<strong>O peregrino Joshua</strong>

O peregrino Joshua

Joshua é uma coluna com publicação semanal às quintas-feiras no Jornal Diário Regional e aos sábados no Jornal Folha do Mate.

Nela Rafael Lovato trata de temas cotidianos vivenciados por um velho peregrino, no início do século passado.

A série "O peregrino Joshua" está sendo publicada pela Editora Zap Book, e contará com ao menos 7 volumes, e que podem ser comprados no site www.zapbook.com.br

16 setembro 2016

Ecos de uma infância perdida

O peregrino Joshua andava a passos lentos pelas ruas de Nuvens Brancas observando o sol se por atrás das montanhas que circundavam o vilarejo. Precisou apertar um pouco mais o cachecol em volta do pescoço em virtude do vento, ao mesmo tempo em que refletia sobre a vida e os homens. Quando se avizinhava da pensão, deparou-se com uma mulher chorando sentada na varanda de uma casa. Joshua cessou sua caminhada, e aguardou que a mulher olhasse para ele.

– A senhora precisa de auxílio?

A mulher enxugou as lágrimas dos olhos com um lenço que segurava nas mãos.

– Ninguém pode me ajudar. Mas, obrigada assim mesmo.

Joshua não desistiu.

– Então, permita-me lhe fazer companhia. Ao menos até que a amiga encontre um pouco de tranquilidade.

– Pode ser – a mulher respondeu e com um gesto convidou Joshua para sentar ao lado dela na varanda.

Ele atendeu. Após vários momentos de silêncio, um pouco mais calma, a mulher comentou que, dentre outras questões, perdera seu pai de modo inesperado dois dias atrás, e prosseguiu.

– Nós nos desentendemos no divórcio dele com mamãe, muitos anos atrás. Perdemos contato desde então. Nunca mais sequer conversamos.

– Entendo.

– Pois é. Agora ele se foi. E há tanto o que eu gostaria de dizer para ele! – A mulher recomeçou a chorar. – Lembro-me de minha infância, nossas pescarias, os finais de semana acampando… Não tem volta. Perdi meu pai. Para sempre.

Joshua ajeitou a bengala entre os joelhos.

– Não possuo dúvida de que a amiga ainda possui muitas maneiras de se conectar com seu pai.

A mulher parou de chorar e olhou para Joshua.

– Eu não acredito nisso não, meu senhor.

– Ao que a amiga se refere?

A mulher deu de ombros enxugando mais uma vez os olhos com o lenço.

– Espíritos, além, falar com mortos, reencarnação. Essas coisas.

– Não é a isso que me refiro.

A mulher cruzou os braços.

– Não? Então, como poderia falar com ele? Afinal, também não posso voltar atrás no tempo…

Joshua olhou para a mulher.

– A amiga comentou que ele formou outra família, filhos, toda uma vida da qual você não teve qualquer contato, não é mesmo?

– Sim, é verdade. O que isso tem a ver?

Joshua depositou ambas as mãos sobre a bengala.

– Fato é que, nesta nossa vida terrena, jamais somos ou estamos sozinhos. Permanecemos através de nossos atos de bondade, dos amigos que conquistamos, de ideias concretizadas, de memórias de um passado ainda presente em lembranças…

A mulher descruzou os braços.

– O que o senhor quer dizer?

– Minha amiga, quero dizer que você sempre poderá contatar seu pai através da nova família que ele criou, de memórias que eles podem lhe proporcionar, de seguir seus passos e ensinamentos, de manter viva sua memória, de festejar o homem que ele foi e que é para você mesma – e Joshua olhou dentro dos olhos da mulher. – E é por isso que minha verdade lhe digo: um pai vive através de seus filhos, de sua família. Reassuma sua posição de filha, e não possuo dúvidas de que ele jamais deixará o seu lado.

"8" comentários em: Ecos de uma infância perdida

  1. Rafael - 16 de setembro de 2016

    Ulisses Augusto Bittencourt Dalcól
    Caro Rafael seus textos expressam com sentiu-se o grande conhecimento que tem da vida, de forma magnífica e ao mesmo tempo singela. Um grande abraço!!!!

    • Rafael - 16 de setembro de 2016

      Abração!

  2. Rafael - 16 de setembro de 2016

    Juracy Michelin Barban
    Amo o Joshua .

    • Rafael - 16 de setembro de 2016

      Beijos Juracy!

  3. Rafael - 16 de setembro de 2016

    Heloiza Averbuck

  4. Rafael - 16 de setembro de 2016

    Vera B Lisbôa Coletti Oi Lovato!
    Tudo bem!?
    Estava aqui pensando em adquirir teus livros, para eu e a Bia lermos.
    Ah, adoro acompanhar o crescimento dos gatinhos de vocês e muito legal tua idéia de fazer o trajeto a pé p o trabalho, registrando as belezas do caminho, q passam desapercebidas por muito. Abraços
    Ah, 17 anos de formatura. Tá na hora de reunir essa turma.

    • Rafael - 16 de setembro de 2016

      Beijão Vera!

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