<strong>O peregrino Joshua</strong>

O peregrino Joshua

Joshua é uma coluna com publicação semanal às quintas-feiras no Jornal Diário Regional e aos sábados no Jornal Folha do Mate.

Nela Rafael Lovato trata de temas cotidianos vivenciados por um velho peregrino, no início do século passado.

A série "O peregrino Joshua" está sendo publicada pela Editora Zap Book, e contará com ao menos 7 volumes, e que podem ser comprados no site www.zapbook.com.br

8 fevereiro 2013

A indignação e a rebeldia

O peregrino Joshua, finalmente, deixara para trás o vilarejo de Vento Norte, chegando ao povoado de Caminho Estreito na noite passada. Apesar de ser verão, o frio e a chuva visitaram a região. Joshua sentia um resfriado e dor de garganta se avizinharem de si, e sabia que precisava se cuidar, para não piorarem.

No entanto, isso não o incomodava, pois, também sabia que assim era a vida, um constante zelo, atenção, cuidado com o organismo.

Sentado à mesa da pensão, desjejuando na companhia de outros hóspedes, prestou atenção à discussão que acendeu:

– …Nem sei o que posso fazer com aquele moleque. Acho que é a idade: discute comigo, briga com todos, não para em casa…

– Um rebelde! – completou outro homem. – Sei bem como é isso. E, têm alguns que não se curam a vida inteira!

– Exato! Sempre resmungando, protestando, fazendo arruaça…

– Na verdade, o que falta é laço! – O homem sorriu largamente, no que foi acompanhado pela maioria dos presentes. – Passa a cinta que ele se ajeita!

Sem demora, uma senhora perguntou olhando para Joshua:

– E o senhor, peregrino, que está tão quieto. O que acha disso? A rebeldia é, mesmo, falta de laço?

Joshua depositou a xícara de café sobre o pires.

– Meus amigos, concordo que é verdade que alguns adolescentes perdem o bom-senso em muitas de suas atitudes e posicionamentos. Mas, igualmente, sei que alguns adultos se desviam do caminho inicialmente proposto para suas vidas, e que tantos outros radicalizam posicionamentos. Isso se repete no decorrer dos séculos, como nos Dolcinitas, por exemplo.

Um dos homens cruzou os braços.

– Como é que é o negócio? Dolci o quê? O senhor endoidou?

Joshua olhou para o homem.

– Os Dolcinitas eram uma ordem religiosa que, assim como os Franciscanos, acreditavam na pobreza de Jesus Cristo.

– E, o que tem de radical nisso? – Perguntou o outro homem, sorrindo.

– Eles também afirmavam que todos deviam ser pobres. Por essa razão, matavam os ricos.

A senhora se persignou.

– Jesus Cristo!

Joshua olhou para os homens.

– Mas, isso não significa que se indignar com uma situação, ou se rebelar frente a iniquidades, ou apoiado em ideais, seja ruim. Muito pelo contrário: é exatamente esse discordar, o não se acomodar, que proporciona o crescimento de nossa sociedade e de nós mesmos.

Um dos homens pigarreou.

– Ok, ok, peregrino. Mas, e o que isso tem a ver com dar uma boa sova num pirralho chato e marrento?

Joshua se ajeitou na cadeira.

– Tênue é a linha entre a indignação proveitosa e a estupidez, a ignorância. Ou entre a visão extasiada e o frenesi pecaminoso, sei disso. No entanto, asseguro-lhe, a rebeldia é bem vinda, posto que matriz de mudanças, de evolução. O que é preciso é se tutelar o rebelde, dar-lhe atenção, escutá-lo e lhe apontar alternativas e novos caminhos.

– Até parece! – Troçou o outro dos homens.

– Shhhh! – Repreendeu a senhora. – Prossiga, seu Joshua.

– Meu amigo, inquietações, quaisquer que sejam, possuem uma causa. E, se há algo que eu aprendi nas andanças desta vida é que violência gera mais violência. Além disso, um artista, músico, poeta, tantas profissões e expressões usam a rebeldia, a indignação, como combustível – e Joshua olhou nos olhos do homem. – É por isso que minha verdade lhe digo: acredite no bem. Com um pouco de espaço e compreensão, a rebeldia pode ser redirecionada a algo produtivo. Basta nos comprometermos com o próximo.

"10" comentários em: A indignação e a rebeldia

  1. Rafael - 27 de março de 2015

    Adelaide Silvana
    bom !

    • Rafael - 27 de março de 2015

      Beijos Adelaide!

  2. Rafael - 27 de março de 2015

    Paula Da Rin Souza
    “Mas, isso não significa que se indignar com uma situação, ou se rebelar frente a iniquidades, ou apoiado em ideais, seja ruim.

    Muito pelo contrário: é exatamente esse discordar, o não se acomodar, que proporciona o crescimento de nossa sociedade e de nós mesmos.”

  3. Rafael - 27 de março de 2015

    Juracy Michelin Barban
    Rafael,lindo seu link !!

    • Rafael - 27 de março de 2015

      Beijos Juracy

  4. Rafael - 8 de fevereiro de 2013

    Via FACEBOOK
    Andréa Prochnow Saenger
    Adoro essa leitura…até a próxima amigo Rafael Lovato.

    • Rafael - 8 de fevereiro de 2013

      Bjão minha querida amiga Andréa!

  5. Rafael - 8 de fevereiro de 2013

    Via FACEBOOK
    Heloiza Averbuck
    Mais uma lição ensinada pelo peregrino Joshua, nos levando a reflexão… 🙂

    • Rafael - 8 de fevereiro de 2013

      Bjão minha querida amiga Heloiza!

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