<strong>O peregrino Joshua</strong>

O peregrino Joshua

Joshua é uma coluna com publicação semanal às quintas-feiras no Jornal Diário Regional e aos sábados no Jornal Folha do Mate.

Nela Rafael Lovato trata de temas cotidianos vivenciados por um velho peregrino, no início do século passado.

A série "O peregrino Joshua" está sendo publicada pela Editora Zap Book, e contará com ao menos 7 volumes, e que podem ser comprados no site www.zapbook.com.br

12 julho 2012

A verdadeira evolução

O peregrino Joshua permanecia no vilarejo de Recanto dos Mouros. Naquele início de tarde, encontrava-se sentado em um dos bancos da pracinha central, refletindo sobre a vida e os homens. Súbito, trazendo-o de volta ao tempo presente, ouviu uma voz masculina perto de si.

– O senhor que é o peregrino de quem tanto falam?

Joshua olhou para o homem enquanto ajeitava a bengala entre os joelhos.

– Possivelmente.

O homem sorriu, sentando no banco.

– Ótimo! Adoro uma boa conversa. O senhor se importa?

– De modo algum.

– Hoje, cedo, eu e alguns amigos debatíamos que não há nada mais seguro e importante do que o conhecimento científico – e o homem pausou. Como Joshua nada falou, ele continuou. – Um dia, o homem o dominará a tal ponto que não mais precisará de Deus. E, é por isso que devemos incentivar cada vez mais a busca pela ciência, pois, ela traz evolução e tranquilidade a todos nós. O que o senhor pensa sobre isso?

Joshua se virou para o homem.

– Meu amigo, penso que devemos ter cuidado com o que procuramos, pois podemos encontrar.

– Mas, essa é a ideia! Entender as coisas. O senhor não concorda?

– Concordo que o conhecimento científico é bem-vindo. Porém, em minha longa vivência neste mundo, percebi que o conhecimento científico-cético traz, em sua algibeira, muitas dúvidas e sofrimentos. E é por isso que, há milênios, pensadores anunciam que é verdadeira dádiva desconhecermos muito do que acontece a nossa volta.

O homem colocou ambas as mãos na cabeça.

– Mas não diga isso! A ciência é importantíssima: cura doenças, traz comodidades, explica o funcionamento do mundo…

– Não me entenda mal: de modo algum combato a ciência. Somente defendo que, enquanto homens, antes de qualquer outra questão, devemos buscar conhecer a si próprios, almejando o conhecimento de si mesmos. Esse sim, e estou convencido disso, é o saber que realmente nos entrega felicidade: o conhecimento ontológico, que nos conduz a encontrarmos nosso lugar na vida e no mundo.

– Mas, o senhor é um filósofo!

Joshua se ajeitou no banco.

– Eu não passo de um velho peregrino que possui consciência de que o que nos é desconhecido angustia nossa mente. Mas, também aprendi que o saber, o ter consciência da própria insignificância, sem conhecer nosso papel dentro do mundo, e nada podendo fazer para mudar esta condição, angustia o nosso espírito. O que é muito mais doloroso.

– Estou entendendo o seu ponto de vista. Mas, o senhor há de convir que é impossível não perseguir o conhecimento científico… Eu prefiro saber de tudo.

Joshua olhou nos olhos do homem.

– E esse é um direito seu, não há dúvida. Mas, deixe-me colocar a questão em outra perspectiva. Do que adiantaria o amigo possuir a consciência de ser um belo e vigoroso pássaro, alado com as mais poderosas asas de que se tem notícia, capazes de alçarem voos intergalácticos, se continuaria preso dentro da atmosfera terrestre, que é a sua gaiola, agrilhoado, justamente, à sua condição intrínseca de pássaro?

– Agora o senhor deu um nó na minha cabeça.

– Não seria muito melhor possuir pequenas asinhas, capazes de proporcionar baixos e curtos voos, ocasionando que jamais descobrisse as dimensões da gaiola? Provavelmente concluiria, então, que, se caso ela existisse, o que não seria uma certeza e sim mera conjectura, não faria a menor diferença e não teria qualquer importância. Pois, saberia exatamente quem você é e que seu papel no mundo é, justamente, alçar pequenos voos…

O homem sorriu.

– Pois não sou cometa, e sim pássaro! Agora eu entendi!

Joshua olhou nos olhos do homem:

– Exato. No exemplo que lhe dei, a sapiência e consciência da existência da gaiola são consequências do desconhecimento de nosso verdadeiro lugar na vida, de nossa função no mundo. São a extrapolação existencial do próprio cerne do pássaro, pois somente sonha como Ícaro aquele que desconhece suas limitações intrínsecas. E, como ele, fatalmente pagará um alto preço – e Joshua colocou a mão no ombro do homem. – Meu amigo, é por isso que minha verdade lhe digo: procure conhecer quem você realmente é e qual o seu lugar neste mundo. Esse é o verdadeiro caminho para a evolução dos homens. E, em especial, do seu próprio espírito.

"15" comentários em: A verdadeira evolução

  1. Rafael - 18 de julho de 2014

    Via FACEBOOK
    Valéria Bolze
    Como sempre ótimo texto.Não necessita comentários.

    • Rafael - 18 de julho de 2014

      Beijos Valéria!

  2. Rafael - 18 de julho de 2014

    Via FACEBOOK
    Heloiza Averbuck
    Belo texto! 🙂

    • Rafael - 18 de julho de 2014

      Beijão minha querida Heloiza

  3. Rafael - 18 de julho de 2014

    Via FACEBOOK
    Bagual Klein
    Perfeito !

    • Rafael - 18 de julho de 2014

      Abraço Bagual!

  4. Rafael - 18 de julho de 2014

    Via FACEBOOK
    Valeria Martins
    Cury muito bom!

    • Rafael - 18 de julho de 2014

      beijo Valeria!

  5. Rafael - 18 de julho de 2014

    Via FACEBOOK
    Josiane Dumke
    Sem palavras,perfeito!!!

    • Rafael - 18 de julho de 2014

      Beijos Josiane!

  6. Rafael - 18 de julho de 2014

    Via FACEBOOK
    Monica Yanobi
    Sucesso !

    • Rafael - 18 de julho de 2014

      Valeu Monica!

  7. Rafael - 18 de julho de 2014

    Via FACEBOOK
    Delci Mantelli
    LINDO,AGORA SO PRECISO O SEU AUTOGRAFO PARA QUE O LIVRO SEJE MEU….

  8. Rafael - 13 de julho de 2012

    Via Facebook
    Jacqueline K Audrey
    Fui lá li o restante do texto… Gostaria de conversar com Joshua sobre o assunto se o encontrasse, rs… Acho que o conhecimento científico é um dos instrumentos para o autoconhecimento e que a analogia do pássaro de grandes asas e o de pequenas asas dá a impressão de que não saber que se está preso em uma gaiola é melhor do que saber… Enfim, dá para filosofar um bocado…

    Rafael Lovato: Minha querida Jacqueline K Audrey, essa coluna foi inspirada em meu romance “A lenda de Jael”, no qual foilosofo sobre o tema rsrsrs, e que vc pode ler os primeiro capítulos aqui no site. Bjão!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *