<strong>O peregrino Joshua</strong>

O peregrino Joshua

Joshua é uma coluna com publicação semanal às quintas-feiras no Jornal Diário Regional e aos sábados no Jornal Folha do Mate.

Nela Rafael Lovato trata de temas cotidianos vivenciados por um velho peregrino, no início do século passado.

A série "O peregrino Joshua" está sendo publicada pela Editora Zap Book, e contará com ao menos 7 volumes, e que podem ser comprados no site www.zapbook.com.br

1 novembro 2013

A perpetuação de si mesmo

 

Após muitos dias de caminhada, na noite passada o peregrino Joshua chegou ao povoado de Gado Manso, e se alojou na pensão do vilarejo. Naquela manhã, enquanto aguardava junto à janela da cozinha a feitura do café, a proprietária da pensão, uma velha e falante senhora, indagou-lhe:

– …E o senhor nunca pensou em ter filhos?

– Já os tive sim, em outra vida.

– E o que houve?

– É uma longa história.

– Hm… – E a senhora colocou mais uma acha de lenha no fogo do fogão. – Eu, por exemplo, tenho seis! Minha vida seria muito triste sem eles… Filhos completam a gente, sabe? Sinto orgulho deles… Só quem tem um filho pode entender o que quero dizer.

Joshua, com ambas as mãos escoradas sobre a bengala, virou-se para a senhora:

– Durante os longos anos de minha vida, muitas pessoas me perguntaram qual o motivo de eu não ter uma família, esposa, filhos…

– É uma boa pergunta.

– E todas elas, sem exceção, demonstraram o quão gratificante é tê-los e o quão importante eles são para o crescimento do ser humano, pois pais e mães precisam ser atenciosos, amorosos, pacientes. E, acima de tudo, para terem filhos, precisam abrir mão de seu egoísmo intrínseco, de sua intolerância, o que conduz à evolução.

A velha senhora se levantou e bateu as mãos, certamente limpando a poeira deixada pela acha de lenha:

– Educar e cuidar de filhos é uma tarefa das mais importantes e da mais alta responsabilidade! Sim, pois erigimos o caráter de um semelhante, construímos as bases sobre as quais ele estruturará sua vida. Além de que é gratificante olhar para alguém e ver um pouco da gente.

Joshua deu um passo na direção da velha senhora:

– Não tenho dúvida. O que são os filhos, senão o espelho de seus pais, não é mesmo?

A velha senhora olhou para Joshua:

– Amém.

– E é por essa razão que muitos, ao crescerem, não raramente se transformam em seus próprios pais, que foram o seu modelo. Não que isso signifique que filhos sejam uma cópia de seus pais e sim que possuem o mesmo cerne.

– Entendi, e concordo com o senhor.

Joshua deu mais um passo na direção da velha senhora:

– E, para mim, isso é ser um descendente: perpetuar o verdadeiro âmago de seus pais, mantendo viva a sua essência. E é por isso que a verdadeira condição de filho transpõe o vínculo sanguíneo e ultrapassa a matéria, sendo muito mais uma ligação espiritual, de diretrizes e de ensinamentos.

A velha senhora coçou a cabeça:

– Mas… E o que isso tem a ver com o fato do senhor não ter filhos?

Joshua olhou nos olhos dela:

– Vivi outra vida, que terminou tragicamente, e hoje sou outro homem. Assumi a peregrinação para levar a todos o que penso e sinto. E, desde então, cada pessoa que me escuta, cada alma que eu toco é um pouco de mim que se perpetua. Cada gesto bom e caridoso que minha filosofia oportuniza e incentiva, é um pouco de mim refletindo em um dos meus descendentes – e Joshua colocou a mão no ombro da velha senhora: – É por isso que minha verdade lhe digo: filhos? Tenho muitos. 

"6" comentários em: A perpetuação de si mesmo

  1. Rafael - 1 de novembro de 2013

    Via FACEBOOK
    Maria Helena Mendonça Quinhones
    Muitas vezes somos pais sem ter tido filhos.

  2. Rafael - 1 de novembro de 2013

    Via FACEBOOK
    Tandrinha Andrade
    Adorei a dica de leitura! prendeu me do começo ao fim

    • Rafael - 1 de novembro de 2013

      Bjão Tandrinha!

  3. Rafael - 1 de novembro de 2013

    Via FACEBOOK
    Heloiza Averbuck
    Belo texto, amigo Rafael!

    • Rafael - 1 de novembro de 2013

      Bjão minha querida amiga Heloiza!

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