<strong>O peregrino Joshua</strong>

O peregrino Joshua

Joshua é uma coluna com publicação semanal às quintas-feiras no Jornal Diário Regional e aos sábados no Jornal Folha do Mate.

Nela Rafael Lovato trata de temas cotidianos vivenciados por um velho peregrino, no início do século passado.

A série "O peregrino Joshua" está sendo publicada pela Editora Zap Book, e contará com ao menos 7 volumes, e que podem ser comprados no site www.zapbook.com.br

21 dezembro 2012

As lembranças e o tempo

Naquela quarta-feira, o peregrino Joshua permanecia na cidade de Arroio Grande.

Sentado em um dos bancos da praça central, impressionava-se com o frenético movimento daquela metrópole. Pensou que as pessoas correndo sem parar nas ruas assemelhavam-se a formigas, ocupadíssimas, e, mal podia acreditar na quantidade de carroças e modernos automóveis transitando.

Era passado do meio dia quando um senhor se aproximou e sentou ao seu lado, no banco. Após alguns momentos, ele falou:

– Sabe, desde que me aposentei, procurei amigos de outrora, para retomar memórias esquecidas. Reencontrei muitos, e, foi ótimo. Mas, então, repentinamente, comecei a me deprimir com aquilo, e não sei o motivo.

Joshua se ajeitou no banco.

– Meu amigo, compreendo com exatidão o que você sentiu. Em nossas vidas, passamos por situações boas e ruins, e várias delas permanecem conosco para sempre, em nossas lembranças. Uma tarde de sol, um jogo de futebol com os amigos, o primeiro beijo, um tombo de bicicleta… Normal que, muitas delas, sintamos vontade de reviver.

– Sim, sim. Isso mesmo! – O senhor gesticulava.

– Mas, é perigoso mexermos com esses momentos. O mundo muda. As pessoas mudam. Nosso melhor amigo de infância, que, por algum capricho, o destino distanciou, hoje pode ser uma pessoa totalmente diferente do que era. Acaso o reencontrássemos, pode que não mais teria lugar em nossa vida, ou nós na dele. Então, aquela lembrança de garoto, de momentos de amizade intensa, despedaçar-se-ia.

O homem coçou a cabeça.

– Foi exatamente o que aconteceu!

– Meu amigo, lembranças não são exatas: elas espelham sensações sobre uma ocorrência de nossa vida. Não, necessariamente, a realidade do acontecimento. Colocar em cheque essas percepções de mundo, que experimentamos no passado, normalmente é desastroso.

– E por que isso acontece?

Joshua ajeitou sua bengala entre os joelhos, e olhou para o senhor.

– Porque não somos mais os mesmos. A vida nos transforma, talha. Crescemos e amadurecemos. A lucidez do viver adulto destroça a ingenuidade de outrora. Assim, impossível nossas lembranças sobreviverem a um embate com tal titã. Memórias pertencem a um momento no tempo e no espaço, e devem permanecer guardadas em nosso cérebro. Por infelicidade, não somos mais quem fomos quando crianças – o homem olhava para Joshua sem piscar ou dizer palavra. – Mas, não entenda mal: o mundo nos rouba a ingenuidade para conseguirmos sobreviver nele.

– Como assim?

Joshua olhou nos olhos do senhor.

– A esperança, memórias confortantes, são alguns dos combustíveis dos nossos dias. Racionalmente, se o amigo repensar, é provável que não estivesse disposto a reatar uma amizade próxima com vários de seus amigos de outrora, pelos mais diversos motivos. Mas, a memória daquela amizade o conforta, posto que mágica, construída num tempo quase surreal.

– Agora entendi o que o senhor quer dizer. Sim é verdade!

Joshua colocou a mão no ombro do senhor.

– Meu amigo, é por isso que minha verdade lhe digo: mantenha cada questão em seu devido lugar. Não tente reviver e viver do passado, pois ele não é a realidade. De outro lado, alimente-se do que de bom ele lhe traz, e utilize essas memórias e informações para melhorar o seu presente. Pois, viver é criar novas, e melhores, lembranças.

"16" comentários em: As lembranças e o tempo

  1. Ana Rosane Felipe dos Santos - 7 de fevereiro de 2015

    Parabéns, ótimo texto!

    • Rafael - 7 de fevereiro de 2015

      Beijão Ana Rose!

  2. Rafael - 6 de fevereiro de 2015

    Gilney Mylius
    Quem convive com doentes e doenças crônicas; muitas vezes, sem recuperação plena, depara-se com esta situação descrita com perfeição, todos os dias… As vezes, frustra… Mas é preciso a Vida seguir…

    • Rafael - 6 de fevereiro de 2015

      Abração Gilney!

  3. Rafael - 6 de fevereiro de 2015

    Rô Lídice
    Parabéns pelo texto, Rafael Lovato! Besotes.

    • Rafael - 6 de fevereiro de 2015

      Beijos Rô!

  4. Rafael - 6 de fevereiro de 2015

    Grace Oseki
    Muito bonito!!

    • Rafael - 6 de fevereiro de 2015

      Beijos Grace!

  5. Rafael - 6 de fevereiro de 2015

    Ana Campos
    Ainda há boas lembranças na vida 🙂

  6. Rafael - 6 de fevereiro de 2015

    Alexandra Ignês Simões
    “As lembranças e o tempo”. Excelente, a escrita nos remete à reviver lembranças, que ficam inevitavelmente assim, apenas como lembranças… e, é isso, viver é criar novas e melhores lembranças…sempre.

    • Rafael - 6 de fevereiro de 2015

      Beijão Alexandra!

  7. Rafael - 25 de dezembro de 2012

    Via FACEBOOK
    John Williams Bezerra
    É sempre bom…

  8. Rafael - 21 de dezembro de 2012

    Via FACEBOOK
    Heloiza Averbuck
    Muito bom Rafael Lovato!!! E muito verdadeiro…

    • Rafael - 21 de dezembro de 2012

      Bjão minha querida amiga Heloiza!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *