<strong>Contos</strong>

Contos

Além de ser romancista, R. Lovato foi um dos premiados no Panorama 2010/2011 da FC do B com o conto Nulla in mundo pax sincera, publicado em dez/2011.

Também foi premiado com o conto A moeda humana do Banco Central no concurso Nossos Valores na I Semana Organizacional do Banco Central do Brasil.

Tenda de milagres de Allegra

Allegra observava o brilho das partículas de poeira flutuando dentro dos raios do sol matinal de verão que entravam através da janela da Biblioteca da Universidade de East Anglia. Exceto por aqueles pequenos flocos dourados dançando no ar, que a conectavam todos os dias por alguns minutos à uma juventude e glória há muito perdidas, ela não possuía razões para permanecer em um mundo ao qual ela não mais pertencia.

Desde seu nascimento, Allegra viu a humanidade se transformar de maneiras inacreditáveis, desde pousar na lua a colonizar Marte. Ela ainda recordava o primeiro dia em que o sol veio brincar com ela dentro daquelas paredes lá em 1968, quando inauguraram a Biblioteca. Allegra era jovem e encantadora, e todos a conheciam. Ela conquistava novos amigos diariamente. Aqueles foram os anos mais felizes de sua vida.

– Infelizmente, nada dura para sempre – ela murmurou.

Os anos passaram impiedosamente, povoando com estranhos o mundo ao seu redor. Allegra não conseguia acompanhar o rápido desenvolver da vida moderna, com seus computadores, Internet, e globalização. Há anos ela começara a gradualmente desaparecer. Logo, ela não seria mais ninguém.

– Não tem problema. Assim é o viver – ela disse ainda observando o movimento cadenciado de ir e vir das partículas de poeira.

Allegra não se adequava àquele Mundo Novo com sua tecnologia-de-ponta e expectativa de vida longa, mas carente de interesse na magia de contar histórias e em paixões. Ela estava até mesmo ansiosa para abraçar o esquecimento, e deixar o passado no passado. Era uma vez, Allegra estava no ápice de sua deslumbrância, cheia de vida, pronta para receber e conquistar qualquer estranho que viesse até ela para uma risada,  para provar o gostinho da saudade, ou para uma pitada de fascinação. Aquela energia não mais habitava seu espírito, entretanto, pois pertencia a um outro tempo. Atualmente, ela era velha e obsoleta. Tudo o que carregava em seu imo, ninguém mais precisava. Anos atrás, em uma manhã invernal sem sol, ela abraçou a solidão e o mundo aos poucos esqueceu que ela existia.

– Bom dia, Allegra – disse o Sr. Lovejoy, um de seus poucos amigos dos velhos tempos, trazendo Allegra de volta de seu transe. – Como está minha garota brasileira preferida?

A simples menção de sua herança cultural na pergunta do Sr. Lovejoy foi suficiente para intensificar, ainda mais, o gosto amargo de insucesso que o desvanecimento da vida entregava a Allegra. Sua mãe, uma escritora brasileira, não teve outra opção e precisou aprender a escrever em Inglês ao invés de sua língua nativa. No Brasil, ninguém no mercado livreiro levava escritores profissionais a sério. Ela então se mudou para o condado de Norfolk, Inglaterra, e lutou sua vida inteira por um lugar ao sol no Mercado editorial do Reino Unido, mas sem qualquer sucesso. Afinal de contas, ela era nada mais do que uma intrusa escrevendo em uma linguagem alienígena para ela. Agora, sua mãe há muito se perdera nas areias do tempo, como se ela nunca houvesse existido, e havia nada que Allegra pudesse fazer a respeito. Inequivocamente, sem demora Allegra seguiria os passos de sua mãe rumo à não-existência.

– Eu estou bem, – disse Allegra. – Obrigado por perguntar.

– Que bom – disse o Sr. Lovejoy. – Espero que não pense que sou intrometido, mas nas últimas duas outrês semanas eu estive refletindo. Gostaria de lhe perguntar uma coisa. Se você não se importar, claro.

– Sem problemas, pode peguntar.

– Você por acaso já reconsiderou sua decisão de se isolar de todos?

Allegra perguntou:

– De onde você tirou esta ideia de que eu me isolei?

– Você é minha amiga. É dolorido vê-la tão triste. Preocupo-me com você. Por favor, responda.

Allegra silenciou por um momento.

– O que você quis dizer com eu que me isolei de todos?

– Bem… Melhor dizendo, sua atitude de teimosamente se negar a conversar com estranhos.

– Não sou teimosa. Não é como se eu não quisesse falar com as pessoas.

– Claro que é! – Disse o Sr. Lovejoy.

– Claro que não! Estou aqui todos os dias e…

– Escondida em meio a todos estes livros.

– De maneira nenhuma. Somente fico na minha, mais nada. Não tenho culpa de o mundo ter mudando tanto a ponto de ser um total estranho para mim.

O Sr. Lovejoy perguntou:

– Você não acha que possa ser justamento o contrário?

– Como assim?

– Você é que se tornou uma estranha para o mundo ao seu redor.

– Mesmo que seja este o caso, nao altera o fato de todos terem esquecido de mim, pois não tenho mais nenhum gingado, nenhuma magia – disse Allegra.

– Isso não é verdade.

– Claro que é. Eu já fui sedutora, intoxicante, ninguém conseguia me recusar. Olhe ao que me resumi!

– Você ainda é poderosa – disse o Sr. Lovejoy.

– Não, não sou. Estou seca. Esgotada. Minha idade avançada me modificou.

– Ora, que conversa é essa? Sua idade não tem nada a ver com a história. O que mudou foi sua atitude para com as pessoas ao seu redor, só isso.

– Qual atitude?

– Ora, por exemplo, o que me diz do ocorrido no outro dia?

– Qual outro dia você diz? – Allegra perguntou.

– Aquele no qual o jovem simpatico veio até nós e você não levantou um dedo sequer para mostrar a ele do que você ainda é capaz.

– Do que sou capaz… Que bom se fosse verdade! Você é um amor, sabia? Mas, eu abandonei delírios de grandeza muitos anos atrás. Não sou mais o que eu era. Estou muito velha e cansada, Lovejoy.

– Por que você insiste neste argumento? O que sua idade tem a ver com qualquer coisa?

– Tudo! Eu nasci em uma era sem Rede Mundial de Computadores ou viagem espacial. Eu não sei mais como me comunicar com as pessoas, pois, não compreendo as mentes jovens com seus tablets e smartfones. Em virtude disso, claro que me falta força e confiança para encarar os estranhos que entram todos os anos através das portas desta Biblioteca. Não consigo me tornar interessante para eles. Apesar de eu ser a filha de minha mãe, não tenho mais nada a oferecer. Já sou muito afortunada por a Universidade não simplesmente me jogar fora.

O Sr. Lovejoy disse:

– Ah, você está exagerando. Há ainda muita magia dentro de você. Você está no auge de sua vida!

– Quem me dera! Como mamãe diria, ‘Não sou nada mais do que um barco à remos à deriva no meio de um mar tempestuoso’.

– Poético, mas bastante impreciso. Tenho certeza de que você na verdade é um poderoso barco à motor que insiste em usar remos. Só isso.

-Talvez você esteja certo – disse Allegra. – De quaquer modo, não adianta nada ficar me queixando dos infortúnios de minha vida. O que está feito, está feito. Não há nada que eu possa fazer acerca de meu destino. Ademais, tendo em vista que estou no meio de uma tempestade, pouca diferença faz qual tipo de barco eu seja.

– É claro que faz diferença!

– Por quê?

– Nossas atitudes alteram tudo em nossas vidas! Você ainda é a grande Allegra. Você somente se esqueceu.

– Você só está sendo gentil comigo.

– Não, não é isso. Quer saber? Tenho uma confissão a lhe fazer. – O Sr. Lovejoy disse: – Você sempre foi minha preferida.

– Você nunca me disse isso.

– É verdade. E, você sabe o motivo?

– Não faço a menor ideia.

O Sr. Lovejoy disse:

– Por causa de sua outrora atitude positiva com os recém chegados e sua habilidade em enfeitiçar estranhos. Durante o passar dos anos sempre me assombrou como você era capaz de, em poucos minutos de interação, transformar estranhos em seus mais íntimos amigos, ou de fazê-los se apaixonar perdidamente por você. Eu costumava observar com admiração você levar homens feitos às lágrimas, somente de olharem para você.

– Mesmo com todas as dificuldades, acho que mamãe sabia muito bem o que fazia quando me trouxe ao mundo. Sorte de principiante, sem dúvida.

– Minha querida, se eu sei alguma coisa nesta vida é que você não é um acaso do destino. Sua mãe sempre soube o que estava fazendo.

– Bem, não foi de grande valia para ela, não é mesmo?

– Ao menos ela não desistiu. Ela jamais abandonou seus sonhos – disse o Sr. Lovejoy.

– Verdade, mas ainda assim ela terminou a vida sem alcançar nenhum dos sonhos dela.

– Ela teve você.

Allegra não disse palavra por alguns segundos.

– OK, nisso voê tem razão. Mas, o que eu posso fazer? Não tenho como continuar o legado de minha mãe. Sou velha e esquisita, vivendo em um mundo cheio de estranhos que eu não compreendo. O melhor é simplesmente… Desistir.

– Minha querida amiga, não importa o quão estranho o mundo nos pareça, ou o quão esquisitos sejamos com ou para os outros – disse o Sr. Lovejoy. – A magia que carregamos em nosso interior é atemporal e desconhece limites. Allegra, a glória dos velhos tempos ainda habita você. Tudo o que você precisa fazer é mais uma vez espalhar o seu pó de pirlim-pim-pim. Estou certo de que todos os estranhos que vierem a você, sua beleza os enfeitiçará novamente.

– Você realmente acredita que eu ainda tenha esta força dentro de mim, Lovejoy?

– Claro que acredito – o Sr. Lovejoy disse. – Você acabou de dizer isso, então deixe-me lhe perguntar com toda seriedade: você é realmente filha de sua mãe?

– Sim, eu sou – Allegra dise sem hesitar.

– Então, não abandone os sonhos dela. Nunca se sabe quais oportunidades o próximo estranho pode estar trazendo consigo. Pode que seja o que você precisa para mudar o clima de sua vida e continuar o legado de sua mãe.

#

Após aquela conversa com o Sr. Lovejoy, Allegra viu, através das janelas da biblioteca, os galhos sem folhas darem lugar à neve. O novo semestre na Universidade trouxe rostos diferentes à biblioteca e o verde de volta às árvores. Foi o dia mais quente do ano, o dia responsável por trazer o sol de volta à vida de Allegra.

– Sim, sim, – Allegra ouviu a bibliotecária, Sra. Pickersgill, dizer enquanto se aproximava. – Está qui em algum lugar.

– Eu estou editando uma antologia, e a amiga de minha mãe, a Sra. Clarkson, disse que a história que estou procurando está neste livro – disse um senhor que Allegra nunca vira antes.

– É uma história encantadora, não há dúvidas – Sra. Pickersgill disse parando defronte a Allegra.

– Foi o que a Sra. Clarkson me assegurou.

– Ah, aqui está. Minha memória não falha! É de fato uma coletânia de contos de quase um século atrás – Sra. Pickersgill disse entregando o livro ao senhor.

– ‘Love’s joy’ – ele leu em voz alta. – Ou seja, ‘A alegria do amor’.

– A história que você procura está na página 52, se eu bem me lembro.

– Vejo que esta história deixou uma profunda marca na senhora.

– Ah sim, é um conto maravilhoso – Sra. Pickersgill disse.

– É de uma autora brasileira, certo?

– Isso mesmo.

– Aqui, página 52. ‘Tenda de milagres de Allegra?’ – O senhor perguntou.

– Esta mesma – disse a Sra. Pickersgill, confirmando com um movimento de cabeça.

Os olhos azulados do senhor encararam Allegra.

Desde aquela conversa com o Sr. Lovejoy, Allegra preparou-se para enfentar e conquistar todo e qualquer estranho que viesse a ela. Tudo do que ela precisava era de uma, só uma chance para provar que ela era a filha de sua mãe e a verdadeira possuidora de seu legado.

Allegra encarou de volta o senhor. Como ela o fez tantas vezes com intoxicante confiança em sua juventude, quando estranhos vinham até ela para uma risada, para provar o gostinho da saudade, ou para uma pitada de fascinação, ela olhou dentro da alma do senhor e perguntou enquanto abria a porta de sua tenda:

– Posso lhe oferecer um pouco de magia?

"4" comentários em: Tenda de milagres de Allegra

  1. Rafael - 19 de julho de 2018

    Bruxinhanaestrada.
    ❤️

  2. Rafael - 19 de julho de 2018

    Heloiza Averbuck
    Lindo texto ❤️

    • Rafael - 19 de julho de 2018

      Beijão minha querida!

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