<strong>O peregrino Joshua</strong>

O peregrino Joshua

Joshua é uma coluna com publicação semanal às quintas-feiras no Jornal Diário Regional e aos sábados no Jornal Folha do Mate.

Nela Rafael Lovato trata de temas cotidianos vivenciados por um velho peregrino, no início do século passado.

A série "O peregrino Joshua" está sendo publicada pela Editora Zap Book, e contará com ao menos 7 volumes, e que podem ser comprados no site www.zapbook.com.br

18 setembro 2018

Que sou eu?

Naquela manhã primaveril, o peregrino Joshua lançou mão de sua bengala e retomou sua caminhada através do mundo dos homens.

Tempos atrás ele havia se convencido de que sua peregrinação era despropositada. Ele não conseguiria mudar nada. O mundo era o que era. O melhor era se recolher e resumir-se à sua própria insignificância, morrendo em paz. Mas, uma crescente inquietação de sua alma o colocou em movimento uma vez mais.

Chegando no final da tarde no vilarejo de Tormenta, deparou-se com um homem sentado sobre a mureta de uma casa. A mão calejada de Joshua doía ao empunhar a bengala. Aquele era um momento tão bom quanto qualquer outro para descansar o velho corpo. Assim, em silêncio ele sentou-se ao lado do homem.

Após alguns momentos, o homem disse:

– Eu já nem sei mais o que sou. O senhor já passou por isso, uma confusão mental generalizada? De não conseguir distinguir entre amigos e inimigos?

– Todos encontramos dificuldades em nossas vidas – Joshua disse olhando o sol se pôr atrás das árvores de uma colina. – O importante é não desviarmos nossa atenção dos objetivos de nossa caminhada.

– Pois é. Este é o problema. Eu sempre acreditei que eu fosse de direita, sabe? Disciplina, ordem, tradição, estado forte, aceitava a hierarquia social como inevitável, mesmo natural. Era contra o assistencialismo, o laissez-faire, o ideal socialista, a economia descentralizada. Mas, eu sou a favor de estender a mão a necessitados, não me vejo diferente de uma pessoa com a cor de pele diversa da minha, penso que minha esposa merece os mesmos direitos e benesses que eu desfruto, e encaro o homossexualismo com naturalidade. Então, agora, eu sou esquerdista?

Joshua ajeitou a bengala entre os joelhos:

– Você é humano, nada mais, nada menos.

O homem se virou para Joshua.

– O que o senhor quer dizer com isso?

Joshua se virou para o homem.

– Quero dizer que o que há de mais terrível em seu semelhante não é pior do que o mal que habita você mesmo. Não é diferente com o bem. Nosso espírito é complexo, cheio de peculiaridades advindas de nossa metafísica, de nossas escolhas sobre o bem e o mal, sobre o que somos e o que faremos de nossas vidas. Isso erige nossa concepção de mundo.

O homem pôs-se em pé de um salto, dizendo enquanto cruzava os braços.

– Não sei se entendi o que isso tem a ver com minha frustração.

– Nenhuma política de governo é totalmente ruim ou boa, assim como nenhum homem o é. Há quase cinco mil anos o Taoismo nos demonstra isso através do Yin-Yang. Rótulos e posicionamentos extremos só levam à discórdia e desarmonia, não entregando evolução ou progresso. Os filósofos gregos já nos ensinavam que a virtude está na parcimônia.

– Eu nem sei o que isso significa.

Joshua se levantou com a velocidade que seu corpo permitia.

– Significa que a melhor escolha, sempre, não é esquerda ou direita, e sim o bom senso. Todos somos imperfeitos e suscetíveis a equívocos.

– Acho que sei o que o senhor quer dizer – o homem disse descruzando os braços.

– Meu amigo, o equilíbrio de tudo nesta vida está na tolerância. – Joshua olhou nos olhos do homem. – É por isso que minha verdade lhe digo: defenda o que você acredita, sem a necessidade de rotular escolhas. Esqueça partidos, governo, ideologias. Preocupe-se com o que a pessoa é, o que ela faz da vida, e como ela sempre agiu com você. Garanto que se você focar no caráter do indivíduo, esquecendo as máscaras que ele usa, a sua confusão passará, e você reencontrará a harmonia.

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