<strong>O peregrino Joshua</strong>

O peregrino Joshua

Joshua é uma coluna com publicação semanal às quintas-feiras no Jornal Diário Regional e aos sábados no Jornal Folha do Mate.

Nela Rafael Lovato trata de temas cotidianos vivenciados por um velho peregrino, no início do século passado.

A série "O peregrino Joshua" está sendo publicada pela Editora Zap Book, e contará com ao menos 7 volumes, e que podem ser comprados no site www.zapbook.com.br

11 outubro 2013

Borboletas e mudanças

O peregrino Joshua ainda se encontrava no povoado de Gato Pardo. Aproveitou aquela tarde ensolarada para sentar em um banco na pracinha central e observar a vida revolucionar ao seu redor. Ao ver um dos modernos e barulhentos automóveis trafegar na rua principal, concluiu que a modernidade abraçava, em uma velocidade assustadora, o mundo.

Com esses pensamentos em mente, num dado momento uma senhora sentou ao seu lado, e, após as apresentações, ela comentou:

– Mudanças! Não sei onde isso tudo vai parar. A cada dia inventam coisas novas, e isso só faz eu me sentir ainda mais velha…

Joshua ajeitou a bengala entre os joelhos:

– E esse é o curso da vida, mas não é motivo para tristeza.

– Ora, claro que é. O que eu mais gostaria de poder fazer é voltar no tempo, uns cinquenta anos… Reviver momentos felizes e agradáveis. Reencontrar pessoas amadas – e ela deu de ombros. – Fazer o quê?

Joshua se ajeitou no banco:

– Minha amiga, o mundo e o tempo não são nem poderiam ser estáticos e imutáveis.

A senhora olhou para Joshua:

– Por quê?

– Pois é esta constante transformação que entrega evolução e desenvolvimento ao próprio mundo e aos homens. O mundo revoluciona e nós nos adaptamos a ele, em uma cadeia cíclica de reciclagem.

A senhora deu de ombros:

– Adaptar-se é indício de fraqueza, de inferioridade. E estou muito velha para isso.

– Que nada. Durante os séculos, não foi o mais forte que perdurou, mas o adaptável, aberto a mudanças. E quem entrega a evolução ao mundo novo é justamente o antigo que permanece.

– Hm… O que sei é que as borboletas se divertem enquanto eu espero a morte.

Joshua olhou nos olhos da senhora:

– Interessante que você falou de borboletas… Então, pergunto: o que seria delas se as crisálidas não se modificassem? Sim, pois a borboleta é a adaptação da crisálida ao novo mundo.

A senhora, apertando os olhos, encarou Joshua:

– O senhor é bem sensato.

– Pergunto mais: o que seria do mundo, se crisálidas desistissem de se adaptar? Ou se ela se resumisse a esperar a morte? – E a senhora esboçou um sorriso. – Eu lhe digo: a vida ficaria mais triste, e com menos sentido.

– Tá certo.

– Difíceis são as transformações e adaptações pelas quais passamos, especialmente quando envelhecemos. Mas, necessárias, para nós e para o mundo novo. Minha amiga, uma verdade lhe digo: a eternidade é o ciclo do ser, e quem deixa o mundo o faz tão somente para dar lugar ao novo – e Joshua continuava olhando nos olhos da senhora. – E, o mais importante: o antigo, o velho e muitas vezes obsoleto transforma-se, justamente, no cerne da transformação do novo, assim como inegável que borboletas, no imo, são formadas por crisálidas. Nunca se esqueça disso.

"6" comentários em: Borboletas e mudanças

  1. Rafael - 12 de outubro de 2013

    Via FACEBOOK
    Vini Souza
    Ótimo texto

    • Rafael - 12 de outubro de 2013

      Abraço Vini!

  2. Rafael - 12 de outubro de 2013

    Via FACEBOOK
    Heloiza Averbuck
    Ótimo texto, Rafael, sempre nos levando a reflexão!

    • Rafael - 12 de outubro de 2013

      Bjo Heloiza!

  3. Vannessa Adriana - 12 de outubro de 2013

    Rafael Lovato, não resisti em não vir até aqui, pois tudo que fala em borboleta me chama a atenção verdadeiramente. E, te garanto que foi uma gratíssima surpresa me deparar com um texto tão maravilhoso, bem articulado, bem escrito, e o mais importante, passando uma mensagem de reciclagem não só superficialmente, mas interiormente. É certo que o mundo muda a cada dia, as coisas se modernizam, e as pessoas vão sentindo que as coisas estão conseguindo ir mais rápido, mais longe que elas mesmas, vão sentido-se atropeladas pelo novo… Mas, é muito importante que estejamos flexíveis as mudanças exteriores, mas, mais importante é que busquemos um amadurecimento, uma reciclagem, revisão de conceitos, de pensamentos, de sentimentos em relação às coisas, às pessoas, e a nós mesmos… Reciclar-se, amadurecer-se nem sempre significa envelhecer-se, mas uma renovação que pode trazer uma satisfação interna inimaginável… Parabéns!!! Beijos com carinho!!! Vannessa Adriana Butterfly

    • Rafael - 12 de outubro de 2013

      Bjão Vanessa!

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