<strong>O peregrino Joshua</strong>

O peregrino Joshua

Joshua é uma coluna com publicação semanal às quintas-feiras no Jornal Diário Regional e aos sábados no Jornal Folha do Mate.

Nela Rafael Lovato trata de temas cotidianos vivenciados por um velho peregrino, no início do século passado.

A série "O peregrino Joshua" está sendo publicada pela Editora Zap Book, e contará com ao menos 7 volumes, e que podem ser comprados no site www.zapbook.com.br

29 novembro 2013

Os porquês e os sabiás

Há dias o peregrino Joshua se encontrava no vilarejo de Salto Longo. Naquela quente tardinha, sentado em uma cadeira de balanço na varanda da pensão, acompanhava o lento descer do sol em direção ao horizonte. Relembrava tempos de garoto, quando seu avô se balançava por horas em uma cadeira como aquela, quando, repentinamente, uma voz feminina às suas costas comentou:

– O senhor é o peregrino de quem todos falam, certo?

Joshua parou o balançar e se virou na direção do som:

– Sou um peregrino, disso não há dúvida.

A adolescente parou em pé ao seu lado:

– Então, queria perguntar uma coisa. O senhor passa a vida caminhando por aí, conversando com as pessoas e tal. E por que o senhor faz isso? Não sente falta de sua casa? O senhor não tem família?

Joshua se levantou da cadeira e se escorou na bengala.

– Minha jovem amiga, todos sentimos falta de algo ou alguém. É um sentimento que nos acompanha a vida inteira, independente do lugar em que nos encontrarmos.

A adolescente coçou o queixo:

– Hm… Como assim?

– O que quero dizer é que, todos os dias,  somos saudosos de muitas coisas: de lugares, cheiros, sorrisos, momentos, pessoas… E não é diferente comigo.

– Então! Por que o senhor não volta pra casa?

Naquele momento Joshua escutou um sabiá da praia cantar perto dos dois, e olhou nos olhos da adolescente:

– Você está ouvindo esse pássaro cantando? – E a adolescente aquiesceu com aceno de cabeça. – Pois assim é a vida. Só estamos ouvindo esse belo canto, pois o sabiá voou até próximo de nós…

A adolescente deu de ombros:

– Tá, mas e o que isso tem a ver?

– Tudo. Devemos nos questionar regularmente se o que fazemos de nossa vida é o que realmente gostaríamos e deveríamos. Nossos dias neste mundo devem fazer sentido para nós mesmos.

A adolescente cruzou os braços:

– Não tô entendendo mais nada!

Joshua deu um passo na direção dela:

– Minha jovem amiga, caminho pelo mundo para levar o meu canto até quem o queira ouvir, assim como esse sabiá que voou para perto, para podermos ouvi-lo.

A adolescente descruzou os braços:

– Ah, entendi. Mas, e como fica sua família? Não é muito ruim assim, andar sozinho por aí?

Joshua deu mais um passo na direção da adolescente:

– Claro que existem sacrifícios nessa vida que escolhi. Mas essa é a minha vida, minha estrada. Se eu não fosse quem eu deveria ser, qual seria o amor que meus familiares teriam por mim, acaso eu não tomasse meu lugar no mundo, não fosse eu mesmo? – E Joshua colocou a mão no ombro da adolescente. – E é por isso que minha verdade lhe digo: todos amamos o canto das aves, não é mesmo? Então, pergunto: o que seria do mundo se os sabiás fossem egoístas e não se sacrificassem pelos outros, somente cantando para si mesmos? E o principal: o que seria dos próprios sabiás?

"8" comentários em: Os porquês e os sabiás

  1. Rafael - 3 de dezembro de 2013

    Via FACEBOOK
    Luís Francisco Huyer
    Mt bom!

  2. Roberto Fraga - 2 de dezembro de 2013

    Um texto com formar conteúdo, e que nos remete ao interior de nós mesmos onde guardamos os questionamentos que, paradoxalmente, dão sentido à vida

    • Rafael - 3 de dezembro de 2013

      Abração Roberto!

  3. Rafael - 29 de novembro de 2013

    Via FACEBOOK
    Adriana Kiesel
    Gosto muito de ler o que você escreve, sempre nos remete à uma situação que vivenciamos ouvimos falar.

    • Rafael - 29 de novembro de 2013

      Que bom minha querida Adriana Kiesel, bjão!

  4. Rafael - 29 de novembro de 2013

    Via FACEBOOK
    Heloiza Averbuck
    Lindo!

    • Rafael - 29 de novembro de 2013

      Bjão Heloiza!

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