<strong>Contos</strong>

Contos

Além de ser romancista, R. Lovato foi um dos premiados no Panorama 2010/2011 da FC do B com o conto Nulla in mundo pax sincera, publicado em dez/2011.

Também foi premiado com o conto A moeda humana do Banco Central no concurso Nossos Valores na I Semana Organizacional do Banco Central do Brasil.

O golpe

Sr. Figueiredo estava suando cântaros. O calor dentro daquela sala o inchava ainda mais do que o usual. Ele aguardava para se reunir com o Sr. Cerveró. Ele precisaria da ajuda do Sr. Cerveró se realmente quisesse levar a cabo seus planos de mandar Roberto Baratta, também conhecido como O Chefão, dormir com os peixes.

Os Srs. Figueiredo e Cerveró trabalhavam sob o comando do Chefão há décadas. Após o que se repetiu mais uma vez na noite passada, o Sr. Figueiredo decidiu que não aguentava mais aquela vida. Não importava o que custasse, havia chegado o momento de pôr um ponto final na liderança temerária do Chefão. Ele estava comprometendo toda a operação. Sr. Figueiredo não aguentava mais viver sob a constante ameaça de não haver um amanhã, nem tolerava mais o abuso constante do Chefão o castigando durante todos aqueles anos. Para o Sr. Figueiredo alcançar seu objetivo, entretanto, havia pequenos problemas que ele precisaria resolver antes. Ele não fazia a menor ideia de como matar o Chefão. Ele nunca matara ninguém em toda a sua vida. Mesmo se ele soubesse como fazê-lo, faltava-lhe a força e constituição para consumar tal desejo nefasto. Para de fato fazê-lo, Sr. Figueiredo precisava de um bom plano. De um excelente plano, na verdade. E não havia ninguém melhor par ajudá-lo nisso do que o Sr. Cerveró, conhecido por sua inteligência avantajada.

– Ora, ora. Ao que devo o prazer da visita? – Perguntou o Sr. Cerveró.

– Precisamos ter uma conversa séria sobre O Chefão.

– Você está com uma aparência péssima.

– Como eu poderia parecer bem após tudo o que ele faz comigo? Ontem à noite ele estava bêbado feito um gambá novamente. Quando ele bebe, sou eu que levo as pancadas. Sou eu que vivo sempre inchado. Eu mal consigo fazer meu trabalho hoje em dia. E aí o Sr. Stombaugh põe as culpas em mim de ele também não conseguir fazer o trabalho dele.

– Entendo – disse o Sr. Cerveró.

– Escutei que até mesmo você passa sérias dificuldades para trabalhar quando O Chefão está acabado.

– É verdade. A operação toda desacelera. Hoje em dia eu trabalho a somente 60% da capacidade que eu trabalhava 20 anos atrás.

– Sim, foi o que eu ouvi falar – disse o Sr. Figueiredo. – Até onde eu entendi, a situação é irreversível. Vai só piorar de agora em diante, estou certo?

– É o que parece, sim.

– Viu só? Se a situação é complicada para você, que é o segundo no comando, imagine o que vai acontecer com um Cabo como eu!

– O Chefão é uma dor de cabeça constante, isso ninguém discute – disse o Sr. Cerveró. – Não nego que várias vezes durante o passar dos anos chegou a cruzar meus pensamentos a ideia de liquidá-lo.

– Isso é novidade para mim. Que bom ouvir isso! Veja só, não existe razão para continuarmos levando esta operação em frente. É um péssimo negócio para todos nós.

– O que você sugere que façamos?

Sr. Figueiredo murmurou:

– Nós devíamos terminar com a raça dele de uma vez por todas.

– Você pensou com calma sobre o que está propondo? Isso implicaria em encerrarmos toda a operação, de modo permanente.

– Eu sei. Mas, você realmente pensa que faz sentido continuarmos tolerando os abusos do Chefão sob o pálio de mantermos a operação em andamento? Isso não é vida!

– Digamos que eu concorde com você – disse o Sr. Cerveró. – Se você está mesmo tão decidido, por que faz o serviço você mesmo?

– É mais fácil falar do que fazer. Eu não sei como fazê-lo! É por isso que estou aqui. Você é o cara dos grandes planos. Você sabe tudo. Até onde me consta, você pode fazer tudo o que quiser.

– Não é bem assim. Mas, também, não é de todo mentira. Eu não sei tudo, mas eu sei como fazê-lo.

– Que ótima notícia! – Disse o Sr. Figueiredo. – Então, o que está esperando? Faça!

– Devagar com o andor, meu amigo. Esta é uma tarefa que para eu executá-la pessoalmente é extremamente difícil. Eu precisaria de vasta ajuda. Muitas coisas poderiam dar errado. Poderíamos acabar só aleijando ele, o que pioraria ainda mais a nossa situação.

– Eu não consigo imaginar como minha situação poderia ficar ainda pior.

– Eu sempre digo que se você pensa que sua situação não pode piorar, é porque você perdeu sua capacidade criativa – disse o Sr. Cerveró.

– É, pode ser. Bem, você que é o inteligente. Eu confio no seu julgamento.

– Para uma ação limpa e sem falhas, para mim há somente um cara para o trabalho. Precisaremos do Sr. Corá.

– Corá Bate-forte? Sem chance! Ele me dá arrepios – disse o Sr. Figueiredo.

– Pare de frescuras, homem.

– Fácil para você falar! Não é você que mora perto dele. Ele é barulhento, mal-humorado, e todo cheio de si por conta de seus músculos. Ele constantemente esbarra em mim e me empurra para os lados. Não gosto nem um pouquinho dele.

– Mas, ele com certeza conseguiria levar nosso plano a cabo – disse o Sr. Cerveró.

– Não tenho dúvidas disso. Ele é um animal! Mas, há um porém. Você bem sabe como ele se queixa o tempo todo sobre a má reputação de sua família, e de como ele não concorrerá para aumenta-la. Como o convenceremos a participar do nosso golpe?

– Deixe isso comigo. Eu vou fazer uma oferta que ele não poderá recusar.

#

Liane Baratta levantou os olhos e checou o horário no relógio pendurado na parede da cozinha. Seus ponteiros indicavam que passava das 21h30min. Ela recém terminara de preparar uma vasilha de alface, tomates e cenoura ralada para seu jantar, e estava pronta para começar a comer. Como era usual para aquele horário, ela ouviu o som da porta da frente da residência abrindo e fechando. Roberto havia chegado em casa.

Ela não sabia muito bem onde ou no que seu marido trabalhava. No primeiro mês de casamento, ela perguntou a Roberto o que ele fazia da vida. De modo seco ele disse para ela cuidar da vida dela e ficar longe dos negócios dele. E foi o que ela fez desde então. Nos seus mais de vinte anos de casamento, enquanto ela cuidou muito bem de seu corpo, Roberto engordou oito quilos por ano. Ele sempre foi um bom provedor, isso era verdade: possuíam uma boa casa, carro novo, dinheiro para fazer compras. No entanto, conforme os anos passaram, a solidão a abraçava cada vez mais. Aquele abraço frio da solidão apertava mais e mais a cada dia tendo em vista que não possuíam filhos, pois Roberto nunca quis. “Filhos custam caro e são fedorentos” ele repetia sempre que ela tocava no assunto. Ela devia ter se separado dele muitos anos atrás.

Liane ouviu Roberto jogar sua valise sobre a mesa de jantar. O som que se seguiu deixou claro que, mais uma vez, ele derrubou ao chão o arranjo decorativo que sua prima Maria havia lhe dado de presente de aniversário alguns anos atrás. Pouco depois, ela ouviu o sofá da sala gemer e estalar sob o peso de Roberto. Agora, não demoraria para ele assassinar o silêncio que reinava na casa ligando a TV a todo volume em algum canal de esportes estúpido.

Mas, claro, primeiro ele gritaria:

– Ô, mulher! Me traz um whisky aí!

Liane sabia de cor o ritual diário de seu marido ao chegar em casa à noite. Este ritual só mudava nas quartas-feiras e sextas-feiras quando ele jantava com seus associados, como ele próprio os chamava. Naquelas noites, ele não retornaria à casa antes das cinco da manhã, completamente bêbado. Aquelas eram noites muito boas, pois ela podia olhar os shows de TV que ela gostava sem qualquer interferência externa. A cereja no bolo era o fato de que naquelas noites Roberto sempre acabava desmaiando no sofá da sala de estar. Verdade fosse dita, conforme os anos passavam, viver em uma casa de dois andares com Roberto se tornando mais e mais gordo ocasionava que cada vez menos ele subia as escadas para dormir no quarto com ela. Isso era ótimo, pois lhe entregava um gostinho de ser solteira e livre.

Ela depositou a vasilha de salada sobre a mesa da cozinha. Pegou um copo, colocou duas pedras de gelo dentro dele, e serviu generosa dose de whisky.

Aquela não era uma das noites de sorte para Liane. Se fosse, Roberto teria pedido a garrafa para ela. Isso significaria que ele beberia até desmaiar no sofá da sala de estar, liberando-a do nojento dever de dormir ao lado dele, cheirando a noite inteirinha seu suor azedo e hálito de tabaco misturado com álcool. O melhor de tudo era que naquelas noites sortudas ela não precisava ouvir ele roncar. Mas, ela não dava sorte. Assim era a vida dela.

Logo que Liane entrou na sala, o cheiro rançoso de fumaça de cigarro instantaneamente queimou suas narinas

– Você não deveria inalar esta fumaça – disse Liane, entregando a Roberto o copo cheio de whisky.

– Vá cuidar da sua própria vida, mulher.

– Quem avisa amigo é.

– Você está é só enchendo meu saco, como sempre – disse Roberto, fumando seu cigarro e baforando a fumaça na direção de Liane.

– Eu me preocupo com você – ela disse abanando com a mão a fumaça para longe de seu rosto. Ela não sabia ao certo a razão de ter dito aquilo. Talvez, fosse por conta de sua criação Católica. Como sua mãe sempre dizia, Liane devia ser uma esposa obediente e temente a Deus. Era sua obrigação cuidar muito bem de seu marido e filhos. Mas, ela não tinha filhos, tinha? Não senhor. A verdade nua e crua era que lá no fundo de sua alma ela não se importava mais com Roberto. O que ela realmente desejava era que Roberto se engasgasse até a morte com aquela fumaça fedorenta.

Roberto disse:

– Você só se preocupa consigo mesma, com gastar todo o meu dinheiro e com ficar com seu corpo malhado em dia.

– Pensei que gostasse do meu corpo. Você sempre elogia ele.

– Gosto – ele disse sem remover os olhos da TV. – Mas, ele me custa uma pequena fortuna, não é mesmo?

– Você tem toda razão, querido. Mamãe ligou hoje. Ela nos convidou para…

– Sem chance nenhuma. Esqueça.

– Você prometeu que seríamos mais presentes na vida dela. Ela está doente, Roberto.

– Não lhe prometi coisa alguma, mulher – ele disse bebericando o whisky e ainda sem remover os olhos da tela da TV. – Eu disse que pensaria a respeito, e pensei. Não vai rolar.

– Por que você está fazendo isso comigo? Ela é minha mãe! Você é tão impérvio.

– Imper-o-quê? – Ele perguntou, agora encarando Liane. – Eu sequer sei o que este palavrão significa. Justo por eu não compreender, eu vou tomar sua atitude como desrespeito. Cuidado!

– O que eu quis dizer é que você é insensível, só isso.

– Problema seu – ele disse, voltando a olhar para a TV.

– Ah, Roberto, por que…

– Se você não tem nada melhor para fazer com sua boca, quem sabe faça algo útil e peça uma tele entrega de um pouco de galinha frita. Anda!

Por um pouco de galinha Liane sabia muito bem que o que ele queria dizer era ordenar um balde tamanho família.

– Claro, querido. Você quer algum acompanhamento?

– O que você acha, Einstein?

– Quais você gostaria hoje?

– Purê de batatas com molho, maionese de repolho e milho.

– Ok – disse Liane, caminhando na direção do telefone para fazer o pedido. Ela poderia oferecer a Roberto um pouco de sua salada ao invés de deixá-lo entupir as artérias com toda aquela gordura hidrogenada. Só que não! – Você quer alguma sobremesa, também? Você costuma adorar o bolo de chocolate deles.

– Com certeza! Peça duas fatias. Estou com fome.

– Que bom para você, querido.

Se ela tivesse só um pouquinho de sorte, eventualmente ele simplesmente estouraria.

Assim, ela pediu dois baldes tamanho família de galinha extra crocante. Vai que fosse hoje o dia de a sorte dar seu ar da graça, não é mesmo?

#

Sr. Figueiredo olhou ao seu redor e se certificou de que todos que eram de alguma forma relevantes à operação estavam presentes naquela reunião. O Sr. e Sra. Pullman compareceram. Na operação, eles eram responsáveis pela troca de subprodutos por reagentes utilizáveis. Também, estavam presentes os gêmeos Marrem. Eles eram os responsáveis por manter a operação limpa e redondinha sem qualquer solução de continuidade. O Sr. Stombaugh gerenciava a usina de energia que abastecia a todos. Já o Sr. Spina era o encarregado da logística, mantendo a operação em pé. Até mesmo compareceu o Sr. Corá. Ele era o músculo da operação, a força bruta.

Sr. Figueiredo viu como bom presságio para o sucesso do golpe o fato de todos terem comparecido. Mesmo com a ajuda do Sr. Cerveró na intenção de assassinar O Chefão, o Sr. Figueiredo precisaria de toda a ajuda que pudesse conseguir para convencer Corá Bate-forte a participar. Ele esperava que o grupo o convencesse. Afinal de contas, de um jeito ou de outro, durante o passar dos anos O Chefão havia prejudicado cada um deles das mais diferentes maneiras.

– Sr. Cerveró – disse Sr. Figueiredo, – obrigado por me auxiliar na organização desta reunião. Muito obrigado a todos por comparecerem. Como vocês sabem, há muitos anos eu defendo que O Chefão não deveria estar à frente desta operação…

– Você sabe muito bem que não há ninguém para substituí-lo – disse um dos Marrem.

– É verdade – disse a Sra. Pullman. – Para o bem ou para o mal, nós não estaríamos aqui se não fosse por ele.

– Com todo o respeito, a senhora não pode negar o fato de que ele está nos matando de trabalhar.

– Ele é um chefe ruim, não há dúvida disso – falou o Sr. Stombaugh. – Eu mesmo sofro muito nas mãos dele. Todos os dias ele me sobrecarrega com as mais variadas porcarias.

O Sr. Pullman disse:

– O mesmo acontece conosco. Estamos sufocando aos poucos naqueles fossos negros. Ele não parece se importar com nada. Ele simplesmente segue nos forçando ao limite.

– É disso que estou falando! Precisamos terminar com estes abusos de uma vez por todas! – Disse o Sr. Figueiredo.

Corá Bate-forte disse:

– Se me permitir um aparte, Sr. Figueiredo, você parece estar se esquecendo de um ponto crucial desta situação: sem O Chefão, não há operação. Nosso trabalho não existirá mais.

– Estou bastante ciente deste fato, Sr. Corá.

– Desculpe-me, Sr. Figueiredo – disse o Sr. Spina. – Se você sabe que não há nada que possamos fazer sobre a liderança do Chefão, que não há ninguém capaz de substituí-lo, qual é a razão de ter convocado esta reunião?

– Direto e sem rodeios, vamos matá-lo e aceitar as consequências.

– Você só pode ter enlouquecido! – Disse um dos Marrem. – Você tem noção das implicações devastadoras da sua proposta?

Sr. Spina disse:

– Isso é suicídio! Matar O Chefão, pois sim… Eu jamais escutei algo tão débil em toda a minha vida.

– Só mesmo o Sr. Figueiredo para sequer considerar algo tão estúpido – disse Corá Bate-forte.

– OK, senhores, eu vou embora – disse o Sr. Stombaugh.

Sr. Cerveró disse:

– Senhores, por favor. Eu compreendo que, a uma primeira olhadela, a proposta do Sr. Figueiredo é drástica, até mesmo ultrajante. Deixem-me apontar, no entanto, que ele tem certa razão. O que aturamos hoje em dia não é vida. É somente a sombra do ápice de nossa operação, algo em torno de trinta anos atrás. Se o Sr. Figueiredo se demitir, e ele me assegurou que é o que ele fará, nós entraremos em sérios apuros. É ele que processa todas as drogas, como vocês bem sabem. Já há algum tempo nós estamos em constante declínio mesmo com todos trabalhando noite e dia. Não há como afastar a verdade dos fatos. Sem o Sr. Figueiredo, nós mergulharemos de cabeça no fundo de um abismo. Não dispomos de outra opção.

– O que você quer dizer com isso, Sr. Cerveró? – Perguntou a Sra. Pullman.

– Estou expondo que eu concordo com o Sr. Figueiredo. Também não posso mais viver desta maneira. Não vejo qualquer futuro para esta operação. Penso que o melhor é encerrarmos de uma vez por todas a nossa participação. Doa a quem doer.

– Não estou 100% convencido – disse o Sr. Stombaugh. – Mas, é bem verdade que não temos como manter a operação funcionando sem o Sr. Cerveró ou o Sr. Figueiredo. Isso é um fato.

– Concordo – disse o Sr. Pullman. – Mas, morte é um tanto quanto irreversível e radical. Vocês não acham?

Sr. Figueiredo disse:

– Este é o xis da questão. Não sofreremos mais. Não seremos mais abusados. Estaremos para sempre livres das garras do Chefão e de suas demandas absurdas.

– Bem – disse um dos Marrem, – apesar de o Sr. Figueiredo ser um excelente processador de drogas, ele é instável e um tanto temperamental. Não me entenda mal.

– Sem problemas – disse o Sr. Figueiredo.

– Ótimo – continuou um dos Marrem. – Por esta razão, eu não aceitaria a palavra dele por si só. O Sr. Cerveró, no entanto, é o homem com os planos. Eu sempre confiei em seu julgamento.

– Sim, entendo perfeitamente o que você quer dizer – disse o Sr. Spina. – Eu também confio no julgamento dele.

– Nós também – disse o Sr. Pullman.

– Concordo – disse o outro Marrem.

Sr. Cerveró disse:

– Qual a razão desta cara tão séria, Sr. Corá? Você mal disse algumas palavras hoje.

– Eu sei muito bem aonde isso tudo vai terminar. E não estou gostando nem um pouco.

– E por qual razão o desagrado, se não se importa que eu pergunte?

– Você é que me diga, Sr. Cerveró. Se acaso todos concordarmos em descer o porrete no Chefão, como você pensa em fazê-lo? Antes que responda, deixe-me esclarecer que minha família possuiu uma péssima reputação por matar pessoas. Não possuo qualquer intenção em aumentar esta má fama.

– Não se preocupe com isso, Sr. Corá – disse o Sr. Cerveró. – Eu não creio que você seja o homem certo para este trabalho.

– Ah! Excelente, então.

– Eu intenciono pedir ajuda ao Sr. Basso neste tópico tão delicado.

– O quê? – Perguntou Corá Bate-forte. – Basso, o que chamamos de O murcho? Você só pode estar de brincadeira!

– E por que eu estaria brincando?

– Ele não é sequer um Cabo. É mero soldado raso. Ele é o filme da semana, se tanto!

Sr. Cerveró disse:

– Ele com certeza pode fazer o trabalho. É só lhe darmos tempo suficiente.

– Sim, tipo uma semana inteira! – Disse Corá Bate-forte.

– Ele consegue fazê-lo em uma noite, não tenho qualquer dúvida.

– Você está delirando – disse Corá Bate-forte. – O Murcho vai somente machucar o Chefão, e isso nos colocara em sérios apuros. Depois não diga que não avisei.

– Teremos de apostar em nossas chances com o Sr. Basso – disse o Sr. Cerveró. – Nenhum de nós é capaz de fazer melhor.

– Fale por si mesmo! Eu poderia fazê-lo em um piscar de olhos – disse Corá Bate-forte.

– Faça, então! – Disse o Sr. Figueiredo.

– Alô? Tem alguém aí? Você não escutou que eu não sujarei ainda mais o nome de minha família?

– Entendo – disse o Sr. Figueiredo. – Então, todos estes seus músculos são só para bonito? Não servem para nada?

Sr. Cerveró disse:

– Senhores, não há razão para discussão. Estou plenamente confiante de que o Sr. Basso irá fazê-lo a contento. Ele sempre quis ser o maioral. O Poderoso Sr. Basso! Isso até que soa muito bem.

– Mas, de jeito nenhum! – Disse Corá Bate-forte. – Eu sou o mais forte! Eu sou o mais poderoso. Eu sou o bombeador sangrento! Eu carrego todos vocês nos meus ombros. Vocês se esqueceram disso?

– Ah, eu não esqueci de coisa alguma – disse o Sr. Cerveró. – Então, Sr. Corá, o que me diz? Você é mesmo tão poderoso? Honrará o nome de sua família ou não?

#

Liane cutucou seu IPhone sobre o criado-mudo ao lado da cama e conferiu que já eram 03h02min. Ela estava sonolenta, mas não conseguia dormir. O fedor de suor, tabaco, álcool e galinha frita emanando de Roberto estava com toda certeza ajudando a mantê-la acordada. No entanto, o que era realmente intolerável e impossível de se dormir ao lado era o seu ensurdecedor ronco.

Liane chegou a ponderar que quem sabe fosse a sua audição que se tornara mais sensível, tendo em vista que nos últimos dois anos Roberto dormira mais e mais noites no sofá da sala de estar. Ou, talvez, ela simplesmente não aguentava mais o Roberto. Naquele momento, o que ela mais queria no mundo era que ele ficasse quieto e a deixasse dormir. Se ele parasse de respirar, então, seria a perfeição!

– Liane – disse Roberto, sacudindo-a na cama.

O coração dela acelerou dentro do peito. Ele nunca a chamava de Liane.

– O que foi?

– Não estou me sentindo muito bem. Eu acabei de ter o mais estranho dos pesadelos.

– Como assim? Que tipo de pesadelo? – Ela perguntou enquanto acendeu a lamparina ao lado da cama. Quando ela se virou para olhar Roberto, ele soube na mesma hora que algo estava muito errado. Ele estava muito pálido, de olhos arregalados, encarando o teto do quarto.

– E-eu sonhei que meus órgãos querem me matar.

– Como é que é? O que você quer dizer com isso?

– Isso mesmo! Meu fígado arquitetou tudo com o cérebro… Ai, meu Deus! – Ele disse agarrando o peito com sua mão. – Ah-ai… – e Roberto fechou com força a mão sobre seu peito, para em seguida relaxar suas mãos sem dizer palavra, agora totalmente imóvel.

– Roberto? Roberto! – Liane gritou sacudindo Roberto. Entretanto, ela não recebeu qualquer resposta dele.

Com seus dedos, ela tateou o pescoço e o pulso dele, procurando o batimento cardíaco. Nada. Ela se debruçou sobre Roberto, e não conseguiu escutar qualquer respiração. Ela até mesmo fechou com as mãos a boca e nariz dele, ao que ele não reagiu de modo algum.

Sem qualquer réstia de dúvida, ela sabia que ele havia batido as botas.

– Que bom para você, querido – ela murmurou, deitando de volta na cama.

Liane lidaria com o cadáver de Roberto ao amanhecer. Ele já estava fedendo quando estava vivo. Algumas horas a mais, mesmo morto, com certeza não fariam qualquer diferença. Afinal de contas, ela tinha mais o que fazer naquele momento.

Ela, então, estendeu o braço e desligou a lamparina ao lado da cama.

De jeito maneira ela desperdiçaria aquele maravilhoso silêncio.

 

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