<strong>O peregrino Joshua</strong>

O peregrino Joshua

Joshua é uma coluna com publicação semanal às quintas-feiras no Jornal Diário Regional e aos sábados no Jornal Folha do Mate.

Nela Rafael Lovato trata de temas cotidianos vivenciados por um velho peregrino, no início do século passado.

A série "O peregrino Joshua" está sendo publicada pela Editora Zap Book, e contará com ao menos 7 volumes, e que podem ser comprados no site www.zapbook.com.br

19 abril 2013

A existência vítrea

O peregrino Joshua resolveu permanecer mais alguns dias próximo ao litoral. Naquela tarde, caminhava na beira-mar, olhando o céu nublado e pensando que o vento ficara frio, sem o calor do sol para combatê-lo.

Ponderou, para si mesmo, que poderia estar se gripando, ou, talvez, fosse a idade cobrando seu preço. Quem sabe, fosse a falta de um agasalho adequado. Porém, concluiu que podia ser sua própria alma que andava afastada do calor dos homens, do calor de si mesmo, o que era ainda mais preocupante.

Olhou das nuvens para as ondas, e se virou e viu o rastro de suas pegadas na areia. Voltou a olhar para frente, e baixou os olhos e viu seus pés descalços, galgando vagarosos passos.

Apercebeu-se de que, naquele momento, nada lhe restava a não ser a crua matéria orgânica, aquele invólucro de prazeres esquecidos e sofrimentos presentes, consciente de sua incapacidade individual de modificar o mundo, mesmo de rever eventos, retroceder, se desculpar; admitir, repensar…

Joshua parou.

Gostaria de poder voltar no tempo, para sua esposa e filhos, para uma vida diferente, num mundo que, naquele momento em pé sobre as areias da beira-mar, parecia tão distante e perdido nas marés da vida.

– O senhor é aquele filósofo?

Ao ouvir tal frase, Joshua levantou os olhos e viu um homem se aproximar.

– Meu amigo, nesse momento não passo de um peregrino, sem destino, sem família, sem fronteiras e sem portos seguros, flutuando à deriva nas ondas do mundo. Sinto falta de mim mesmo, como se meu corpo se esquecera de mim em uma encruzilhada qualquer. Nalgum tropeço, minha alma saltou de dentro de mim e não retornou. Despejou-me de mim mesmo. Expulsou-me. Rebelou-se.

O homem, segurando a barriga, soltou uma gargalhada.

– Achei que filósofos não passassem por esse tipo de dúvidas existenciais! Quem diria!

Joshua olhou para o homem.

– Muito pelo contrário. É, justo, essa atroz opressão sobre eu mesmo que impulsiona meus pés a seguirem sua marcha, deixando pegadas na areia. Entrego ao mundo experiências pessoais, e não há nada mais legítimo e autêntico no discurso de quem o profere do que externar aquilo que é seu cerne, que habita meu âmago. Mas, sou humano, e possuo limites.

– Pelo visto o senhor não está num bom dia. E, eu pensando que poderia lhe pedir alguns conselhos.

Joshua deu um passo na direção do homem.

– Meu amigo, esse não é um dia pior nem melhor do que todos os outros de minha vida. Sou o que sou, aceito essa condição. Euforia me visita às vezes, assim como a melancolia, a tristeza no anoitecer quando encontro minha cama fria, os instantes de alegria…

– Gostei. Melhorou!

– Nossa passagem nesse mundo é como ondas no mar, sempre em movimento, subindo e descendo. Todos os dias são bons e ruins ao mesmo tempo, assim é a vida. Mas, o que de fato importa é o que aprendemos com isso, qual o enfoque que destinamos a nós mesmos e quais os questionamentos que assolam nossa mente – e Joshua colocou a mão sobre o ombro do homem. – O amigo fala de conselhos, ao que lhe digo que nossa estagnação e conformismo erige uma redoma ao nosso redor, transformando nossos dias em uma existência vítrea, estanque. Pensamos, então, que não poderemos voar com os ventos, nos mesclarmos aos pingos da chuva, sentir a energia do sol. É por isso que minha verdade lhe digo: é nesses momentos que precisamos nos lembrar de que o aspecto vítreo é um condicionamento imposto por nós mesmos, e que, quando notamos a sua presença, pode ser quebrado.

– Como?

Joshua olhou nos olhos do homem.

– Basta seguirmos caminhando – e Joshua retomou seus passos sobre a areia.

"8" comentários em: A existência vítrea

  1. Rafael - 5 de junho de 2015

    Juracy Michelin Barban
    Encantador o texto . Bjin Rafael

    • Rafael - 5 de junho de 2015

      Beijos Juracy

  2. Rafael - 5 de maio de 2013

    Via FACEBOOK
    Ines Hoffmann
    AMEI!!!!!!!!!!!!!

    • Rafael - 5 de maio de 2013

      Bjão Ines!

  3. Rafael - 19 de abril de 2013

    Via FACEBOOK
    Heloiza Averbuck
    Linda mensagem!

    • Rafael - 19 de abril de 2013

      🙂 bjão!

  4. Rafael - 19 de abril de 2013

    Via FACEBOOK
    Blacia Gonzales
    “O homem, segurando a barriga, soltou uma gargalhada:
    – Achei que filósofos não passassem por esse tipo de dúvidas existenciais!”
    Todos passamos, rsrsrs. Bom Diaaaa!

    • Rafael - 19 de abril de 2013

      hehe bjão minha querida Blacia

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