<strong>Contos</strong>

Contos

Além de ser romancista, R. Lovato foi um dos premiados no Panorama 2010/2011 da FC do B com o conto Nulla in mundo pax sincera, publicado em dez/2011.

Também foi premiado com o conto A moeda humana do Banco Central no concurso Nossos Valores na I Semana Organizacional do Banco Central do Brasil.

VIDA DE GADO

O gordão Paulo esperava por um táxi sentado em uma mureta ao lado de uma parada de ônibus. Ele observava com atenção e muito interesse um pai e filho discutirem ao seu lado, por certo esperando a chegada do ônibus.

Além de ocupar seus dias pensando em suculentas picanhas, filés malpassados, lombo de porco com queijo e linguiças bem apimentadas, o gordão Paulo também adorava bisbilhotar e se intrometer na vida alheia.

O pai ralhava com o filho:

– Não me falta mais nada, moleque! Desde quando começou com essa história idiota? Isso é coisa daquela sua tia desmiolada…

– A tia não tem nada a ver com isso, pai. Faz muito tempo que penso em parar de comer carne. Muito tempo. Eu só não tinha coragem de contar a você, pois sabia que teria um chilique.

– Chilique coisa nenhuma! Não comer carne faz mal. Isso é absurdo!

– Viu só? Sabia que você surtaria…

– Claro! É um ultraje à memória de seus avós. Uma verdadeira infâmia! Ora essa, não comer carne. Onde já se viu? Sua mãe, essa sim, vai ter um chilique daqueles.

– Deixa que eu falo com ela. Sei que ela vai entender a minha escolha em ser vegetariano.

– Vegetariano? O meu filho? – O pai levantou as mãos e os olhos para o céu. – Deus, pai, todo-poderoso, ajuda-me! Livrai este menino desta tentação do Demônio!

– Você deveria ouvir seu pai! – Intrometeu-se o gordão Paulo, que pigarreou e deu uma cusparada no chão.

O pai se virou para olhar o gordão Paulo, para em seguida voltar a encarar o filho:

– Viu só, menino? Todo o mundo acha essa história de vegetarianismo ridícula! Você vai envergonhar toda a família.

– Você não entende, pai. Eu morro de pena dos…

– Dos o quê?

– Dos animais! É um absurdo matarmos seres vivos para comer. Não acho certo. Podemos viver muito bem nos alimentando só com plantas, frutas e derivados animais.

– Pena dos animais! Era só o que faltava.

– Isso que você está falando é mesmo uma grande bobagem, garoto – emendou o gordão Paulo intrometendo-se no que não era da sua conta. – Este é o propósito de existirem os animais: alimentarem seres mais inteligentes e evoluídos do que eles. É a lógica da cadeia alimentar, da própria vida. Sem contar que animais são estúpidos, nem sabem o que acontece com eles.

O filho argumentou.

– Sou obrigado a discordar do senhor. Os animais possuem sentimentos sim. Justamente por sermos seres inteligentes é que devemos optar por não matar. Além do mais, carne é de difícil digestão, causa câncer…

– Moleque, você está a um segundo de uma coça! – Disse o pai.

– Hahaha – o bisbilhoteiro gordão Paulo riu segurando a vasta pança. – Uma vaca com sentimentos, essa é boa! É claro que podemos comer pasto, mas e isso é vida? O que é melhor do que um bifão acebolado bem suculento? Ou aquele filé grelhado? Uma costela doze horas, então, é de lamber os beiços. Nossa, cheguei a ficar com fome.

– Concordo – disse o pai.

– Vocês não compreendem. Coitados dos animais! Assassinados para servirem à nossa gula. Causamos sofrimento para enchermos a barriga! – E o filho bateu as mãos no abdômen, imitando o gordão Paulo: – Sangue, maldade, carne gorda.

O gordão Paulo bufou:

– Garoto, se você fosse meu filho eu lhe passaria a cinta. Você ia ver só o que é bom. Essa história de não comer carne é coisa de gente fresca, ou de garotinhas. Tome vergonha nesta cara!

– O que fiz para merecer tamanha afronta do meu próprio filho? – Disse o pai.

O filho hesitou. Não queria desapontar seu pai, nem desgraçar o nome de sua família. Mas, também não queria que os animais sofressem. O que faria?

Ele, então, olhou o gordão Paulo com suas bochechas vermelhas e lustrosas chacoalhando o corpo inteiro ao gargalhar, e perguntou:

– Quer dizer que o senhor não acha maldade matar animais para comer?

– Claro que não! Que culpa temos de sermos os seres mais evoluídos deste planeta? Somos superiores, é nosso direito de conquistadores, por assim se dizer.

– Entendo. E o que o senhor me diz sobre o sofrimento dos animais? Eles também possuem suas famílias.

– Não fale uma besteira dessas! Animais com famílias, hahaha. Hoje em dia os métodos de abate destes animais irracionais são tão rápidos que eles não sentem nada. Sem contar que eles não possuem alma, não vão para o céu nem nada disso. Morreram, terminou. É como apagar uma luz. Apagou, pronto.

– Sei. O senhor tem certeza disso?

– Mas, é claro que tenho. E lhe digo mais: a maioria dos animais, acaso raciocinasse, provavelmente se alegraria em virar alimento para uma raça superior.

– Como assim?

– Assim, ora. É uma honra servir de nutrição para seres mais evoluídos. O senhor não concorda? – O gordão Paulo perguntou ao pai.

– Sem dúvida alguma. É a ordem natural das coisas. Sempre disse isso ao meu filho, não e mesmo?

– É verdade, pai. Bem, vocês dois são mais velhos do que eu e sabem melhor das coisas da vida. Tudo bem, vou postergar mais um pouco a minha decisão de ser vegetariano.

– É assim que se fala – bradou o gordão Paulo se levantando da mureta. Seu táxi havia chegado.

– Que bom, meu filho. Senhor, muito obrigado por sua ajuda! – Disse o pai dando tapinhas nas costas do gordão Paulo.

– Capaz, não foi nada. É um prazer ajudar qualquer pessoa a desistir do disparate de sequer ponderar ser vegetariano.

– Pai, este senhor é tão simpático, e ele falou que estava com fome. Poderíamos convidá-lo para almoçar em nossa casa.

– Claro, claro. Ótima ideia.

– O que acha, senhor? Um bifão suculento? Minha mãe é mortal na grelha.

– Mas é claro! Eu jamais recuso um bom prato de carne suculenta. Será um prazer – disse o gordão Paulo lambendo os beiços. – A verdade é que esta conversa toda deixou minha barriga roncando! Podemos ir todos no meu táxi.

– Ótimo. O senhor gosta de carne fresca? Temos um pequeno sítio, podemos abater um animal na hora. Ou o senhor tem medo de sangue? – Perguntou o garoto novamente canibal.

– Que medo de sangue que nada. Adoro carne fresca! – Disse o gordão Paulo no último dia de sua vida de gado.

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Orgulhoso, o pai observou seu filho conduzir o gordão Paulo pelo braço, que entrou no táxi com seu andar pachorrento. Mensurando o corpanzil do convidado, ele não possuía dúvida de que por vários dias sua família se fartaria em refeições de carne gorda.

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