<strong>O peregrino Joshua</strong>

O peregrino Joshua

Joshua é uma coluna com publicação semanal às quintas-feiras no Jornal Diário Regional e aos sábados no Jornal Folha do Mate.

Nela Rafael Lovato trata de temas cotidianos vivenciados por um velho peregrino, no início do século passado.

A série "O peregrino Joshua" está sendo publicada pela Editora Zap Book, e contará com ao menos 7 volumes, e que podem ser comprados no site www.zapbook.com.br

26 janeiro 2017

A vida que criamos

 

O peregrino Joshua permanecia no vilarejo de Tocaia Grande.

 Com o passar dos anos, seu joelho doía mais e mais. Era uma boa ideia descansá-lo por mais um ou dois dias.

Sentado na varanda da pensão vislumbrando estrelas, no fundo de seu alforje encontrou um papel. Nele, à luz de um candeeiro leu pensamentos escritos quando ainda jovem:

 

Às vezes, odeio a vida que criei.

Invadi e assenhoreei-me dos reinos que cobicei.

Mas, estas mesmas homéricas batalhas que venci,

Entregam-me amanheceres repetidos.

Às vezes, odeio a vida que criei.

Dia sim, dia não, controlo-me para não quebrar minha coroa,

Afinal, por ela derramei suor e sangue.

Então, por que ela só me oferece o vazio?

Às vezes, odeio a vida canibal que criei.

O peso da láurea me persegue, castra minhas vontades.

Impondo obrigações, roubando minha vida,

Ela me devora vivo.

Às vezes, odeio a vida canibal que criei.

Nada é como outrora imaginei; dias cinzentos.

Não consigo escapar; sou obrigado a continuar.

Por que não consigo descansar?

Às vezes, odeio a vida canibal que criei.

A coroa tem sede, vontade e desejo próprios.

As batalhas não tem fim; o querer mais nunca acaba.

Força-me a manter meu reino; assombra minha alma.

Odeio a vida canibal que criei.

Ela não me deixa desviar do que o mundo atira em mim.

A tudo combatendo, perco meu precioso tempo.

Por que não posso baixar minhas armas?

Odeio a vida canibal que criei.

Gostaria de olhar para os lados,

Ver a vida simples ao redor, aproveitar o viver.

Regozijar minhas vitórias; aposentar meus machados.

Odeio a vida canibal que criei.

Mas, se meu reinado me consome;

Se o poder me angustia, se o dever me oprime,

Por que não renuncio à minha coroa?

Odeio a vida canibal que criei?

 

Joshua dobrou e guardou o papel no fundo do alforje. Elevou os olhos e retornou a fitar estrelas.

Mesmo depois de vividos tantos anos, havia perguntas para as quais ainda não encontrara resposta.

"6" comentários em: A vida que criamos

  1. Rafael - 26 de janeiro de 2017

    Eduardo Rech
    Rafael, sempre um prazer ler seus textos, abração !

    • Rafael - 26 de janeiro de 2017

      Valeu Eduardo!

  2. Rafael - 26 de janeiro de 2017

    Alexandre Backes Kuchenny
    Parabéns Rafa! muito bom, vou salvar o link do seu site aqui

    • Rafael - 26 de janeiro de 2017

      Abraço Alexandre!

  3. Rafael - 26 de janeiro de 2017

    Elaine Yara Uhlmann
    Sempre que posso acompanho teus textos.:)

    • Rafael - 26 de janeiro de 2017

      Beijos Elaine!

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