<strong>O peregrino Joshua</strong>

O peregrino Joshua

Joshua é uma coluna com publicação semanal às quintas-feiras no Jornal Diário Regional e aos sábados no Jornal Folha do Mate.

Nela Rafael Lovato trata de temas cotidianos vivenciados por um velho peregrino, no início do século passado.

A série "O peregrino Joshua" está sendo publicada pela Editora Zap Book, e contará com ao menos 7 volumes, e que podem ser comprados no site www.zapbook.com.br

8 junho 2012

A dança

*Imagem recortada de ‘Dança no Moulin de la Galette’, por Auguste Renoir.

 

Já há alguns dias o peregrino Joshua deixara para trás a cidade de Nuvens altas, e naquela ventosa tardinha de outono se encontrava no vilarejo de Campos Bonitos.

Em pé, olhava o entardecer através da janela da sala da pensão, refletindo sobre a vida e os homens. Pesou que, apesar do retiro espiritual ao qual se engajara semanas atrás, permanecia cansado. Talvez, esse abatimento fosse muito mais mental do que físico, e se questionou acerca do quanto ainda possuía dentro de si para passar aos seus semelhantes. O que ainda poderia dizer quando lhe pedissem um conselho, uma palavra amiga.

Imediatamente, o anjo pousado em seu ombro sussurrou que ainda havia muito a ser feito e dito em sua vida terrena. Porém, logo a seguir, um diabinho gritou em sua mente que ele já falara demais, que era melhor ficar quieto…

Joshua ponderava ambos os conselhos, e concluiu que era por causa de impasses como aquele que muitas pessoas não saíam do lugar onde se encontram em suas vidas. Deixavam aquela dicotomia intrínseca, tão própria dos homens, apoderar-se de suas vidas.

Murmurou para si mesmo.

– Mas, eu não sou assim. Não mesmo.

Ainda absorto em pensamentos e observando o vento brincar com as folhas das árvores do quintal da pensão, súbito, ouviu uma voz feminina atrás de si.

– Oi, tudo bem?

Joshua se virou para ver a interlocutora, que era uma jovem moça, a qual prosseguiu.

– O senhor deve ser o peregrino que a minha mãe comentava hoje no almoço. Ela disse que o senhor é iluminado, e que diz coisas que fazem a gente se sentir muito bem. Isso é verdade? O que o senhor tem pra me dizer?

Ao ouvir tal inquirição, e justamente naquele momento de questionamentos pessoais, Joshua pensou que a vida lhe apresentava provações de maneiras inesperadas. Escorou a mão calejada sobre a bengala, de frente para a jovem moça, e ponderou.

– Minha jovem amiga, antes que eu lhe diga algo, quem sabe você me conta o que tem de bom para me ensinar. Assim, trocamos experiências.

A jovem moça coçou a cabeça.

– Ah, eu não sei quase nada! Não sou muito boa com palavras… Acho que não tenho nada pra ensinar ao senhor ou a qualquer outra pessoa.

Joshua deu um passo na direção da jovem moça.

– Ora, não diga isso. E, mais: quem falou que palavras são indispensáveis para ensinarmos algo de bom para alguém?

– Bem… Hoje é sábado, já estou em ritmo de festa. Acho que só o que eu sei fazer é dançar, mas isso nem ajuda muito, né?

– E por que não? Esse é exatamente o espírito dos ensinamentos: possuímos várias maneiras de nos expressarmos. Nossa comunicação corporal através de atitudes, olhares, da própria dança, demonstra muito do que somos.

A jovem moça cruzou os braços.

– O que dançar ensina a alguém? O senhor tá falando sério?

Joshua deu mais um passo na direção dela.

– Minha jovem amiga, se você gosta e sabe dançar, tenha certeza de que isso significa muito, pois há quem não consiga – e ela descruzou os braços. Joshua prosseguiu. – E, mais: nunca tema expressar aquilo que você sente, por mais sem sentido que pareça, pois certamente fará toda a diferença para alguém.

A jovem moça cerrou os olhos.

– Será mesmo?

– Tente.

E ela, imediatamente, cantarolou uma música e se pôs a balançar o corpo no ritmo que cantava. Sem demora, Joshua chamou a atenção da jovem moça para que olhasse sua mãe, a proprietária da pensão, que, ao embalo da música cantarolada, também dançava enquanto limpava o balcão.

Joshua concluiu.

– Minha jovem amiga, com sua dança você ensinou descontração e alegria neste final de tarde para sua mãe. E é por isso que minha verdade lhe digo: todos possuímos ensinamentos a repassar ao próximo, mesmo que seja uma simples dança. Basta sermos autênticos e não temermos nos expressar. Nunca se esqueça disso.

Um comentário em: A dança

  1. Rafael - 10 de junho de 2012

    Via Facebook
    John Williams Bezerra
    Adoro Joshua, paz e reflexão estão garantidas, em momentos ele me lembra Gibran Rafael Lovato..
    Rafael Lovato: Vc me fez um excelente elogio, meu amigo John. Abração!

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