<strong>Espaço dos leitores</strong>

Espaço dos leitores

Esse é o cantinho do leitor, para enviar e publicar suas histórias.

A publicação restringe-se a contos e poesias. Basta fazer o upload na janela abaixo. O texto será remetido ao moderador do site, para verificação de adequação aos temas do site.

Frankenstein folclórico – por Lucas Maziero

  

*Atenção: texto adulto, terror, sensualismo.

            A Cuca, essa velha bruxa crocodiliana, perambulava irritada entre as escuras árvores da floresta amazônica, confabulando consigo mesma, ora praguejando, ora estacando em longas pausas, para logo recomeçar com este peripatetismo mal-humorado. Algo a incomodava enormemente, e os seres ao seu redor sabiam muito bem que, quando a Cuca ficava assim, coisas malévolas estavam por vir. Era uma noite sombria.

            Entrementes chegavam mais seres que, a despeito de sua curiosidade, mantinham uma distância cautelosa da velha bruxa. Todos a olhavam desconfiados, sem saber o porquê daquele vai-e-vem. Então, transcorrido o que pareceu ser um longo tempo, a Cuca, chegando a uma decisão, parou de súbito, pôs o dedinho em sua bocarra – um gesto totalmente grotesco –, exibiu um trejeito que passou por um sorriso e, soltando um áspero grito seguido de uma gargalhada crudelíssima, disse:

            — Venham, meus queridos, venham, ora, não se acanhem, sim, venham, chamem todos, tenho uma surpresinha pra vocês.

            Todavia será preciso, antes de revelar qual era a surpresinha, retroceder um pouco na história para entender o que a Cuca, juntamente com aqueles seres, estavam tramando tão misteriosamente.

 

            Havia ou ainda há, não se sabe com precisão, uma certa região perdida nas profundezas da floresta amazônica em que se localizava a tribo dos Nana-Nê-Nê, um povo indígena pacífico e medroso que, por cúmulo do azar, habitava a mesma região em que os chamados seres folclóricos viviam – também não se sabe se ainda vivem, provavelmente sim, em todo caso – em abundância, como nunca se viu em outros locais da imensa Amazônia.

            Os Nana-Nê-Nê, cansados dos ataques sangrentos e malvados que os folclóricos faziam à tribo, de um povo pacífico pouco a pouco se tornaram indignados e então corajosos, devido ao surgimento de um guerreiro destemido que lutava em defesa de seus iguais, e seu nome era Kula. Kula, com atos ousados e sua grande bunda de fora, enfrentava os folclóricos e lhes mostrava que era um osso duro de roer. No entanto as contendas entre ambas as partes ao invés de arrefecerem – partindo do pressuposto que, se os Nana-Nê-Nê revidassem, os folclóricos lhes deixariam em paz –, tornaram-se ainda mais fervorosas.

            Temendo que algo de muito pior viesse a acontecer, e cansado de tantas disputas e sofrimento de seu povo, o pajé, numa noite inspiradora reuniu a todos da tribo em volta da grande fogueira e, com inúmeras momices e cânticos que ninguém entendia, convocou todos os espíritos – os dos animais, das árvores e dos mortos – e iniciou um poderoso ritual de proteção a aldeia, que consistiu em barrar magicamente qualquer tentativa de invasão por parte dos folclóricos. E assim os Nana-Nê-Nê passaram a viver em paz, levando suas vidas tranquilas, com suas mulheres raspando as mandiocas e seus pimpolhos correndo nus e despreocupados pela aldeia. O perigo era quando precisavam sair dos limites da tribo, mas para isso contavam com a diligência e a coragem de Kula.

            Quanto aos folclóricos, bem, eles não gostaram nem um pouco da grande ideia do pajé. Para eles acabaram-se seus melhores divertimentos, ou seja, atormentar e assustar o povo Nana-Nê-Nê. E foi pensando num modo de voltar a esses dias gloriosos de divertimento que a Cuca convocou seus sectários para lhes mostrar que também era capaz de ter boas e grandes ideias. Voltemos, portanto, à velha bruxa.

 

            Os folclóricos estavam todos ao redor da Cuca, aguardando silenciosos as próximas palavras que ela lhes diria.

            — Tenho uma surpresinha pra vocês, tenho sim — continuou ela, salivante e cheia de si. — Aqueles bundas-de-fora não aprontaram uma baita, uma senhora sacanagem para conosco? Pois muito bem, agora vamos revidar pra valer, e vocês, meus queridos, vão adorar.

            Logo o quê, inesperadamente um animal – e não se sabe bem o porquê –, surgido de não se sabe onde, passou veloz e sinistramente por eles, desaparecendo lesto como havia surgido. Porém ninguém pareceu notá-lo, tampouco se assustar, e este animal não aparece mais em toda a história.

Os folclóricos romperam em vivas ao que a Cuca estava lhes dizendo, mas logo se calaram, pois ela fez menção de prosseguir com seu discurso:

— Entreouvi a cantiga mágica do velho pajé que dizia:

Na nossa aldeia

Não mais poderá

Penetrar por inteiro

Criatura alguma

Daquele povo arteiro.

— Este é o tal encantamento que nos impede, mas vejam só como sou muito mais esperta que eles. Se não podemos penetrar por inteiro, que seja, então, por partes! — neste ponto houve grande comoção entre os folclóricos, que se entreolharam sem terem compreendido metade do que se dizia, embora a malícia nas palavras da Cuca lhes tivesse causado um sorrisinho que denotava “aí tem coisa das grandes!”.

O que a velha bruxa crocodiliana quis dizer com penetrar por partes resume perfeitamente o que ela pretendia fazer. Cada um dos folclóricos cederia, ao invés de dizer que lhes seria tomado, um membro de seu corpo para construírem o que viria a ser um novo Frankenstein. É preciso comentar que isso de ceder um membro de seu corpo não caiu bem para os folclóricos, e de curiosos e exaltados passaram a ficar temerosos. Alguns quiseram se mandar dali, e a Cuca não deixou de notar isso. Ela ficou furiosa com essa ingrata debandada, berrou e censurou, lançando olhares cruentos que, se não podiam matar, ao menos dissipou qualquer ousadia por parte dos rebeldes. Os fujões portanto voltaram, e não tentaram mais nenhuma gracinha.

Para dar início à criação do Frankenstein, a Cuca mandou que cortassem – desde então cortar passou a ser uma palavra sensível entre os folclóricos – um bom pedaço de madeira, um toco que fosse sólido e grosso para servir de matriz e tronco para o corpo do monstro. Feito isso, era o momento de prosseguir, e a Cuca procurou por um par de braços fortes e com garras assustadoras, encontrando-os na figura do Lobisomem. A criatura, sendo feroz e destemida, se aproximou e, por meio de feitiços, a bruxa lhe arrancou os brações e os imputou no toco de madeira. Foi um espetáculo que até a eles, que eram malvados, causou espanto.

Levando o olhar novamente para a turba à procura de uma cabeça para o seu monstro, os olhos horrendos da Cuca caíram ao acaso sobre a Mula-sem-cabeça, causando a esta um grande constrangimento, e só não ficou pior porque o matreiro Curupira se prontificou a ceder a sua, por se considerar o mais inteligente dentre eles, e não pelo fato de ser um anão e não ter nada melhor a oferecer. Ninguém sublinhou este fato.

Em seguida, qual não foi a surpresa do Saci, que, preguiçoso, assistindo ao espetáculo tranquilamente, com a certeza de que nada lhe seria solicitado no tocante a partes corpóreas, tendo em vista sua triste condição de perneta, quando a Cuca, maliciosa e cruel, lhe quis arrancar sua única perna. Ele tentou safar-se esperneando, mas a bruxa o imobilizou com um feitiço, terminando por deixá-lo ali, incapaz de saltitar, matreiro e moleque, como outrora.

Quase pronto. Então a medonha Cuca, assim como o pajé, iniciou um ritual e congregou todos os espíritos, estes maléficos, para dar vida ao seu monstro grotesco. Cabeça de Curupira, tronco de árvore, braços de Lobisomem e uma única e singular perna de Saci forjaram o extraordinário Frankenstein folclórico, vindo ao mundo para ser um assassino cruento de Nana-Nê-Nê e, de lambuja, invencível.

A Cuca, contemplando sua criação, não fazia nada além de soltar pavorosas gargalhadas de rejubilação. Os demais apenas miravam assombrados o monstro, aguardando o que viria a seguir. Como a madrugada logo findaria, a Cuca determinou que seu Frankenstein entraria em ação à chegada da próxima noite, que, por coincidência ou não, seria uma sexta-feira treze.

***

Kula sentiu um incomodo e intrigante calafrio naquela noite de sexta-feira treze, algo que ele jamais sentiu antes. Os Nana-Nê-Nê já estavam aconchegados em suas ocas, com exceção de alguns que permaneciam ao redor da fogueira conversando e olhando o céu noturno enluarado. O guerreiro Kula, desconfiado, percorreu com o olhar todo o perímetro da aldeia em busca de algo estranho. Como nada encontrou, virou-se em direção a sua oca, andando determinado, com as nádegas balançando num gracioso movimento.

Alguém, do grupo que estava sentado ao redor da fogueira, notou um vulto insólito saltitar e desaparecer por trás de uma oca. Uta espantou-se e apontou o dedo agitadamente naquela direção, avisando aos companheiros:

— Ei, pessoal, vi alguma coisa ali, mas sumiu muito rápido…

Ao que um outro índio respondeu:

— Não vi nada. E vocês, amigos, viram algo?

Responderam que não e, como Uta era tido por um fanfarrão mentiroso, consideraram ser uma peta. Porém ele teimou em sua afirmação, e os outros, escarnecendo dele, já imaginando alguma brincadeira, se levantaram e seguiram na direção onde o suposto vulto estava, puxando consigo o já apavorado Uta.

Chegando ao local, todos simulando cautela e medo só para impressionar Uta, nada encontraram, como haviam imaginado. No entanto, ao ouvirem um ruído gorgolejante, que lhes pareceu vir de dentro da oca, viraram-se bruscamente e ficaram estáticos, surpreendidos, aguardando a repetição do gorgolejo. Sem demora este se repetiu, juntamente com outros fragores vindos do mesmo lugar. Os índios ficaram intrigados e rapidamente foram averiguar.

De mansinho entraram os quatro dentro da oca e, apesar de lá dentro a escuridão dificultar a visão, não deixaram de ver um índio de cócoras, desempenhando um papel tão comum à fisiologia. Entenderam que todo aquele estrépito provinha daquele obrar e não disseram nada, saindo também de mansinho. Ao saírem os quatro, atordoados pelos odores ali inalados, mostraram-se atônitos ao divisar um vulto desaparecer nas sombras de outra oca. Se não era uma brincadeira de Uta, o que poderia ser, afinal? Precisavam descobrir.

— Vamos nos dividir — sugeriu Kato. — Vamos pegar o engraçadinho!

Separaram-se em duplas, com Kato, que era o mais forte, empurrando o hesitante Uta, agora mais apavorado. Enquanto uma das duplas circundava uma a uma as ocas à procura do vulto, a outra procurava do lado de dentro. Assim procedendo, se passou um bom tempo sem que nada de estranho se escutasse ou se visse. Mas é justamente no momento em que a gazela vai ao riacho tomar água, que o leão parte para o ataque.

Foi quando uma das duplas percebeu um som como o de alguém pulando, seguido de uma aparição que, ao mesmo tempo que terrificava pelo aspecto monstruoso, desconcertava pela atitude zombeteira de mostrar a língua e pular com uma perna só de um lado a outro. Berros assustadores, numa cadência que ia do medo risonho a uma dor profunda, rasgaram o silêncio da noite. Toda a tribo foi despertando aos poucos, sobressaltada com tais barulhos.

No momento em que soavam os terríveis berros, Uta se desesperou e se desvencilhou de Kato, fugindo espavorido não se sabe para onde, e nunca mais ouviram falar dele. Kato partiu em auxilio a seus companheiros, mas chegou tarde, se deparando com o monstro sobre os dois cadáveres.

O Frankenstein, apercebendo-se de sua presença, com espantosa agilidade se lhe pulou em cima, derrubando-o com força. Logo o quê, infligiu a Kato um tormento enlouquecedor, passando-lhe a língua por todo seu corpo. O mesmo berro risonho e aflitivo ecoou naquela noite agourenta.

Enquanto isso se passava, os Nana-Nê-Nê já estavam todos em polvorosa, correndo com o grande Kula na liderança até o local do crime. Ao chegarem, se aglomeraram esbaforidos atrás de Kula, olhando estupefatos as caretas e os saltinhos provocantes que o Frankenstein fazia. Ficaram nauseados quando viram os corpos lambidos e inertes dos companheiros.

Entretanto surgiram olhos cintilantes por entre as árvores que circundavam a aldeia, muitos deles, e uma gargalhada maligna retumbou. Eram a Cuca e os folclóricos.

— Meu monstrinho cruel — bradou a velha bruxa, aproximando-se e parando no limite da tribo.

Frankenstein supliciava o grande Kula que, rolando no chão, tentava em vão evitar as cócegas brutais que seu oponente lhe causava com a língua. Mas ouvindo o chamado da Cuca, o monstro parou e foi ao seu encontro, não antes de terminar a peleja.

Os Nana-Nê-Nê correram atrás do monstro, estacando todos numa confusão antes de ultrapassarem os limites da tribo, temendo ser pegos pelo inimigo do lado de fora. Tendo o pajé ficado para trás, todos abriram caminho para ele passar, inteiramente nu, com algo enorme pendendo entre suas pernas venerandas. Esse algo enorme era o cabo de seu machado, preso por uma correia em volta da cintura.

— Meu pajé, meu pajézinho — volveu a Cuca ao vê-lo, rindo cruelmente da situação. — Que tal lhe parece o meu verdugo?

Percebendo o pajé que não poderiam com tal aberração, estando presentes também os folclóricos e a bruxa crocodiliana, não lhe coube outra resolução senão o que vinha temendo há muitos anos:

— Sua velha vagabunda, diga logo o que quer para acabar com todo esse tormento e levar daqui seus monstrinhos malvados.

— O que eu sempre quis, você bem sabe — disse a Cuca. — Venha morar comigo em troca da paz de seus bundas-de-fora.

Nesse momento, a velha índia esposa do pajé, estremecendo e balbuciando, desmaiou ante a terrível proposição da bruxa. O pajé a amparou em seus braços, murmurando palavras incompreensíveis. Estava transtornado. Menos de cinco minutos depois a velha índia veio a falecer. Ao pajé só restava oferecer segurança à sua tribo. Muito pesaroso se entregou às garras da Cuca.

 Ela, que só queria se divertir e tendo obtido o que mais queria, cumpriu sua palavra e lançou um feitiço em seu Frankenstein, e este desabou, sem vida. E assim ela se foi, acompanhada de seus folclóricos e do infeliz pajé. Kula permaneceu no solo, derrotado, pisado, coberto de terra e saliva. Só se via sua grande bunda ressaltando, como duas montanhas. E aquele local doravante passou a ser chamado de o Montículo de Kula.

Os índios mais corajosos foram designados para levar o corpo do Frankenstein e o jogar ao rio. Enfim o dia rompeu, trazendo a paz novamente ao povo Nana-Nê-Nê.

Dias depois o corpo do Frankenstein folclórico foi encontrado encalhado numa margem rasteira do rio. É preciso dizer que o Saci recuperou sua perna, voltando a ser aquele matreiro de sempre. A Mula-sem-cabeça, como nunca se viu, ganhou uma cabeça, perdendo a alcunha de sem-cabeça que tanto a desgraçava. O Lobisomem pegou seus braços de volta, e tudo pareceu ficar bem. Apenas o Curupira não ficou a contento, correndo estabanadamente atrás da Mula-com-cabeça.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *