<strong>O peregrino Joshua</strong>

O peregrino Joshua

Joshua é uma coluna com publicação semanal às quintas-feiras no Jornal Diário Regional e aos sábados no Jornal Folha do Mate.

Nela Rafael Lovato trata de temas cotidianos vivenciados por um velho peregrino, no início do século passado.

A série "O peregrino Joshua" está sendo publicada pela Editora Zap Book, e contará com ao menos 7 volumes, e que podem ser comprados no site www.zapbook.com.br

29 junho 2012

Castelos de areia

O peregrino Joshua, já há dias, encontrava-se no vilarejo de Recanto dos Mouros, e estendia sua permanência por mais tempo do que de costume. A caminhada para chegar ali, enfrentando o frio e a intempérie, cobrava o preço de seu velho corpo. Intimamente, sabia que era obra da idade pesando em seus ombros e que já não mais possuía o vigor físico e a saúde de outrora.

Naquele frio entardecer cinzento, sentado na varanda da pensão com a bengala entre os joelhos, observava as nuvens e pensou que, no passado, dias como aquele inúmeras vezes lhe pareceram depressivos e tristes. Mas, com o passar do tempo, tornara-se bem-vindo o cinza no céu, o vento errante, a correria das nuvens, o balançar descompassado das folhas das árvores e mesmo o clarão dos relâmpagos, preludiando uma tormenta que se avizinhava. Então, ponderou, para si mesmo, que tudo no mundo era uma questão de ponto de vista, e que tudo na vida dependia do observador e de como ele encarava as percepções de seus sentidos. Em um dia, o trovão assustava; noutro, era mero e tranquilo anúncio de chuva, a qual aguardava, despreocupadamente, abrigado na varanda da pensão.

Enquanto apreciava os primeiros pingos de água tocarem o solo, uma senhora, hóspede da pensão, que se encontrava em pé ao seu lado, comentou.

– A vida é complicada, o senhor não acha?

Joshua olhou para a senhora, pegou a bengala e se levantou.

– Minha amiga, nesta vida terrena, não há dúvida de que passamos por várias provações.

– Pois eu não aguento mais! Mas, o que fazer? Aquele… Paspalho não me ouve! Não ouve ninguém, na verdade. É um infeliz, pessoa má. Só o que faz é prejudicar os outros, disseminar a maldade, a mesquinharia…

– Acalme-se, pois rancor não lhe traz bem algum.

Ela cruzou os braços.

– Fácil falar.

Joshua se amparou na bengala e deu um passo na direção da senhora.

– Todos passamos por frustrações e indignações nesta vida. Mas, quando isso ocorre, o melhor que temos a fazer é nos tranquilizarmos e tentarmos encarar a situação de outra maneira, mais pacífica.

– Impossível! Tá cheio de gente que só se preocupa com elas mesmas, com tentar puxar para trás aqueles que vão à sua frente, e sempre se dão bem! E esse safado é exatamente assim. Fica desmerecendo os outros.

Joshua se aproximou mais um pouco.

– Eu sei que é difícil relevar, ainda mais que são essas pessoas que, não raramente, não escutam os outros, cegas que estão dentro de seus mundinhos. Sempre preocupadas com o sucesso alheio, esquecem-se de suas falhas e equívocos, de sua própria fragilidade e vulnerabilidade.

A senhora descruzou os braços.

– Mas, agora o senhor falou tudo! É isso mesmo!

– Minha amiga, no entanto, é justamente para com essas pessoas que não devemos demonstrar rancor, violência, vingança ou desforra.

A senhora coçou a cabeça.

– Ã? Como não?

Joshua escorou ambas as mãos sobre a bengala.

– Não devemos nos envenenar com tais sentimentos, pois, assim, retrocederemos ao ponto em que estão, e é isso o que querem. Precisamos nos manter firmes no local onde nos encontramos, e estendermos a mão para fazer com que aqueles que estão atrasados consigam nos alcançar. Jamais o contrário.

– Agora entendi o que o senhor quer dizer.

– Essa vida, não raramente, é cruel. E, nosso mundo, dia a mais, dia a menos, sempre cobra o preço daqueles que não ouvem seus semelhantes. Pois, a maldade ecoa, e, indubitavelmente, um dia, os ecos se tornam de tal forma ensurdecedores que, então, não mais conseguem ignorá-los.

A senhora meneava a cabeça.

– O senhor é muito inteligente.

– Minha amiga, o caminho da evolução dos homens é outro: é de mãos dadas, é pela amizade, pelo respeito, companheirismo, amor. Sentados em tronos de falso mármore, alguns maus, por fugaz tempo, permanecem como reis de castelos de areia. Porém, o verdadeiro reino da paz e tranquilidade de espírito, do dormir tranquilamente, é galgado com outros passos: com se escutar ao próximo e perdoar – e Joshua olhou nos olhos da senhora. – E é por isso que minha verdade lhe digo: não se envenene de rancor ou ódio; acalme-se. E, principalmente, não retroceda sua evolução espiritual, mas, estenda a mão a quem lhe perturba, para que ele saia das trevas e veja a luz em que você vive.

"10" comentários em: Castelos de areia

  1. Rafael - 13 de junho de 2014

    Via FACEBOOK
    Irene Oliveira
    🙂 amei 🙂

  2. Rafael - 13 de junho de 2014

    Via FACEBOOK
    Valéria Bolze
    Adorei,texto ótimo.

    • Rafael - 13 de junho de 2014

      Que bom Valéria, beijão!

  3. Rafael - 13 de junho de 2014

    Via FACEBOOK
    Norton Campos
    Showwwwwwwwww,super abracooooooooooooooooooooooooooooo

  4. Rafael - 13 de junho de 2014

    Via FACEBOOK
    Dalci Bassanelli
    Lindo

    • Rafael - 13 de junho de 2014

      Beijão minha querida Dalci!

  5. Rafael - 13 de junho de 2014

    Via FACEBOOK
    Elaci Bencke
    Castelos de areia……adoro.

    • Rafael - 13 de junho de 2014

      Beijão minha querida Elaci!

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