<strong>O peregrino Joshua</strong>

O peregrino Joshua

Joshua é uma coluna com publicação semanal às quintas-feiras no Jornal Diário Regional e aos sábados no Jornal Folha do Mate.

Nela Rafael Lovato trata de temas cotidianos vivenciados por um velho peregrino, no início do século passado.

A série "O peregrino Joshua" está sendo publicada pela Editora Zap Book, e contará com ao menos 7 volumes, e que podem ser comprados no site www.zapbook.com.br

26 abril 2013

Legados*

*Essa é uma crônica para que os leitores de Joshua compreendam a vida do peregrino e de onde se originam suas lembranças de uma família há muito perdida. E, especialmente, sendo homem que viveu muitos anos atrás, para que conheçam quem conta suas histórias.

Caronte sempre chegou ao mundo dos homens navegando em turbulentas marés em seu barco.

Conhecia cada uma das pessoas que buscava, das quais acompanhava os minutos vividos, desde o momento de abrirem os olhos ao de fechá-los. Em virtude disso, durante os muitos séculos navegando naquelas águas, de remada em remada uma reflexão recorrente povoou seu intelecto: que em muitos casos, seus tripulantes mereciam permanecer um pouco mais no mundo dos homens. E não que pensasse em justiça ou injustiça, mas sim que, simplesmente, esse era o seu sentimento. Porém, intimamente, reafirmava não caber a ele decidir a hora de alguém deixar aquele mundo, pois não controlava quem subia ou descia de seu barco. Somente se encontrava presente quando chegava o momento, pronto para proceder à travessia dos rios Styx e Acheron ao preço de uma moeda de ouro, apontando o novo caminho a seguirem.

Assim funcionou desde os primórdios da criação daquele mundo, e era por isso que quem soubesse quem era Caronte, definitivamente, se perguntaria por que escrevia as histórias de Joshua, pois certamente deveria se ocupar cuidando de seus afazeres mundo afora. Ainda poderiam completar que esses afazeres eram muito mais importantes do que contar histórias, e quem pensasse assim, não deixaria de estar um pouco correto. No entanto, algo diferente do corriqueiro aconteceu num dos dias em que a maré trouxe seu barco, e no atracador encontrava-se Joshua com uma moeda nas mãos.

Enquanto remava se aproximando do atracadouro, a vida daquele homem de meia idade cruzou os pensamentos de Caronte. Sem qualquer dúvida, viu que sua família o amara desde que nascera, e que ele sempre praticara o bem. Ainda jovem, perdera os pais, com quem muito aprendeu e de quem em toda sua vida sentira muita falta, sendo seu maior desejo perpetuar o legado de conhecimento, bondade e altruísmo deles. Percebeu que, no íntimo de seu ser, Joshua se sentia sozinho, e, mesmo assim, desde jovem se preocupara mais com os outros do que consigo, sempre disseminando o bem por onde passara. Viu, também, que com o correr dos anos ele encontrara uma mulher de quem se enamorara profundamente, sua alma gêmea. Logo após se conhecerem, ambos iniciaram alegre vida juntos, projetando um futuro onde Joshua vislumbrava ensinar e amar seus filhos, para quem passaria o legado de seus pais. A cada dia vivido, amava ainda mais sua alma gêmea, e uma felicidade sem fim inundara seu coração, pois possuía uma família novamente, o que se completou com o nascimento de dois filhos. Então, sem aviso e tragicamente, um acidente ceifou a vida de sua esposa e filhos, e Joshua vira-se novamente sozinho, desesperado, perdendo a vontade de viver.

Com essas visões em mente, Caronte atracou em silêncio o seu barco nas margens do rio Acheron. Enquanto as pessoas que acompanhavam Joshua se dirigiam ao atracadouro, entregavam uma moeda e subiam a bordo, aqueles recorrentes pensamentos retornaram à mente de Caronte. Súbito, ocorreu-lhe uma ideia, e vislumbrou a oportunidade para demonstrar ao mundo que também poderia conduzir seus tripulantes por águas calmas e cristalinas. E quando Joshua se aproximou, estendendo a mão com a moeda de ouro, ao invés de aceitar calado o pagamento, como sempre fazia, Caronte conversou com Joshua.

Expôs que compreendia a imensa dor que sentia, mas que ela abrandaria com o passar do tempo. Joshua respondeu que era difícil levantar a cabeça e olhar esperançoso para o horizonte após tudo pelo que passara em sua vida, ainda mais agora que os ensinamentos de seus pais se encontravam perdidos. Caronte argumentou-lhe que ainda era jovem e poderia voltar ao mundo dos homens para disseminar os ensinamentos de seus pais, deixando um legado abrangente e conquistando filhos de seu saber, dentre muitas coisas mais. Ambos conversaram por muito tempo, então Joshua perguntou como seria possível sair das margens dos rios das marés da vida, se concordasse em voltar ao mundo dos homens, pois era algo que jamais acontecera. Caronte esclareceu que não haveria volta uma vez que pisasse no barco, mas Joshua ainda se encontrava no atracadouro, e, assim, podia permitir que regressasse. Por fim, Joshua inquiriu qual o motivo daquela concessão e tamanha benevolência. Caronte respondeu que também pretendia legar algo ao mundo dos homens, mostrando, através dos ensinamentos de Joshua, que as águas onde as pessoas navegavam após deixarem aquele mundo não dependiam do barqueiro, e sim do modo como viveram suas vidas. E por esse motivo, os justos, caridosos, bons, não deveriam temer a chegada de seu barco.

As reflexões de Caronte inundaram novamente o coração de Joshua com esperança e amor, oportunizando-lhe vislumbrar que ainda possuía muito a oferecer à humanidade. Em virtude disso, Joshua agradeceu e aceitou a oferta do barqueiro, guardou a moeda de ouro no bolso e desceu do atracadouro das margens dos rios das marés da vida.

As marés novamente carregaram o barco, e Caronte se distanciou em silêncio, enquanto Joshua regressou ao mundo dos homens para peregrinar e passar seus ensinamentos, até o dia em que o barqueiro voltasse para lhe buscar.

Décadas passaram desde aquela conversa no atracadouro, quando, das margens dos rios das marés da vida, alguém retornou ao mundo dos homens, portando as primeiras Crônicas de Joshua, escritas por Caronte.

"4" comentários em: Legados*

  1. Rafael - 26 de abril de 2013

    Via FACEBOOK
    Andréa Prochnow Saenger
    Excelente!! Até a próxima. Abraços.

    • Rafael - 26 de abril de 2013

      🙂 Bjão!

  2. Rafael - 26 de abril de 2013

    Via FACEBOOK
    Heloiza Averbuck
    Fabuloso!

    • Rafael - 26 de abril de 2013

      Bjão minha querida amiga Heloiza!

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