<strong>O peregrino Joshua</strong>

O peregrino Joshua

Joshua é uma coluna com publicação semanal às quintas-feiras no Jornal Diário Regional e aos sábados no Jornal Folha do Mate.

Nela Rafael Lovato trata de temas cotidianos vivenciados por um velho peregrino, no início do século passado.

A série "O peregrino Joshua" está sendo publicada pela Editora Zap Book, e contará com ao menos 7 volumes, e que podem ser comprados no site www.zapbook.com.br

10 agosto 2012

Arte e reconhecimento

 

*Imagem recortada de “Water serpents: II”, por Gustav Klimt.

 

O peregrino Joshua ainda permanecia no vilarejo de Ventos Uivantes, aguardando que seu tornozelo sarasse para poder seguir sua peregrinação.

Naquele final de tarde, encontrava-se sentado na varanda da pensão, observando a dança da carrancuda massa de nuvens cinzentas preludiando a chuva. Ponderava, consigo mesmo, que o cinza parecia contaminar o mundo, roubando a vivacidade das cores, tornando o passar do tempo muito vagaroso. Mas, quem sabe, tal impressão não era culpa do cinza e sim poderia ser ele mesmo que se sentia assim, justo por se encontrar machucado, impossibilitado de prosseguir com seus afazeres.

Murmurou para si mesmo.

– Tudo a seu tempo…

Naquele momento, uma das hóspedes da pensão subiu, com passos firmes, os degraus da varanda, falando enquanto gesticulava.

– Ingratos, todos eles. Todas as pessoas!

Joshua ajeitou a bengala entre os joelhos.

– Minha amiga, acalme-se.

– Acalmar, como? Dedico minha vida à arte, e ninguém reconhece! Ninguém prestigia! Quando se deparam com um de meus trabalhos, não cansam de elogiar. Mas, quando deveriam demonstrar sua gratidão pelo que faço, ninguém permanece.

– Entendo.

A mulher continuava gesticulando.

– Mas, já sei: vou privá-los de minha arte. Assim, não vou mais me frustrar com tamanha ingratidão…

Joshua pegou a bengala e se levantou.

– Mas, e, nesse caso, será que sua frustração, realmente, passará?

A mulher cruzou os braços.

– Claro! Por que não passaria?

Joshua deu um passo na direção dela.

– Porque, talvez, o problema não resida nos admiradores de sua arte.

– Não?

– Não, mas, quem sabe, no motivo pelo qual você se dedica a ela.

A mulher colocou ambas as mãos na cintura.

– O que o senhor quer dizer com isso?

Joshua escorou as mãos sobre a bengala.

– O que pondero, é: se a amiga busca, através da arte, somente o reconhecimento e gratidão alheia, envolveu-se em inglória batalha, da qual jamais sairá vitoriosa.

– Por quê?

– Neste nosso mundo, muitas pessoas são egoístas, outras invejosas, algumas indiferentes e, poucas, sinceras. Porém, todas apreciam a beleza, a sinceridade, o amor, a amizade. O simples fato de não lhe reconhecerem da maneira que julga adequada não significa que seu trabalho não agrade.

A mulher relaxou os braços.

– Não havia pensado dessa maneira.

– Para mim, o escopo da arte, escrita, pintada, falada, é a arte por si mesma. É entregar beleza ao mundo, semear alegria e entendimentos, mostrar aos homens o amor e dedicação do artista por aquilo que ele faz.

A mulher balançava a cabeça.

– Entendi o que o senhor quer dizer.

– Minha amiga, não diminua a arte que você traz ao mundo mensurando-a e comparando-a com o que os outros dizem ou deixam de dizer dela para você. Mensure sua importância pelo significado que ela possui para você mesma em relação ao mundo…

– Mas o senhor há de convir que é difícil prosseguir trazendo beleza aos olhos de ingratos. Talvez, o melhor seria guarda-la somente para mim, que já a encontrei.

Joshua olhou nos olhos da mulher.

– Se assim o fizesse, sua arte perderia muito do brilho, posto que solitária, e sua beleza se perderia como lágrimas na chuva. E, no mais, por que julga que todos são ingratos? Quantas vidas você tocou e modificou para melhor, sem nem mesmo saber? E, quanta alegria e conforto sua arte leva a corações de pessoas que nem mesmo conhece?

– Mas, ninguém fala nada!

– Minha amiga, silêncio não significa desaprovação – e Joshua colocou a mão no ombro da mulher. – E é por isso que minha verdade lhe digo: não sufoque sua arte se preocupando com a opinião dos outros. Compartilhe-a, indiscriminadamente. Um dia, garanto-lhe, verá que cada peça artística que você disseminou, por onde passou, criou um lindo e brilhante caminho para que outros sigam e conheçam as belezas que você trouxe a este mundo.

"12" comentários em: Arte e reconhecimento

  1. Rafael - 7 de agosto de 2015

    Carmen Dos Santos
    Verdade. As respostas exteriores dependem muito de como pensamos.

    • Rafael - 7 de agosto de 2015

      Beijos Carmen

  2. Rafael - 29 de agosto de 2014

    Via FACEBOOK
    Eliene Lima
    E é por isso que minha verdade lhe digo: não sufoque sua arte se preocupando com a opinião dos outros.

    • Rafael - 29 de agosto de 2014

      Beijos Eliene!

  3. Rafael - 29 de agosto de 2014

    Via FACEBOOK
    Elaci Bencke 🙂

  4. Rafael - 16 de agosto de 2012

    Via FACEBOOK
    Verluci Almeida
    ♥ Quantas vidas você tocou e modificou para melhor, sem nem mesmo saber? E quanta alegria e conforto leva a corações de pessoas que nem mesmo conhece?
    Rafael: 🙂

  5. Rafael - 12 de agosto de 2012

    Via FACEBOOK
    Antonio Carlos Gomes
    Muito bom Rafael. abçs.
    Rafael: Valeu, meu amigo Antonio. Abração.

  6. Rafael - 12 de agosto de 2012

    Via FACEBOOK
    Helena Trentin ‎
    Rafael Lovato, adorei e resolvi traduzir para ti um pedacinho em italiano, veja o que acha:
    Tratto da “Arte e riconoscimento” di R. Lovato
    Se, tramite essa, cercasi solo il riconoscimento e la gratitudine altrui, l’amico intraprese una ingloriosa battaglia, dalla quale non uscirà vittorioso. Nel nostro mondo molte persone sono egoiste, altre invidiose, alcune indifferenti e, poche, sincere. Però, tutte apprezzano la bellezza, la sincerità, l’amore, l’amicizia. Il semplice fatto che non le riconoscano nel modo in cui crede adeguato, non significa che il suo lavoro non raggiunga appieno i suoi obbiettivi. Ed è per questo che le dico: lo scopo dell’arte, scritta, dipinta, parlata, è l’arte per se stessa; è dare bellezza al mondo; è piantare allegria e comprensioni; è presentare al mondo l’amore e dedizione dell’artista per quello che fa.”
    Rafael: Achei muito bacana, minha querida Helena. Eis meu primeiro trabalho traduzido para outra língua! Abração.

  7. John - 11 de agosto de 2012

    a imagem do Gustav Klimt realmente combinou com o texto do Joshua, a arte precisa bem mais que apreciadores, é preciso amor e idolatria ao mundo artístico…

    • Rafael - 11 de agosto de 2012

      Penso exatamente isso, meu amigo John. Abração.

  8. Rafael - 10 de agosto de 2012

    Via FACEBOOK
    Rosiane Ceolin10 de Agosto de 2012 10:51
    Arte é a extensão da alma por isto ninguém reconhece, excelente trabalho, bom dia Lovato.
    Rafael: É exatamente isso, minha querida Rosiane. Bjão!

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