<strong>O peregrino Joshua</strong>

O peregrino Joshua

Joshua é uma coluna com publicação semanal às quintas-feiras no Jornal Diário Regional e aos sábados no Jornal Folha do Mate.

Nela Rafael Lovato trata de temas cotidianos vivenciados por um velho peregrino, no início do século passado.

A série "O peregrino Joshua" está sendo publicada pela Editora Zap Book, e contará com ao menos 7 volumes, e que podem ser comprados no site www.zapbook.com.br

18 maio 2012

O círculo de facas

O peregrino Joshua sabia ter chegado o momento de seguir sua peregrinação. Assim, apoiado em sua bengala, deixou para trás o povoado de Bela Vista portando boas lembranças em seu alforje.

Após dois dias de caminhada, em uma fria manhã de outono chegou à populosa cidade de Nuvens Altas, algo incomum em sua peregrinação. Sim, pois, costumava trilhar caminhos pouco explorados, sempre descobrindo e pernoitando em pequenos vilarejos. Mas, encontrava-se convencido de que aquela seria uma ótima experiência.

Andando cidade adentro, um tanto assustado com o movimento frenético de pedestres e carroças, com o alto barulho de pessoas conversando, Joshua chegou a uma praça. E ela era muito diferente das em que normalmente meditava nos vilarejos pelos quais passava: essa era enorme, inclusive ornada com vistoso chafariz! Imediatamente, avistou um aglomerado de pessoas, e foi ver do que se tratava.

Chegando perto, viu um homem no centro da multidão, anunciando em alto e bom som:

-…E, vejam, senhores e senhoras, que estamos aqui com o Zé Oliveira, que saltará pelo meio desse mortal círculo de facas! Exatamente! E aterrissará do outro lado, dando uma cambalhota. E, isso tudo, sem um arranhão. Sim! Estupendo! E, enquanto olham o espetáculo, aproveitem para comprar uma pomadinha, receita antiga e infalível, para nos ajudar…

Enquanto o homem falava, Joshua olhou para o círculo, que não era muito grande, cheio de facas pontiagudas apontadas para seu centro. O aparato era montado em um pedestal, com mais ou menos um metro e meio de altura, e concluiu essa altura pois o conjunto era um pouco mais baixo do que o homem parado perto dele, o qual contava com estatura mediana. Já o Zé Oliveira, que se vestia somente com um boné e uma calça surrada, sem sapatos ou camisa, era um homem de estatura acima da média. Parecia, aos olhos de Joshua, improvável que ele conseguisse passar no meio daquele círculo sem atingir as facas. Ainda mais caindo no chão do outro lado, dando uma cambalhota, sem se machucar.

Prosseguindo no espetáculo, agora com o boné nas mãos, Zé Oliveira falava:

– Antes de eu voar, vou pedir, para quem puder, que me dê uma moedinha, e não precisa ser muito. Só uma ajudinha mesmo, pra me encorajar…

Joshua imediatamente retirou uma moeda de seu alforje e estendeu ao Zé Oliveira. Mas, tal gesto surtiu a crítica de uma mulher parada ao seu lado:

– O senhor vai dar dinheiro pra ele? Eu não dou nada…

Após dar a moeda para Zé Oliveira, que agradeceu com aceno de cabeça, Joshua se virou para a mulher:

– Minha amiga, na verdade estou dando essa moeda a mim mesmo.

A mulher olhou para Joshua cerrando os olhos e cruzando os braços:

– Ã? Como assim?

Joshua escorou ambas as mãos sobre a bengala:

– Esse homem é aproximadamente do meu tamanho.

– Sim, e daí?

– Minha mente sussurra que eu não seria capaz de pular por entre essas facas, e muito menos de aterrissar do outro lado, sem me machucar seriamente.

A mulher descerrou os olhos e descruzou os braços, gesticulando:

– Claro né, o senhor é velho e usa bengala!

– Não digo hoje, mas, sim, mesmo em minha juventude. E, mais: jamais tentaria isso por dinheiro algum no mundo!

– Não tô entendendo aonde o senhor que chegar.

Joshua olhou nos olhos da mulher:

– Que são em situações como esta, quando julgamos que algo é impossível para nós mesmos, que nos é esclarecedor ver uma pessoa, exatamente como nós, conseguindo fazer.

– Hm, eu não havia pensado nesse aspecto.

– Minha amiga, na maioria dos desafios que enfrentamos e fracassamos em nossas vidas, isso acontece não porque era impossível ter êxito…

A mulher coçou a cabeça:

– Não?

– Não. Mas, sim, porque nossas mentes haviam aceitado e incorporado o fracasso como a única opção possível. Portanto, para mim, é deveras importante ver esse homem pular por entre essas facas, e triunfar.

– Hm, agora entendi! Sabe, eu também não pularia!

Sem demora, Joshua viu Zé Oliveira pegar mais algumas moedinhas de alguns expectadores para, a seguir, concentrar-se. Logo, como num passe de mágica, ele deu três firmes passos e mergulhou por entre as facas, como se elas inexistissem, caindo no outro lado e dando uma cambalhota! Em um segundo, estava em pé, saltitando. E o melhor: sem um arranhão!

A mulher se virou para Joshua e abriu largo sorriso. Mexeu em sua bolsa, pegou uma moeda e bradou:

– Seu Zé, aqui, para o senhor!

"9" comentários em: O círculo de facas

  1. Rafael - 2 de maio de 2014

    Via FACEBOOK
    Heloiza Averbuck
    Excelente texto! Sou fã do peregrino Joshua 🙂

    • Rafael - 2 de maio de 2014

      Valeu minha querida amiga Heloiza!

  2. Rafael - 2 de maio de 2014

    Via FACEBOOK
    Mônica Guimarães Kawakami
    Amei!

  3. Rafael - 2 de maio de 2014

    Via FACEBOOK
    Irene Oliveira
    Adoro suas historias…

    • Rafael - 2 de maio de 2014

      Que bom minha querida Irene, beijo!

  4. Rafael - 2 de maio de 2014

    Via FACEBOOK
    Christine Buchweitz
    \o/ Também não tinha pensado assim.

    • Rafael - 2 de maio de 2014

      Beijão minha querida Christine!

  5. Rafael - 18 de maio de 2012

    Via Facebook
    Rosiane Ceolin
    Na maioria dos desafios que enfrentamos e fracassamos em nossas vidas, isso acontece não por que era impossível ter êxito, e sim por que nossas mentes haviam aceitado e incorporado o fracasso. cd vz melhor amigo.
    Rafael Lovato: Que bom que você gosta, minha querida Rosiane! Bjão!

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