<strong>O peregrino Joshua</strong>

O peregrino Joshua

Joshua é uma coluna com publicação semanal às quintas-feiras no Jornal Diário Regional e aos sábados no Jornal Folha do Mate.

Nela Rafael Lovato trata de temas cotidianos vivenciados por um velho peregrino, no início do século passado.

A série "O peregrino Joshua" está sendo publicada pela Editora Zap Book, e contará com ao menos 7 volumes, e que podem ser comprados no site www.zapbook.com.br

8 setembro 2016

Tempo para si mesmo

O peregrino Joshua, após incontáveis amanheceres abraçado à solitude, enfim encontrou forças para retornar ao mundo dos homens. Apesar de regozijar em conversas, no convívio diuturno, em caminhadas em meio aos seus pares, o exílio permanecia amigo indispensável de sua sanidade.

De tempos em tempos, imperioso que se encastelasse para recompor suas forças, alimentar seu espírito.

Com passos lentos, mas decididos, apoiado em sua bengala, ele chegou ao vilarejo de Nuvens Brancas e subiu os seis degraus de acesso à varanda da pensão. Nela, deparou-se com um homem sentado em uma cadeira, que de pronto comentou.

– O senhor não é o peregrino de quem tantos falam por aqui?

Joshua parou e olhou para o homem.

– Talvez. Mas, quem sabe eu seja simplesmente mais um homem.

O homem bateu uma das mãos sobre o joelho, e falou ao se levantar.

– Mas, ah! Só um peregrino responderia algo assim. Sabe que foi Deus quem enviou o senhor aqui?

– O que levou o amigo a esta conclusão?

– Ora, eu estava aqui indignado com a vida, quase afogando nos meus pensamentos, sabe? Pois é, aí o senhor chegou. Com certeza é quem pode me ajudar.

Joshua escorou ambas as mãos sobre a bengala.

– Qual é o mal que lhe aflige?

– Na verdade não é um mal… Mas não deixa de ser, né? Então, eu fazia parte deste grupo de amigos, nos reuníamos todas as semanas durante muitos anos. Eu sempre organizava os encontros, era o primeiro a chegar, preparava os jantares. Sempre, sempre oferecia um ombro amigo quando precisavam.

– Entendo.

– Aí um ano e meio atrás eu passei por uns problemas pessoais, e precisei me afastar do grupo. Necessitava de um tempo para mim mesmo, o senhor entende?

– Perfeitamente.

O homem olhou para Joshua cerrando os olhos.

– Acredita que eles sequer me procuram neste tempo todo? Ninguém! Não perguntam como estou, nada. Simples assim, esqueceram que existo. O que eu fiz para merecer este descaso?

Joshua deu um passo na direção do homem.

– Talvez, não haja desapreço. Quiçá eles estejam respeitando o seu desejo de isolamento.

O homem colocou ambas as mãos na cintura.

– De onde o senhor tirou esta ideia?

Joshua deu mais um passo na direção do homem.

– Ao que me contou, parece-me que o amigo era peça importante do grupo, ocupando uma posição de destaque.

O homem coçou a cabeça.

– É… Acho que sim.

– Por razões que não concerniam ao círculo de amigos, resolveu se afastar, não é mesmo?

O homem cruzou os braços.

– Exato. O que isso tem a ver?

Joshua olhou nos olhos do homem.

– Quem sabe, foi o amigo quem abandonou seus pares. Agora, em respeito à sua decisão, parece-me que eles lhe concedem o tempo sozinho que você conquistou e requisitou.

O homem descruzou os braços.

– Sabe que não havia pensado desta maneira? O que eu posso fazer, então?

– Meu amigo, nesta nossa vida, a grande maioria das questões interpessoais se resolve com uma franca conversa – e Joshua depositou a mão sobre o ombro do homem. – É por isso que minha verdade lhe digo: se você sente falta de seus amigos, não há razão para indignação ou melindre: basta procurá-los. Não possuo dúvidas de que honrarão a posição que outrora o amigo conquistou, recebendo-o de braços abertos.

"4" comentários em: Tempo para si mesmo

  1. Rafael - 9 de setembro de 2016

    Adelaide Reys
    Texto excelente para uma boa reflexão!

    • Rafael - 9 de setembro de 2016

      Beijos Adelaide!

  2. Rafael - 8 de setembro de 2016

    Heloiza Averbuck
    Belo texto!

    • Rafael - 8 de setembro de 2016

      Beijão minha querida amiga Heloiza!

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