de números por andar… As letras eram de todo o alfabeto, portanto a “ALA A”, onde estava, era o primeiro andar do prédio…

Seguiu até o subsolo e achou o riozinho, ficou se perguntando onde daria aquilo, certamente para fora do edifício… Observou pessoas tomando banho no rio, com vestes adequadas para isso. Sentou-se em uma das pedras redondas que estavam espalhadas por ali, e viu então quando um casal de mãos dadas, saiu da água. 
Eles passariam perto dela, então adiantou-se e perguntou:

― Oi, tudo bem com vocês? Poderiam me dizer que lugar é esse?

O casal apenas sorriu para ela e seguiu em frente… Nesse momento, pode constatar que havia um código de silêncio, até que o tal monitor fosse em seu quarto, para tirar suas dúvidas, que apenas cresciam cada vez mais…

Levantou-se então da pedra, voltou pelo mesmo caminho de antes, até sua pequena suíte, e ao chegar, percebeu que na porta estavam escritos seu nome e ocupação:

FRANCIS ANJOS ESCRITORA

“PUSERAM ISSO AÍ AGORA, PELO JEITO”… Pensou.

Abriu a porta e pode perceber que também haviam entrado no quarto e colocaram uma TV de LED, um DVD, e muitos CDs de jazz e blues, seu estilo musical preferido sobre a mesa. Já ia ligar os aparelhos, quando bateram na porta:

― Francis, posso entrar?

― Bem, entre. Não sei quem você é, mas já o aguardava…

Um rapaz aparentando seus 25/26 anos, sorriu estendendo a mão, e disse:

― Bem vinda, Francis! Sou Lúcio. Está tudo a seu gosto, por aqui?

― Sim, sim… Mas estou ansiosa para saber onde estou, e como vim parar aqui!

― Aqui é o “COMPLEXO DO AMANHÔ, como pode já observar é um prédio grande, e está alojada na “ALA A”… Trouxemos você para cá, para fazer parte do nosso projeto.

―Por que não posso sair desta ala? Foi isso que a recepcionista me disse…

― Cada um tem seu papel aqui, e uma ala correspondente com seus dons e aptidões. Está na “ALA A”, de ARTES, por ser escritora, estando ligada diretamente com a literatura, que é uma das formas de percepção artística.

―Quer dizer que na “ALA M” por exemplo, teriam médicos?

― Exatamente! Você entende tudo rápido.
Aqui temos cientistas, engenheiros e muitas outras profissões e aptidões…

― O complexo foi criado para quê?

― Para eternizar todo conhecimento humano, nas gerações vindouras, por esse motivo o “AMANHÔ…

― Mas por que eu? TANTA GENTE ESCREVE ATÉ MELHOR DO QUE EU, SÃO CONHECIDOS MUNDIALMENTE!

― Justamente por você ser uma pessoa modesta, humilde, escrever liricamente com toda a sua alma, sem achar que é a melhor poeta do mundo, como muitos se denominam… Aqui não há lugar para grandes “EGOS”… Você se adequou ao nosso perfil, por esse motivo, foi uma das escolhidas.

― Mas, e minha família, minha casa e coisas?

Ele queria dizer a verdade, mas limitou-se a balançar a cabeça e abrindo a porta para sair, disse:

― Esqueça tudo de antes…

Francis subitamente olhou o quadro pendurado na parede azul: A mulher de perfil era ela! Pode perceber agora, com os pensamentos mais claros. O pintor captou sua ‘alma lírica’, como uma ninfa do mar…

Teve a vontade de olhar na minúscula janela de cortinas brancas de seda.
Afastou-as, e num minuto silencioso, que pareceu uma eternidade, viu apenas flocos de nuvens branquinhas e uma imensidão de azul: ESTAVA A CENTENAS DE MILHARES DE KMs DO PLANETA TERRA…

Um comentário em: O “Esquecimento” Azul – por Fátima Abreu

  1. Rafael - 5 de maio de 2012

    Via Facebook
    Manuela Reis
    Lindo conto amigo! Doce e carinhosa forma de falar da morte , enaltecendo,destacando as virtudes como a modéstia e humildade, como tão bem nos é retratado na frase; “.. escrever liricamente com toda a sua alma, sem achar que é a melhor poeta do mundo, como muitos se denominam… Aqui não há lugar para grandes “EGOS”…!!! Mensagem poéticamente, delicadamente e carinhosamente transmitida, de que podemos realmente ser bons no que fazemos, mas não necessitamos de o exibir, podemos e devemos ter humildade suficiente para estar na vida com muito amor e verdade, mas sempre com os pés bem assentes na terra. Obrigada Rafael, conto bem interessante e que nos força a refletir, sobre as nossas posturas perante o que somos e fazemos!!!
    Rafael Lovato: Valeu, Manuela, tbém gostei deste texto da Fátima. Bjos!

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