<strong>O peregrino Joshua</strong>

O peregrino Joshua

Joshua é uma coluna com publicação semanal às quintas-feiras no Jornal Diário Regional e aos sábados no Jornal Folha do Mate.

Nela Rafael Lovato trata de temas cotidianos vivenciados por um velho peregrino, no início do século passado.

A série "O peregrino Joshua" está sendo publicada pela Editora Zap Book, e contará com ao menos 7 volumes, e que podem ser comprados no site www.zapbook.com.br

3 agosto 2012

A adaptação e o que somos

 

Naquela tarde, o peregrino Joshua se encontrava sentado à mesa da vendinha de secos e molhados no vilarejo de Ventos Uivantes. Observava o movimento das pessoas cuidando de seus afazeres, e concluiu que os dias nunca eram iguais quando se estava peregrinando. Sim, pois, a cada vilarejo que chegava, em cada pensão que pernoitava, sentia que adentrava um mundo novo. Os homens, aparentemente, eram os mesmos: olhos, bocas, sorrisos… Crianças choravam; velhos andavam devagar e namorados ardiam em paixões. Mas, intimamente, sabia que as comunidades guardavam peculiaridades e diferenças, muitas vezes quase imperceptíveis, pois era da natureza dos homens  adaptarem-se ao ambiente em que se encontravam engajados.

Ao seu lado, na vendinha, avistou um homem que murmurava e meneava a cabeça, e que olhou para Joshua.

– Não quero mais ficar aqui! Quero ir para minha casa. Odeio tudo isso…

Joshua se levantou e se amparou na bengala.

– Meu amigo, acalme-se. Após todos esses anos de minhas andanças por este mundo, descobri uma verdade: o desespero nunca é boa companhia.

O homem encarou Joshua, dando de ombros.

– E o que eu posso fazer? O senhor é um peregrino, é diferente…

Joshua escorou ambas as mãos sobre a bengala.

– Mas, sou homem. Desde o dia em que iniciei minha peregrinação, tantos anos atrás, jamais retornei para minha terra natal. No entanto, confesso-lhe, não há um dia sequer em que lembranças não a trazem até a mim.

– Sei muito bem como é.

– E, não raramente, os sentimentos que tais lembranças despertam são-me tão caros, que a única coisa na qual penso é em retornar. Todos sentimos falta de nossas origens, e isso ocorre porque cada comunidade é única e peculiar em vários aspectos. Tanto na maneira do relacionamento entre as pessoas, na afetuosidade, nos posicionamentos, quanto na liberdade de ação, na sinceridade…

O homem coçou a cabeça.

– O senhor está me deixando ainda com mais vontade de ir embora!

Joshua deu um passo em sua direção.

– No entanto, é justamente nos momentos de maior saudosismo que reafirmo a mim que somos dotados de uma grande capacidade de adaptação. E, essa é, justamente, uma das razões de conseguirmos povoar este mundo imenso. E, não falo somente em adaptação física, mas, também, psíquica.

– Mas, e o que o senhor quer dizer com tudo isso?

– Que, quando o saudosismo de sua aldeia lhe abater, pense que há razão para você ser o que é. Que você possui objetivos traçados em seu viver, e que se encontra longe de casa por bons motivos.

– Ainda assim, eu me sinto como um peixe fora da água…

Joshua olhou nos olhos do homem.

– Meu amigo, explore a capacidade de adaptação de que dispõe. Utilize-a para alcançar seus objetivos e, principalmente, encontrar harmonia em seus dias.

– Como?

– A cada cidadela em que chegar, lembre que ali é o lar de muitos dos seus semelhantes. E, mesmo que seja um dia em que a saudade lhe abraça, reforce, para si mesmo, o motivo pelo qual você se encontra ali. Abaixe as defesas, esteja aberto ao acolhimento do local aonde chegou – e Joshua colocou a mão no ombro do homem. – E é por isso que minha verdade lhe digo: se agir assim, por mais diferente que tudo possa lhe parecer, e na garupa trazendo um sentimento de deslocamento, você não estará sozinho. Pois, todos os homens são iguais a você, com os mesmos sorrisos, desilusões, amores, desejos, e, principalmente: ansiosos por encontrarem um novo amigo.

"11" comentários em: A adaptação e o que somos

  1. Rafael - 22 de agosto de 2014

    Via FACEBOOK
    Eliene Lima
    Amei o texto Rafael Lovato, beijos para você!

  2. Rafael - 22 de agosto de 2014

    Via FACEBOOK
    Dalci Bassanelli
    Demais.

    • Rafael - 22 de agosto de 2014

      Beijos Dalci!

  3. Rafael - 22 de agosto de 2014

    Via FACEBOOK
    Heloiza Averbuck
    Super texto Rafael! 🙂

    • Rafael - 22 de agosto de 2014

      Beijos minha querida Heloiza!

  4. Rafael - 22 de agosto de 2014

    Via FACEBOOK
    Sonia Maria da Silva
    Verdade as lenbramças as vezes doi muito.

    • Rafael - 22 de agosto de 2014

      Beijos Sonia!

  5. Rafael - 22 de agosto de 2014

    Via FACEBOOK
    Gilney Mylius
    O desespero e a raiva não são bons conselheiros… Bom ” vernissage ” hoje na Saraiva! Abç

    • Rafael - 22 de agosto de 2014

      Abração Gilney!

  6. Rafael - 5 de agosto de 2012

    Via Facebook
    Maria Auxiliadora Silva Brito
    Poxa, Rafael, de alguma maneira, o seu texto, lembrou-me da Canção do Exilío, de Gonçalves Dias. Mesmo, não cantando as belezas da sua Terra Natal… Mas alguma conotação, me transportou para o poema…
    Rafael: que bom, Maria! Fico feliz pela associação! Bjos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *