<strong>O peregrino Joshua</strong>

O peregrino Joshua

Joshua é uma coluna com publicação semanal às quintas-feiras no Jornal Diário Regional e aos sábados no Jornal Folha do Mate.

Nela Rafael Lovato trata de temas cotidianos vivenciados por um velho peregrino, no início do século passado.

A série "O peregrino Joshua" está sendo publicada pela Editora Zap Book, e contará com ao menos 7 volumes, e que podem ser comprados no site www.zapbook.com.br

4 outubro 2013

A síndrome

*Recorte do quadro “O sonho” por Henri Rousseau.

 

O peregrino Joshua desconfiou que o dia seria muito quente quando acordou, pouco antes do alvorecer na pensão do vilarejo de Gato Pardo, suado e com calor. Sabia que, em geral, quando as madrugadas eram quentes daquela maneira, os dias costumavam ser ainda piores.

E sua desconfiança estava correta: o sol brilhava inclemente naquele início de tarde, e Joshua entrou em uma vendinha para beber algo e se refrescar. Sem demora, um homem falou:

– Estava aqui pensando que sinto pena desses índios acampados a alguns quilômetros daqui… O senhor os viu?

Joshua se aproximou do homem e colocou ambas as mãos sobre a bengala:

– Sim, sei de quem o amigo fala.

– Pois é. Vivendo em barraquinhas, sem banheiro, as crianças peladas… Sei lá, acho que o governo devia fazer algo a esse respeito.

– Concordo! – O proprietário da vendinha bradou.

O homem prosseguiu:

– Por que não trazê-los para a cidade e os civilizar? Seria muito melhor para eles, não é mesmo? Vivendo daquele jeito, uns pobre-coitados. O que o senhor acha?

Joshua olhou para o homem:

– Meu amigo, o que posso lhe dizer é que, olhando aqueles índios vivendo como vivem, praticamente alheios a nós, os homens supostamente civilizados, possuo dúvidas sobre quem deveria se inspirar em quem…

– Ah! O senhor é um naturalista?!

– Na verdade, sou questionador. Pergunto-me se não somos nós que precisamos de ajuda, vivendo escondidos no luxo, nos modernos automóveis, em nossa sociedade de mais-valia… Por que impor a outrem o fardo de um engajamento social, se dele não sente falta?

O homem colocou a mão no queixo:

– Hm…

– Quão mais fácil e cômodo é usar gravata e roupas caras a andar na selva descalço e com uma tanga? Olho para eles e não sinto pena, mas, vejo-os livres. Sem preocupação com horários, cobranças, dinheiro, trabalho, status, bens materiais…

– Pensando assim, o senhor tem mesmo razão.

Joshua olhou nos olhos do homem:

– Quisera eu ter o direito de abdicar de tudo isso aqui e me engajar na selva. Mas não posso, pois minha consciência me cobra outro papel. Minha vida civilizada roubou a pureza do espírito, a quase ingenuidade, a simplicidade, e me maculou. Sim, sucumbi e me transformei em um ser sociável, adestrado, atento aos interesses e demandas do meu meio. Infectei-me com a síndrome do homem civilizado. E, como se livrar disso?

– E eu que sei? O senhor é que falou essas coisas! E agora?

– Meu bom amigo, o que tento lhe dizer é que os verdadeiros prisioneiros somos nós. Nós é que necessitamos de ajuda. Nós é que precisamos ser mais índios. Nós é que definhamos… E, para tentarmos maquiar essa verdade latente, a cada dia queremos menos selvagens ao nosso redor, a cada dia queremos mais infectados pela nossa síndrome, pois assim não teremos medida de comparação e, então, nossa loucura parecerá normal – e Joshua colocou a mão no ombro do homem: – Mas, há alternativas, e minha verdade lhe digo: mude a maneira como você enxerga tudo o que é diferente do seu dia a dia, e lhe garanto que descobrirá um novo mundo.

"6" comentários em: A síndrome

  1. Rafael - 5 de outubro de 2013

    Via FACEBOOK
    Bagual Klein
    Absolutamente sensato… em certa parte do texto, uma frase resume o nosso dilema: “- Meu bom amigo, o que tento lhe dizer é que os verdadeiros prisioneiros somos nós. Nós é que necessitamos de ajuda. ” Será que teremos tempo, e juízo, para tanto ?

    • Rafael - 5 de outubro de 2013

      Abração meu amigo Bagual!

  2. Rafael - 4 de outubro de 2013

    VIA FACEBOOK
    Adriana Kiesel
    Uma grande verdade!

  3. Rafael - 4 de outubro de 2013

    Via FACEBOOK
    Heloiza Averbuck
    Excelente, Rafael!

    • Rafael - 4 de outubro de 2013

      Bjo Heloiza!

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