<strong>O peregrino Joshua</strong>

O peregrino Joshua

Joshua é uma coluna com publicação semanal às quintas-feiras no Jornal Diário Regional e aos sábados no Jornal Folha do Mate.

Nela Rafael Lovato trata de temas cotidianos vivenciados por um velho peregrino, no início do século passado.

A série "O peregrino Joshua" está sendo publicada pela Editora Zap Book, e contará com ao menos 7 volumes, e que podem ser comprados no site www.zapbook.com.br

17 agosto 2012

Pais e o coração

Desde que o peregrino Joshua deixara para trás o Rincão dos Silveira, onde permanecera mais tempo do que o usual, em virtude do tornozelo machucado, não via a hora de chegar ao próximo povoado. Sim, pois, o passar dos anos cobrava o preço, e seu velho corpo clamava por descanso. Pensou que assim era a vida, e sabia que jamais encontraria vitória se digladiasse contra sua própria natureza.

Finalmente, chegou ao povoado de Menina Bonita trazendo o entardecer em seu alforje, e um ocaso vermelho anunciava o bom tempo do dia vindouro. Buscou uma pousada, e, após o jantar, sentou-se na varanda, pois sentia que se encontrava tão cansado que não conseguiria dormir imediatamente.

Refletia, observando as estrelas, quando um jovem saído do interior da pensão falou.

– Eu odeio o meu pai! Ele é um monstro. Como ele pode ser tão… Tão… – e o jovem se sentou no chão, levando as duas mãos à cabeça. – Não consigo entender por que ele age assim!

Joshua ajeitou a bengala entre os joelhos.

– Meu jovem amigo, acalme-se. Não possuo dúvidas de que seu pai lhe ama tanto quanto você o ama.

O rapaz meneava a cabeça.

– Nah! Nem é isso…

– Nestas minhas andanças mundo afora, ouvi muitas histórias de pessoas que, quando jovens, passaram pelas mesmas dificuldades e dúvidas que você experimenta. Não conseguiam compreender o porquê do silêncio de seus pais em certas horas, ou o motivo das repreensões. Apontavam que com uns, o pai era complacente, porém, com eles, severo. Que ao vizinho ele estendia tolerância a certas condutas, a eles, sempre corrigia. E, mesmo assim, por que o amavam? Por que precisavam tanto de sua atenção e aprovação?

O rapaz olhou para Joshua.

– Exato! Vou fugir. Nunca mais ele me verá na vida. Chega!

Joshua se inclinou na cadeira, na direção do rapaz.

– Parece o melhor, não é mesmo? Sabe, essas pessoas que me contaram histórias também me disseram que, por muito tempo, odiaram seus pais. Mas, eu me pergunto: como ser um pai e amar seu filho mais do que a própria vida em si, e ver a decrepitude de certos homens, e não se preocupar? Ou, não tentar resguardá-lo da maldade alheia e da tristeza?

O rapaz cruzou os braços.

– O senhor não sabe o que fala…

– A vida é cruel, e ser adulto é, dentre outras questões, compreender e lidar exatamente com isso. Quando jovens, normalmente não nos preocupamos com a maldade intrínseca dos homens, nem com a crueza desse mundo. Em muitos aspectos, encontramo-nos desprotegidos. E, nosso pai sabe disso. Ainda assim, quantas vezes o silêncio de seu pai o machucou, pois entendeu como afronta ou desdém, não é mesmo? – O jovem balançava a cabeça, concordando. – No entanto, o quão pior teria sido ouvir palavras duras e mesmo agressões verbais? Quantas vezes um ‘não’ lhe machucou, mas quão pior teria sido ele permitir que você se expusesse ao perigo? Quantas vezes você chorou por conta de repreensões, mas o quão pior seria, ainda hoje, você estar sendo repreendido pela vida?

O rapaz descruzou os braços.

– Entendi o que o senhor quer dizer.

Joshua olhou para o jovem.

– No final, muito mais do que os filhos, os pais necessitam de compreensão. Eles viveram noutra geração, e certamente compreendem o mundo de modo diferente de você, em vários aspectos. Mas, isso não significa desamor. Pois, quem o acudia quando chorava a noite? Quem espantava os fantasmas, olhava dentro do armário e embaixo da cama, procurando os monstros que você via? Quem lhe orienta sobre o melhor e correto de agir? Quem perdia noites de sono quando você estava doente, ou mesmo quando sai à noite para festejar? – E Joshua olhou nos olhos do jovem. – E é por isso que lhe digo: acredite no amor de seu pai.

Lágrimas encheram os olhos do rapaz.

– E quem disse que isso é amor?

Joshua concluiu.

– O seu próprio coração.

* Para meu pai.

 

 

"17" comentários em: Pais e o coração

  1. Rafael - 27 de setembro de 2014

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    Eliene Lima
    E quem disse que isso é amor? O seu próprio coração. Impossível enjoar dos seus textos, eles são perfeitos!

    • Rafael - 27 de setembro de 2014

      Que bom Eliene, beijão!

  2. Rafael - 26 de setembro de 2014

    Via FACEBOOK
    Norton Campos
    Um show,como sempre,queridão Rafael Lovato,abracão e ótimo findi pra vocêsssssssssssssssssss

    • Rafael - 26 de setembro de 2014

      Abração Norton

  3. Rafael - 26 de setembro de 2014

    Via FACEBOOK
    Elisane De Oliveira Hansel
    Texto bom para refletir.

  4. Rafael - 26 de setembro de 2014

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    Cristiano Augusto Schmidt
    Parabéns, essa é para o meu Pai também, abraços.

    • Rafael - 26 de setembro de 2014

      Abração meu bom amigo Cristiano

  5. Rafael - 26 de setembro de 2014

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    Bagual Klein
    Irrepreensivelmente verdadeiro !

    • Rafael - 26 de setembro de 2014

      Grande abraço Bagual

  6. Rafael - 26 de setembro de 2014

    Via FACEBOOK
    Sonia Maria da Silva
    Verdade meus filhos sente isto com o pai por q ele nunca o procurou mais eu digo q no fundo ele ama eles.

  7. Rafael - 26 de setembro de 2014

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    Heloiza Averbuck
    Que lindo!

    • Rafael - 26 de setembro de 2014

      Beijos minha querida Heloiza!

  8. Rafael - 26 de setembro de 2014

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    Luis Carlos Nakayama
    Lindo texto. Parabéns e um grande abraço.

    • Rafael - 26 de setembro de 2014

      Abraço Luis!

  9. Rafael - 17 de agosto de 2012

    Via FACEBOOK
    Elis De C. Pfingstag
    Muito legal Rafa!!!
    Rafael: Bjão, minha querida!

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