<strong>Contos</strong>

Contos

Além de ser romancista, R. Lovato foi um dos premiados no Panorama 2010/2011 da FC do B com o conto Nulla in mundo pax sincera, publicado em dez/2011.

Também foi premiado com o conto A moeda humana do Banco Central no concurso Nossos Valores na I Semana Organizacional do Banco Central do Brasil.

FLUKES OF DESTINY (Acasos do destino)

 *Conto originalmente escrito em inglês, vencedor do 1º Lugar no Prêmio de Contos de Ficção do site Asymmetry, Óregon, EUA.

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Mais uma vez, Balian estava no lado de sua mãe cruzando através da vizinhança “Garotada Feliz”, como ele a apelidou. Toda vez que passavam por ela, de certa distância, Balian podia ver a garotada brincando nas margens da baía amarela, correndo e deslizando em suas areias macias.

Balian sempre se perguntou como seria brincar naquelas areias douradas, livre para fazer estripulias? Deixar o vento e o sol brincar com sua pele nua? Ele se tornaria completo?

– Por favor, mãe, você poderia parar por um momento?

– O que é desta vez, querido?

– Eu quero vê-los brincar por alguns segundos. Por favor, – disse Balian.

– Somente por um momento.

– Está bem.

Observar a garotada aproveitando a praia ensolarada com suas famílias azedava ainda mais o sabor da solidão na boca de Balian. Ele era o único jovem de sua família. Nenhum dos adultos brincava com ele. Nunca.

Por que ele não possuía irmãos? Por que ele deveria desperdiçar sua juventude trancado longe de diversão e jogos?

– Por que não posso ir lá, mãe?

– Você sabe que esta é uma zona muito perigosa. A família Orsini a controla.

– Sim, mas eles não têm nenhum problema com a gente.

– Não por enquanto, mas nunca sabe.

– Nós também somos uma família poderosa. Poderíamos lutar contra eles, – disse Balian.

– Confrontação não é nosso ponto forte. Nós temos poder, sim, mas nos faltam as ferramentas. Os Orsini nos comeriam vivos.

– Você está exagerando.

– Não, não estou.

– Perigo há por todo lado, inclusive em casa, – disse Balian. – Você quase não me deixa sair, nem mesmo para respirar um pouco de ar fresco.

– Nós perdemos seu pai dessa maneira. Não arriscarei perder você também.

– Podemos pedir para eles virem até a nossa casa para brincar comigo, então?

– Não funciona assim. A vida deles é bastante diferente da nossa.

– De que maneira?

– Eles não se encaixam no nosso mundo e vice-versa.

– Por quê? – Balian perguntou.

– É um direito de nascença. Nós somos apenas diferentes.

– Eu queria ser um deles.

– Não diga isso. Você é muito afortunado pela vida que você tem.

– Em qual sentido? – Perguntou Balian.

– Você não conhece fome, nem acorda todas as manhãs desejando simplesmente permanecer vivo. Você tem uma família que ama e protege você.

– Eu não tenho o sol.

– Nenhum de nós tem. Com o tempo, você vai se acostumar com isso.

– Papai não se acostumou. Ele estava procurando pelo sol quando…

– Você não sabe se isso é verdade.

– E se eu escolher ser como eles?

– Por que você diz essas coisas? Você sente falta do seu pai, é isso?

– Eu sou… vazio, – disse Balian.

– Você é o que você é. Não há nada que você possa fazer sobre isso.

– O que eu sou?

– Ok, querido, ficamos tempo suficiente aqui. É hora de ir.

– Sim, mãe, é realmente minha hora de ir.

Balian olhou para as outras baleias azuis ao seu redor. Ele era filho de seu pai. Levantando suas nadadeiras caudais (tail flukes), ​​ele nadou diretamente para a praia dourada com suas areias macias repletas de leões marinhos felizes. Ele carregava o sol em seus olhos.