<strong>O peregrino Joshua</strong>

O peregrino Joshua

Joshua é uma coluna com publicação semanal às quintas-feiras no Jornal Diário Regional e aos sábados no Jornal Folha do Mate.

Nela Rafael Lovato trata de temas cotidianos vivenciados por um velho peregrino, no início do século passado.

A série "O peregrino Joshua" está sendo publicada pela Editora Zap Book, e contará com ao menos 7 volumes, e que podem ser comprados no site www.zapbook.com.br

22 junho 2012

Chorando as feridas da sorte

 

 

 

Naquele entardecer de outono, o peregrino Joshua ainda se encontrava no vilarejo de Campos Bonitos. Pensava que era momento de seguir sua peregrinação, mas, olhando a chuva através da janela da sala da pensão, sabia que precisava ser paciente e esperar a bonança. Sim, pois seu corpo já não mais era jovem, e deveria respeitar suas limitações intrínsecas.

Ainda em pé, amparado por sua bengala e observando a intempérie, pensava que era incrível como o cinza das nuvens nublava toda a paisagem, e tudo parecia perder sua cor. Então, um forte aperto atacou seu coração, pois lembrou sua família há muito perdida, e que acontecera justamente em um entardecer chuvoso como aquele. Seu espírito inquietou e sentiu o joelho latejar, e foi quando escutou o discreto bater das asas do anjo pousado sobre seu ombro.

A dor, imediatamente, aliviou. Compreendeu que o caminho do desespero era por demais caliginoso, que deveria recobrar calma e temperança. E, o principal: sorrir pelas boas lembranças que guardava consigo. E foi o que fez.

Súbito, ouviu uma voz masculina perto de si.

– Ando triste, sabia? E, o pior é que nem sei o que posso fazer…

Joshua, ciente de que a vida e o mundo constantemente o testavam, virou-se e viu um homem parado perto da lareira, olhando para si.

– Meu amigo, o que houve?

– Um bom amigo está indo embora, para bem longe. Nossa amizade será perdida…

Joshua deu um passo na direção do homem.

– Não encare dessa maneira. Muito mais triste seria nunca ter desfrutado da companhia nem conhecer seu amigo do que a saudade e anseio pelo reencontro. Nossa vida terrena é povoada de idas e vindas, de altos e baixos, porém, são as boas lembranças o que nos acompanha para todo o sempre.

– Concordo.

– Se fala de um bom amigo, asseguro-lhe que nenhuma distância é forte o suficiente para apagar o bem-querer, o companheirismo.

O homem gesticulava.

– Estou feliz por ele ter conseguido um excelente emprego, claro! Mas, ao mesmo tempo, tô infeliz com a situação. É estranho…

Joshua deu mais um passo na direção do homem.

– E não poderia ser diferente. Por um lado, alegra-se pela conquista do amigo. Por outro, encontra-se triste pela suposta perda da amizade.

– Exatamente isso. O que eu faço?

– Meu amigo, o que eu posso lhe dizer é que viver é assim mesmo. Muitas vezes, precisamos abrir mão de nosso egoísmo intrínseco em prol de um bem maior, de um benefício que suplanta outros.

O homem coçou a cabeça.

– Mas, não é fácil, né?

Joshua se aproximou mais um pouco.

– Enquanto homens imperfeitos que somos, possuímos a tendência de tentarmos manter ao alcance de nossa mão tudo aquilo que nos é caro, querido. Justamente por conta do medo da perda. Daí o ciúme, a possessividade…

– Sei bem do que o senhor fala.

– E é nesses momentos que devemos sublimar nossos sentimentos, abrindo os olhos e ponderando o que é importante para o outro, o que lhe é premente. Se realmente gostamos e nos preocupamos com o próximo, precisamos tentar ver o mundo sob sua ótica. E, no momento em que oferecemos suporte ao invés de brigas, o sentimento floresce com força renovada, e se fortalece.

– Entendi, faz mesmo sentido.

– Meu amigo, nesta nossa vida terrena há elos que são inquebrantáveis justamente por que assim foram construídos pelos indivíduos. Se a sua amizade for sincera, não se entristeça pela partida, mas, alegre-se pelo amigo conquistado e o tempo vivido em conjunto – e Joshua colocou a mão sobre o ombro do homem. – Somos e permanecemos neste mundo através de nossas atitudes, posicionamentos, condutas, amores e amizades. E, é por isso que minha verdade lhe digo: a distância, não raramente, e por mais improvável que pareça, aproxima ainda mais as pessoas que nutrem um sincero bem-querer recíproco. Acredite e cultive essa amizade, e garanto que ela jamais lhe faltará.

"7" comentários em: Chorando as feridas da sorte

  1. Rafael - 7 de junho de 2014

    Via FACEBOOK
    Irene Oliveira
    🙂 amei 🙂

    • Rafael - 7 de junho de 2014

      Beijão Irene!

  2. Rafael - 7 de junho de 2014

    Via FACEBOOK
    Mônica Guimarães Kawakami
    Mais uma preciosidade, meu amigo Rafael Lovato!

    • Rafael - 7 de junho de 2014

      🙂 Beijo!

  3. Rafael - 7 de junho de 2014

    Via FACEBOOK
    Beatriz Maria Niedermeyer
    Amei ler este texto! É bom demais! Parabéns Rafael!

    • Rafael - 7 de junho de 2014

      Beijo Beatriz!

  4. Rafael - 25 de junho de 2012

    Via Facebook
    Alfredo Silva
    Muito Bom Amigo.
    Rafael Lovato: Valeu, meu amigo Alfredo. Abração!

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