<strong>O peregrino Joshua</strong>

O peregrino Joshua

Joshua é uma coluna com publicação semanal às quintas-feiras no Jornal Diário Regional e aos sábados no Jornal Folha do Mate.

Nela Rafael Lovato trata de temas cotidianos vivenciados por um velho peregrino, no início do século passado.

A série "O peregrino Joshua" está sendo publicada pela Editora Zap Book, e contará com ao menos 7 volumes, e que podem ser comprados no site www.zapbook.com.br

26 agosto 2014

O viver terreno

Desde a criação, Caronte era o barqueiro encarregado pela travessia dos rios da vida, Styx e Acheron. Seu preço era uma moeda de ouro, e ele sempre chegara ao mundo dos homens navegando seu barco em turvas e turbulentas marés.

Durante os muitos milênios navegando naquelas águas, de remada em remada uma reflexão recorrente povoara o intelecto de Caronte. E essa reflexão era sobre os homens e as marés da vida, e sobre a possibilidade de remar seu barco através de águas calmas e cristalinas. Então, após muito considerar e sopesar, em resposta à sua reflexão, ele decidiu escrever as crônicas de Joshua.

Quem soubesse quem era Caronte, definitivamente, perguntaria-se por que gastava seu tempo escrevendo histórias, pois deveria se ocupar cuidando de seus afazeres. Ainda, poderiam completar que esses afazeres eram muito mais importantes do que contar histórias, e quem pensasse assim, não deixaria de estar um pouco correto.

No entanto, foi através destas histórias que Caronte pode demostrar aos homens que as águas onde navegavam, após deixarem aquele mundo, não dependiam do barqueiro. Dependiam, sim, do modo como viveram suas vidas, e, por esse motivo, os justos, caridosos, bons, não deveriam temer a travessia dos rios Styx e Acheron, quando seu tempo finalmente chegasse.

 Muitos poderiam indagar, também, o porquê de Caronte escolher contar aos quatro ventos as histórias de Joshua. Bom, ele possuía motivos. Conhecia cada uma das pessoas que buscava no atracadouro dos rios das marés da vida, das quais acompanhava os minutos vividos desde o momento de abrirem os olhos ao de fechá-los. De todos os fragmentos de memórias de dias passados, vários deles Caronte compreendera como interessantes. Mas, poucos ele considerou como de disseminação realmente indispensável à perpetuação cíclica do nascer dos homens. E, um deles em particular, ele vivenciou justamente através dos olhos de Joshua.

O que aconteceu, e que chamou tanto a atenção de Caronte, aconteceu em uma noite de primavera, na qual morna brisa soprava. Joshua, à época um jovem recém-saído da adolescência, encontrava-se agachado na cozinha de sua modesta casa, alimentando o fogo do fogão à lenha, para aquecer o jantar. Pensava sobre a vida e os homens, e sobre seus planos para o verão vindouro, satisfeito com a bela e agradável noite. Confiava ser senhor de si mesmo, e que dependia somente dele próprio para vencer na vida.

Então, ao se levantar, valendo-se da potência física de suas pernas firmes e jovens, nas quais confiava sem qualquer hesitação ou dúvida, ouviu um estalo. Imediatamente, uma dor lancinante atacou seu joelho, a ponto de prostrá-lo ao chão, em agonia.

Nos dias vindouros, com o joelho bastante inchado doendo intermitentemente e incapaz de firmar o pé ao chão, percebeu que sua enfermidade não se curaria per se. Inegável que precisava procurar ajuda. Assim, pediu que lhe levassem à cidade vizinha, pois no vilarejo no qual morava não havia doutor. Ainda, intimamente, reafirmava para si mesmo que se tratava de desventura passageira, e que logo retomaria as rédeas de sua vida.

Chegando ao doutor, qual não foi, então, seu infortúnio, quando veio à sua sapiência que o ocorrido com o joelho era algo terrível. “Muito sério e irremediável” foram as palavras do doutor, o qual complementou: “Precisará lidar com isso o resto de sua vida”.

Após aquela inesperada revelação, Joshua voltou a casa, pensativo. Homem jovem que era, cheio de vida e anseios, compreendeu o joelho doente como grilhão. Doía dia e noite, caminhadas eram suplício, não mais encontrava paz. O que faria de sua vida? Como cumpriria com suas obrigações? E, mais: como poderia viver, dependendo de ajuda alheia?

E foi assim que um algoz adentrou a sua vida: a bengala, que era tanto amiga quanto inimiga. Sem ela não conseguia andar, e com ela não podia voltar ao que era: livre, forte e saudável. Ela, de um lado, dava-lhe suporte, e de outro o lembrava de seu aleijão. Ela diminuía a dor do joelho, mas castigava sua mão, machucando-a e a calejando.

Joshua, sozinho no mundo e, agora, doente e aleijado, não mais sabia o que fazer. Ainda assim, mesmo diante daquela periclitante situação, ele buscou encher seu coração de esperança, exercitando a temperança e se pondo a sonhar e esperar.

Esperava por um amanhã melhor, sem dor e sem bengala. Sonhava com corridas de liberdade, com sôfregos de tenacidade e higidez física. E era por isso, esperançoso e acreditando nesses sonhos, que, todos os dias ao acordar, tentava apoiar o pé ao chão, na esperança de não mais existir a dor, o aleijão. De seu algoz desaparecer de seus dias. De ser, novamente, livre e senhor de si, reavendo sua juventude, sua vida.

No entanto, todos os dias, ao colocar o pé ao chão, o carrasco sorria e o joelho lancinava. E, sem opção, os calos da mão dolorida de Joshua reencontravam a conhecida bengala. Aquele era o momento do dia em que mais refletia sobre o motivo de sofrer tal penalização. O que fizera de tão errado para merecer tal grilhão? Por que lhe roubaram a juventude, a vida? Por quê? Já não sofrera o suficiente perdendo os pais, tão jovem? Já não era castigo bastante ser sozinho no mundo?

Então, em uma manhã na qual seu joelho doeu mais do que todos os outros dias somados, e os calos de sua mão latejavam, e que a solidão, a falta, a perda e o desespero faziam casa em seu coração, Joshua pensou em desistir.

E foi quando um anjo pousou em seu ombro.

A primeira questão que lhe veio à mente foi que, mesmo que quisesse, não possuiria forças para carregar o anjo. Não na condição aleijada em que se encontrava. O Joshua de outrora, o homem jovem, forte, hígido, aquele sim poderia vencer qualquer obstáculo, até mesmo carregar mil anjos sobre os ombros! Bons tempos de outrora… E, ademais, não conhecia tal ser celeste, e não sabia de seus afazeres ou motivos.

Então, incapaz de suportar ainda mais aquele peso sobre o doente joelho e calos de sua mão, Joshua pediu, educada e encarecidamente, que o anjo o deixasse. E, não que concluísse que não gostava de sua companhia ou que pensasse pouco dele, e sim que restava um homem aleijado e sem forças. Mesmo, até, sem vida, e que o anjo, certamente, possuía pessoas mais vívidas para acompanhar.

Mas, o anjo não foi embora. O que ele fez foi conversar:

– Joshua, na vida terrena, os caminhos são tão longos quanto vós os reconheceis, e a dor do viver é tão grande quanto o espaço que lhe dais em vosso coração. Além disso, os obstáculos do viver não são maiores do que a dimensão dada por vossos próprios olhos. Dimensionais corretamente vossa vida, vossos passos, vossos caminhos, e compreendeis as limitações de vosso corpo terreno. Assim, eu jamais deixarei o vosso lado. E, nos dias em que a dor do viver vos parecer imensa, que vossas forças fraquejarem, então, eu vos emprestarei minhas asas.

E foi a partir daquela conversa que Joshua compreendeu que muitos dos desfortúnios e das mazelas da vida dependiam de como os encarava. Além disso, que as limitações de seu corpo não deveriam impossibilitar que trilhasse seu caminho. E, o principal: que, na vida terrena, todos precisavam de auxilio, tanto de uma simples bengala quanto das asas de um anjo. O mais importante não era olhar para si e esperar, chorar ou se desesperar com acasos e má sorte. Mas, sim, independente das dificuldades pelas quais passasse, levantar e seguir caminhando. Isso era viver, isso era ser humano.

Caronte, entre remadas em seu barco, não se cansava de rever tais fragmentos de memória através dos olhos de Joshua. E foi por isso, conforme prometido, que não muito tempo após o retorno de André Luís do atracadouro dos rios das marés da vida portando as primeiras crônicas de Joshua, que Francisco seguiu os seus passos, regressando ao mundo dos homens.

Em suas mãos, ele portava mais Crônicas do peregrino Joshua, escritas por Caronte.

"8" comentários em: O viver terreno

  1. Rafael - 27 de agosto de 2014

    Via FACEBOOK
    Karla Nyland
    Maravilha de texto.

    • Rafael - 27 de agosto de 2014

      Beijos Karla!

  2. Rafael - 26 de agosto de 2014

    Via FACEBOOK
    Norton Campos
    Espetáculo,meu querido Rafael Lovato,até Joshua,está feliz,assimo como todos nós,teus admiradores!!!!!!! Abracão

    • Rafael - 26 de agosto de 2014

      Abraço meu amigo Norton!

  3. Rafael - 26 de agosto de 2014

    Via FACEBOOK
    Dalci Bassanelli
    Parece ser muito bom.

    • Rafael - 26 de agosto de 2014

      Beijo Dalci

  4. Rafael - 26 de agosto de 2014

    Via FACEBOOK
    Ana Claudia Marques
    Que maravilha! Teu Joshua é uma inspiração!

    • Rafael - 26 de agosto de 2014

      Que bom ouvir isso Ana!

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