<strong>O peregrino Joshua</strong>

O peregrino Joshua

Joshua é uma coluna com publicação semanal às quintas-feiras no Jornal Diário Regional e aos sábados no Jornal Folha do Mate.

Nela Rafael Lovato trata de temas cotidianos vivenciados por um velho peregrino, no início do século passado.

A série "O peregrino Joshua" está sendo publicada pela Editora Zap Book, e contará com ao menos 7 volumes, e que podem ser comprados no site www.zapbook.com.br

3 maio 2013

A arte da guerra

O peregrino Joshua recém deixara para trás o litoral com suas areias brancas e cheiro de maresia, e já se encontrava saudoso. No entanto, sabia que assim era a vida dos peregrinos, e que era necessário se movimentar, conhecer novos lugares e pessoas, para a elas entregar um pouco de sua verdade.

O sol já se escondia no horizonte quando chegou ao vilarejo de Menina Bonita. No caminho de encontrar uma pensão, parou para tomar um pouco de água na fonte da pracinha no centro do vilarejo. Sem demora, percebeu um corpulento homem sentado em um dos bancos, perto da fonte, cabisbaixo, e Joshua sentou ao seu lado.

Alguns minutos passaram, quando o homem falou:

– O senhor já se sentiu como uma formiguinha? Uma titiquinha de nada?

– Muitas vezes.

O homem suspirou.

– Só no que penso é em me esconder em algum buraco.

Joshua ajeitou a bengala entre os joelhos.

– Meu amigo, às vezes é sim importante retrocedermos e juntarmos forças para o próximo passo.

O homem sentou ereto, esfregando as mãos nos olhos.

– A vida que eu estava construindo ruiu. Meus negócios vão mal, e terei de me mudar de volta para minha cidade natal. Isso é uma vergonha! Sou um incompetente, um derrotado.

– E, a coragem, não conta?

O homem se virou para Joshua.

– Coragem? Que coragem? Como assim?

Joshua olhou para o corpulento homem.

– É necessária muita coragem para reconhecermos nossas deficiências e pedirmos ajuda. Ademais, derrotados são aqueles que desistem, não os que lutam.

– Tô fugindo com o rabo entre as pernas! Um corrido! Homem que é homem anda para frente, não de ré.

Joshua continuava olhando para o corpulento homem.

– É bem verdade que, nessa nossa vida, há momentos de atacarmos, marcharmos em frente. Mas, há tantos outros nos quais precisamos nos posicionar melhor, prepararmo-nos com mais adequação, repensar nossa estratégia. O amigo fala em fugir, eu entendo como retroceder hoje para angariar impulso para um passo maior, para frente, amanhã.

– Hm… Mas e o que as pessoas vão pensar de mim?

Joshua se ajeitou no banco.

– Isso, de fato, importa? Quem sabe de sua vida, de seus problemas, dificuldades e necessidades é você mesmo, e a ninguém cabe julgá-lo. A única juíza que lhe importa é sua própria consciência, e é com ela que você precisa fazer as pazes. Só ela lhe entregará paz e tranquilidade.

O corpulento homem coçou a cabeça.

– Sabe que, pensando assim, até já me sinto melhor.

Joshua colocou a mão sobre o ombro do homem.

– Meu amigo, viver é uma constante batalha, uma guerra que travamos, todos os dias, com diversas situações e empecilhos dos mais variados. E, em especial com nós mesmos. É por isso que minha verdade lhe digo: muitas vezes, somos nós mesmos nosso pior inimigo. Em uma guerra, sentir pena de si mesmo não traz vitória. Retroceder, afiar a espada, descansar um pouco, e voltar para a batalha, confiante em nossas escolhas, este, sim, é o caminho da vitória.

Ao Joshua concluir, o corpulento homem agiu de modo inesperado. Abraçou-se no peregrino, dando-lhe um abraço tão apertado que sentiu alguns ossos estalarem, ao mesmo passo em que falou:

– Muito obrigado. Vou lá afiar minha espada.

"26" comentários em: A arte da guerra

  1. Rafael - 12 de junho de 2015

    Ana Claudia Marques
    Rafael Lovato sempre fala comigo através de seu Peregrino. E hoje, de novo…

    • Rafael - 12 de junho de 2015

      Beijos Ana

  2. Rafael - 12 de junho de 2015

    Gelson Luis Pires
    Sun tzu, Maquiavel. Temos que nos especializar nas artes da guerra e da política.

    • Rafael - 12 de junho de 2015

      Abraço Gelson

  3. Rafael - 12 de junho de 2015

    Francine Deitos Kreling
    Estou aqui afiando a minha espada! Aliás, estava mesmo pensando em sugerir aos colegas a leitura de SUN TZU! Imprescindível!

    • Rafael - 12 de junho de 2015

      Beijos Francine!

  4. Rafael - 12 de junho de 2015

    Paula Da Rin Souza
    Curti mil! É o passo do impulso!

  5. Rafael - 12 de junho de 2015

    Arnaldo Leodegário Pereira
    Parabéns Rafael Lovato! Boa tarde!

    • Rafael - 12 de junho de 2015

      Abraço Arnaldo

  6. Rafael - 12 de junho de 2015

    Rachel Queiroz
    Perfeito!!!

    • Rafael - 12 de junho de 2015

      Beijos Rachel

  7. Rafael Sausen - 3 de maio de 2013

    Isso aí! muito bom Xará.

    • Rafael - 5 de maio de 2013

      Valeu meu Xará! Grande abraço.

  8. Rafael - 3 de maio de 2013

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    Silvany Marquez
    Belo texto Rafael Lovato!!!

  9. Rafael - 3 de maio de 2013

    Via FACEBOOK
    Eduardo Ramos
    Li, “Joshua” – rs – apenas duas vezes, essa é a terceira. Já te falei que além de bem escrito, uma das coisas que mais me chamou a atenção e me fez gostar, é a linguagem simples, a intenção “proposital” de limitar uma erudição ou filosofar que não atingisse o “leitor comum”, as pessoas com pouco estudo literário, 90% dos brasileiros. Prossegue!!! Abraço!

    • Rafael - 3 de maio de 2013

      Obrigado pelas gentis palavras, meu amigo Eduardo Ramos. Grande abraço

  10. Rafael - 3 de maio de 2013

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    Heloiza Averbuck
    Muito bom Rafael! 🙂

    • Rafael - 3 de maio de 2013

      Bjo minha sempre gentil amiga Heloíza.

  11. Rafael - 3 de maio de 2013

    Via FACEBOOK
    Eduardo Lovato
    …magna gladium in manu forti! Abraço Mano veio!

    • Rafael - 3 de maio de 2013

      Bjão meu mano querido!

  12. Rafael - 3 de maio de 2013

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    Elis Cristina Castro Pfingstag
    Muito bom texto, excelente reflexão…

    • Rafael - 3 de maio de 2013

      🙂 Bjão!

  13. Rafael - 3 de maio de 2013

    Via FACEBOOK
    Andréa Prochnow Saenger
    Como seria bom se todas as pessoas tivessem um Joshua por perto…

    • Rafael - 3 de maio de 2013

      MInha amiga Andréa Prochnow Saenger, vc é muito gentil. Só há Joshuas por existir pessoas amigas e queridas como vc!

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