<strong>O peregrino Joshua</strong>

O peregrino Joshua

Joshua é uma coluna com publicação semanal às quintas-feiras no Jornal Diário Regional e aos sábados no Jornal Folha do Mate.

Nela Rafael Lovato trata de temas cotidianos vivenciados por um velho peregrino, no início do século passado.

A série "O peregrino Joshua" está sendo publicada pela Editora Zap Book, e contará com ao menos 7 volumes, e que podem ser comprados no site www.zapbook.com.br

22 fevereiro 2013

O homem de Mir

O peregrino Joshua deixara para trás o vilarejo de Caminho Estreito há dois dias. Naquele início de tarde, caminhava por entre as montanhas, refletindo que o nada e o tudo não possuíam qualquer forma. Então, como poderia identificá-los? Como saberia o momento no qual encontrou o nada, ou o tudo? Qual o verdadeiro método de comparação? E, mesmo comparando, poderia chegar a qualquer certeza?

Joshua não possuía respostas para todas as perguntas. Concluiu que ainda teria de pensar, por muito tempo, a esse respeito.

Com tais reflexões em mente, venceu uma das curvas do caminho, deparando-se com um homenzinho, que falou sem pestanejar:

– Ahoy! Identifique-se, forasteiro, sob pena de prisão.

Joshua não compreendeu muito bem a intenção do homenzinho, posto que se encontravam em local ermo e ele não ostentava vestimenta de polícia ou militar.

– Meu amigo, prender-me-ia sob as ordens de quem? Por qual motivo, se não se importa que eu pergunte?

– Da lei! Está tudo escrito aqui – e o homenzinho levantou ao ar um grosso livro -, o Código de Mir. Lei é lei. Identifique-se! Ou, considere-se meu prisioneiro.

Joshua olhou para aquele homem baixinho e decidido, e vislumbrou uma infinidade de desenlaces para a situação. Optou pela mais simples.

– Tudo bem. Se seu código diz, então, pode me prender.

O homenzinho olhou para os lados, coçou a cabeça, e, meio sem jeito, falou:

– Hm, estamos muito longe de Mir, não tenho onde aprisioná-lo, nem com o que…

Joshua deu um passo na direção do homenzinho.

– E o que seu livro diz, num caso desses? Consulte-o, por favor.

O homenzinho pôs-se a folhar freneticamente a obra. Enfim, falou:

– Não diz nada. E, agora, o que eu faço?

Joshua se aproximou ainda mais.

– Eu tenho uma ideia, se me permitir opinar.

– Claro, claro.

– Use seu bom-senso.

– Não! – o homenzinho deu um passo para trás. – Lei é lei!

Joshua escorou as mãos sobre a bengala.

– Sim, é bem verdade. Mas, são feitas por homens, como nós. Quando as escreveram, por certo, não podiam prever tudo, não é mesmo? É em momentos como esse que devemos recorrer ao que nos parece mais adequado, abrindo mão de uma visão dogmática e restritiva sob pena de criarmos monstros legais e injustiças igualmente teratológicas.

– Não sei não.

– Seu código fala em identificação, mas, parece-me razoável que só vá preso quem, em certas e determinadas circunstâncias, desobedecer ao mandamento. Não que sejam todos presos em todas ocasiões. As normas são feitas para nos servirem enquanto animais sociáveis, buscando o bem comum, a harmonia, a própria persecução de um Estado democrático e igualitário. Lembre-se que a visão cartesiana de mundo é ultrapassada.

– Visão cartesi-o-quê?

Joshua olhou nos olhos do homenzinho.

– Cartesiana. Significa que o melhor é avaliarmos o todo, o contexto, e não somente fragmentos. Olhe nós dois, por exemplo. Estamos no meio de um descampado, não estou fazendo nada reprovável; nem mesmo estamos em Mir. Poderia me identificar por pretendermos ser amigos, e, não por causa do seu código. Exercite uma visão pragmática de mundo, assim como das leis. Claro que isso não significa quebrá-las, mas, sim, melhor adaptá-las ao que é evidente e óbvio: o bom-senso. Destarte, passarei de ser seu prisioneiro para ser seu amigo, e podemos andar juntos.

O homenzinho guardou o grosso código.

– Gostei. É, esse tal de Cartesiano não tá com nada…

– Descartes.

– O quê?

– Meu amigo, deixa para lá. Vamos seguir nossa caminhada. A propósito: meu nome é Joshua.

"8" comentários em: O homem de Mir

  1. Rafael - 11 de abril de 2015

    Grace Oseki
    Adorei!!

    • Rafael - 11 de abril de 2015

      Beijão Grace

  2. Rafael - 24 de fevereiro de 2013

    Via FACEBOOK
    Blacia Gonzales
    “Exercite uma visão pragmática de mundo, e também das leis. Claro que isso não significa quebrá-las, mas, sim, melhor adaptá-las ao que é evidente e óbvio: o bom-senso” Bom final de domingo e boa semana para todos e todas!

  3. Rafael - 22 de fevereiro de 2013

    Via FACEBOOK
    Manollo Ferreira
    Muito legal Rafael Lovato, adorei !… Abraços amigo !

    • Rafael - 22 de fevereiro de 2013

      Abração!

  4. Rafael - 22 de fevereiro de 2013

    Via FACEBOOK
    Heloiza Averbuck
    Muito bom!!!!

    • Rafael - 22 de fevereiro de 2013

      Bjão minha amiga Heloiza!

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