<strong>Contos</strong>

Contos

Além de ser romancista, R. Lovato foi um dos premiados no Panorama 2010/2011 da FC do B com o conto Nulla in mundo pax sincera, publicado em dez/2011.

Também foi premiado com o conto A moeda humana do Banco Central no concurso Nossos Valores na I Semana Organizacional do Banco Central do Brasil.

Anomalias

 

Katashi Otomo olhava, de seu gabinete no 78º andar, as luzes dos rovercars flutuando na tardinha de Tóquio. Pensava que, finalmente, poderia realizar seu sonho dos tempos de garoto. Sentar no banco de uma praça e olhar as estrelas, exatamente como fazia com seu pai, setenta anos atrás.

Antes das anomalias aparecerem.

- Boa noite senhor Otomo, e, mais uma vez, parabéns! – e Hikari deixou-o sozinho.

Era noite de comemoração para todo o mundo. Uma hora atrás, recebeu o telefonema do cientista-chefe informando que a última anomalia desapareceu, o que significava que seu optante falecera. Katashi deveria se sentir eufórico, pois, foi isso que perseguiu por quase seis décadas: a extinção das anomalias. E estaria muito contente, não fossem os sonhos com a jovem menina, Miyoko, como a apelidou. Sonhos inocentes, mas que não conseguia decifrar. Só o que possuía certeza era que Miyoko era a chave para compreender completamente as anomalias.

Enquanto o sol desaparecia no horizonte, lembrou que os problemas começaram quando tinha onze anos. Quer dizer, começaram para ele, tornaram-se bem reais em sua vida. Era uma agradável noite de verão, exatamente como aquela ali, com céu límpido, e ele e seu pai saíram para uma caminhada. Pararam em uma praça, e, como de costume, sentaram em um dos bancos, com seu pai lhe mostrando as estrelas e constelações. E, então, sem qualquer aviso, Katashi ouviu um uivo horrível, e, no momento seguinte, seu pai se encontrava no chão, todo ensanguentado.

Katashi não demorou em compreender que o que ocorreu com seu pai, naquela noite, foi a materialização da fantasia de alguém. Fantasias!, pensou e sorriu, um sorriso de canto de boca, amargo. Quem imaginaria que, um dia, humanos desenvolveriam o poder de materializarem seus desejos e fantasias mais sórdidos? Talvez fosse efeito do cometa que passou raspando na terra na época, ou, quem sabe, obra de alienígenas ou mesmo deuses. Ninguém sabia ao certo, nem mesmo Katashi, o cérebro por detrás da grande caça aos optantes e suas anomalias.

Ainda calado e em pé defronte as vidraças de seu gabinete, sem se mexer, lembrava muito bem do dia de sua opção e das palavras de sua mãe, antes de fazê-la: “Não ceda às suas fantasias, meu filho. Não se deixe enganar pela possibilidade de um sucesso fácil. Seja você o dono de seu destino. Conquiste o seu futuro. Diga não”. E, naquela tarde, Katashi se deparou com a pergunta que todos os humanos eram confrontados quando completavam dezesseis anos: “Você quer que suas fantasias se tornem realidade?”.

Katashi disse não.

No entanto, muitos diziam sim, e o mundo inteiro pagou por isso.

Inclusive seu pai.

Mas aquilo era passado. Nos últimos sessenta anos, o severo controle governamental sobre a opção, monitorado atentamente por Katashi, aliado aos incentivos a dizer “não”, reduziram sensivelmente as anomalias. No último ano, foram relatados somente seis casos de ataque de vampiros, a fantasia mais popular de todas. E, naquela noite, o último optante por “sim”, desconhecido do governo, havia morrido. Sua anomalia, “um monstro”, como o chamavam, e que foi capturado, havia desaparecido da jaula em que se encontrava.

Sim, era noite de alegria e comemorações. Mas, e Miyoko? Onde aquela linda e graciosa menina entrava naquela história toda? E o que ela poderia contribuir para a compreensão das fantasias e suas anomalias, agora que se encontravam erradicadas? Devem ser somente sonhos sem sentido. Por que não posso, simplesmente, sonhar por sonhar?

Katashi se tornou famoso justamente por seus sonhos, verdadeiras e comprovadas premonições. Foi através deles que o governo iniciou a campanha da “opção” e conseguiu montar uma maneira segura de identificar os optantes e suas fantasias. Antes de Katashi, enquanto ninguém sabia quem era o dono da anomalia, muitos achavam graça de monstros e meteoros destruindo cidades. Mas, a graça terminou quando começaram as identificações, as prisões, multas e execuções.

Também com a ajuda dos sonhos de Katashi, descobriu-se que a materialização das fantasias, as chamadas anomalias, não acontecia antes de a pessoa completar dezesseis anos. Talvez por requerer maturidade, talvez por questões orgânicas, Katashi não sabia. Só o que sabia era que conseguiram controlaram as anomalias, controlando seus causadores: as fantasias humanas. Agora, finalmente, o mundo se encontrava livre delas. Especialmente pelo fato de que fantasiar não mais era uma faculdade. Optar por “sim” era sentenciar-se à morte. E dos pouquíssimos optantes não identificados, o último faleceu naquela tarde.

Enquanto descia ao térreo em seu elevador particular, algo que não usava há anos, pois sempre preferiu o rovercar, pensava em Miyoko e na frase que ela lhe dizia no sonho: “Ajude-me”. Pode não ser nada. Pode ser uma menina precisando de minha ajuda para qualquer coisa. Pode ser um sonho normal como qualquer outro.

No entanto, Katashi era famoso por seus sonhos. Verdadeiras premonições.

Quando saiu pela porta da frente do suntuoso prédio, encontrou as ruas de Tóquio lotadas de pessoas comemorando a segurança de saírem à noite, felizes com o tão esperado e anunciado fim das fantasias e suas anomalias. Confiante, Katashi se dirigiu ao parque mais próximo, aproveitando e respirando o ar da noite de verão, exatamente como fazia com seu pai, tantos anos atrás. Sentou-se em um dos bancos e olhou as estrelas, com o coração se enchendo de alegria e satisfação.

Cumpriu o prometido.

Seu pai estaria muito orgulhoso.

Então, ouviu:

- Ajude-me.

Lembrando-se de seu sonho, e querendo colocar um ponto final na questão das anomalias, Katashi levantou do banco e se dirigiu para a parte central do parque, de onde veio o pedido de ajuda. Andou vários metros até se encontrar sozinho, e ouviu novamente:

- Ajude-me.

- Onde você está? – perguntou, e foi quando sentiu algo agarrar seus ombros. No momento seguinte, encontrava-se deitado no chão, e via as estrelas. Estou sonhando?

Sem demora, os grandes olhos vermelhos de uma jovem menina ruiva apareceram em seu campo de visão.

Miyoko! 

E ela lhe encarava.

- Q-que idade você tem, m-menina? – Katashi perguntou.

- Treze.

- V-você viu o que ac-conteceu?

- Sim, tio. Desculpe.

E Miyoko escancarou a boca e Katashi viu enormes caninos, cheios de sangue.

O seu sangue.

- Mas voc-cê é tão jovem… Com-mo pode?

E, naquele momento, enquanto Miyoko mordia violentamente seu pescoço, Katashi compreendeu que podiam controlar humanos que optavam em fantasiar e criavam anomalias. No entanto, impossível refrear os que, simplesmente, nasciam assim.

"8" comentários em: Anomalias

  1. Carla Rocha - 14 de setembro de 2013

    Maravilhoso!!

    • Rafael - 14 de setembro de 2013

      :) Bjo Carla!

  2. Rafael - 27 de agosto de 2013

    Via FACEBOOK
    Luiz Ernani Souza
    Gostei muito. Onde tem mais desses?

    • Rafael - 27 de agosto de 2013

      Luiz, aqui na aba “contos” você encontra vários outros. Abração!

  3. Rafael - 27 de agosto de 2013

    Via FACEBOOK
    Heloiza Averbuck
    Texto impressionante Rafael!!!

    • Rafael - 27 de agosto de 2013

      Bjão minha querida Heloiza!

  4. Rafael - 27 de agosto de 2013

    Via FACEBOOK
    Dacyane Torres
    Demais!Se o conto já é show,imagine a novella,vá em frente!!

    • Rafael - 27 de agosto de 2013

      Que bom que gostou Dacyane, bjão!

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