<strong>O peregrino Joshua</strong>

O peregrino Joshua

Joshua é uma coluna com publicação semanal às quintas-feiras no Jornal Diário Regional e aos sábados no Jornal Folha do Mate.

Nela Rafael Lovato trata de temas cotidianos vivenciados por um velho peregrino, no início do século passado.

A série "O peregrino Joshua" está sendo publicada pela Editora Zap Book, e contará com ao menos 7 volumes, e que podem ser comprados no site www.zapbook.com.br

7 dezembro 2012

Ignorância ou bênção?

Aquele dia amanheceu muito quente no vilarejo de Monte Branco. Desde cedo, o peregrino Joshua percebeu carregadas nuvens no horizonte, e esperava pelo temporal, que chegou na metade da tarde.

Observando os primeiros pingos, pensou que há tempo não caminhava sob a chuva, e ponderou que aquela era uma oportunidade tão boa quanto qualquer outra.

Sem demora, saiu da pensão munido só de sua bengala, ao alto som de trovões e grossos pingos de água, que caíam oblíquos devido ao vento. Viu os habitantes do vilarejo correrem para fechar as janelas de suas casas, deixando as ruelas desertas, quando um homem, abrigado em uma varanda, gritou:

– Não seja louco! Volte para dentro! É um temporal. O que o senhor está fazendo? Os raios são perigosos…

Joshua, com seu andar lento, aproximou-se da varanda.

– Meu amigo, obrigado pela preocupação. Eu sei que existe perigo no que faço nesse momento, e é justamente contra essa sapiência que luto. Não deixarei de me refrescar e aproveitar a chuva por saber que ela pode, hipoteticamente, ser perigosa.

O homem coçou a cabeça.

– Vixi, o senhor endoidou?

– Muito pelo contrário. Sei o que faço. Nessa vida, a cautela é bem-vinda. Mas, deixar de viver em virtude do medo é algo que devemos combater. No passado, paguei alto preço pelo conhecimento que adquiri em minhas andanças. Ele me roubou, por incontáveis anos, a magia e beleza do mundo, pois a tudo eu aplicava a crua explicação real e científica…

– E qual o problema disso? Saia da chuva, homem…

Joshua escorou ambas as mãos sobre a bengala.

– Científico e cético como era, eu somente conseguia ver os perigos e infortúnios de minha existência. Jamais ponderava aceitar que, por exemplo, a chuva e os raios poderiam ser obras divinas, sem pensar nas descargas elétricas e na condensação de vapores, para não ter a certeza do aspecto randômico do raio.

– Que, é…?

– A possibilidade de um indivíduo ser morto por ele não guardar relação com sua conduta moral e social enquanto homem que propaga o bem.

O homem escutava de boca aberta.

– Jesus Cristo, o senhor deu um nó na minha cabeça! Mas, afinal, o senhor tem ou não tem medo de raios?

– Eu tinha, pois sabia que o raio podia ser injusto. Mas, isso faz muito tempo, quase noutra vida. Hoje, exercito a preferência de acreditar que Zeus, no cume do Monte Olimpo, empunha os raios e somente os lança contra os maus, imorais e perniciosos. Assim, os homens de bem se encontram a salvo de serem torrados. Escolhi acreditar que devo conduzir minha vida num ditame moral e de bom senso, sem precisar me preocupar em evitar raios…

– Hm… O senhor não vai sair da chuva, vai?

Joshua olhou para o céu, carrancudo, e abaixou os olhos para encarar o homem.

– Meu amigo, eu não posso. Neste momento, meu corpo urge pelo contato com o vento e a chuva. Com igual força, minha mente me lembra do raio – e Joshua escutou o bater das asas do anjo sentado em seu ombro. – E é por isso que minha verdade lhe digo: não sou refém de minha sapiência. Opto por rogar a que Zeus me proteja.

Após falar tais palavras, Joshua agradeceu ao homem e prosseguiu seu lento caminhar sob a chuva torrencial.

"8" comentários em: Ignorância ou bênção?

  1. Rafael - 26 de janeiro de 2015

    Via FACEBOOK
    Jerônimo Mendes
    Muito bom! Sucesso, sempre!

    • Rafael - 26 de janeiro de 2015

      Abração Jerônimo!

  2. Rafael - 23 de janeiro de 2015

    Via FACEBOOK
    Zilda Beatris Almeida Brito
    Acompanhando, Rafael Lovato!!! Muito bom…

    • Rafael - 23 de janeiro de 2015

      Beijos ZIlda!

  3. Rafael - 23 de janeiro de 2015

    Via FACEBOOK
    Rosilayne Vasconcelos
    Por muitas vezes o medo dos raios, nos privou do prazer de sentir a chuva na pele!
    Belíssimo texto!

    • Rafael - 23 de janeiro de 2015

      beijão Rosilayne

  4. Rafael - 23 de janeiro de 2015

    Via FACEBOOK
    Heloiza Averbuck
    Super texto, peregrino Joshua 🙂

    • Rafael - 23 de janeiro de 2015

      Beijos Heloiza!

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